quinta-feira, agosto 03, 2017

O silêncio é agradável: o recolhimento

Por Fulgencio Espa, “Conta comigo – O acompanhamento espiritual”, p. 95-99


Quando existe amor, o silêncio é uma tarefa agradável.
Como dizia Erasmo de Rotterdam, “a verdadeira amizade chega quando o silêncio entre os dois parece agradável”. O silêncio é uma oportunidade de íntimo diálogo entre as pessoas que se querem bem. Basta estarem juntas. Um gesto, uma palavra, ou mesmo não fazer nada, já é uma conversa cheia de vigor.
Saber-se amado por Deus e viver em amizade com Ele faz do silêncio algo agradável. O tempo transcorre depressa. São João Maria Vianney referia-se a isto em uma de suas pregações, quando observava: “Vejam: quando eu era pároco em Bresse, em certa ocasião quando quase todos os meus colegas haviam caído doentes, tive de fazer longas caminhadas, durante as quais eu rezava ao bom Deus e, creiam-me, o tempo se tornava curto”. (Del oficio de lectura, 4. VIII)
Quando se alcança este nível de silêncio interior, a própria vida é mais agradável. Centrado no essencial, a possibilidade de se achar desequilibrado pela multidão de estímulos diários acaba bastante reduzida. A mulher recolhida, o homem sereno, gozam da atração de viver no essencial. Sabem estar consigo mesmos e com os demais, exatamente porque conheceram o caminho do recolhimento.
Para o homem atual, é difícil abandonar a esfera da eficiência, mas temos de ser capazes de lutar esta batalha. Trata-se de tentar deixar de pensar continuamente no que temos de fazer. Investir tempo na gestão do tempo. Dedicar um momento de cada dia para ver a melhor maneira de administrá-lo, e aprender a realizar com êxito o dia a dia. Colocar por escrito as tarefas a serem realizadas, as ligações que é preciso fazer, as mensagens a enviar, a esvaziar da cabeça toda essa informação. Assim, deixaremos espaço para o essencial e cumpriremos nossas obrigações uma depois da outra. Carregar tudo de uma só vez é uma pesadíssima tarefa. Em definitivo, ser possuidor da profunda sabedoria de não querer ter tudo agora, de não querer fazer tudo já. Chegar à cama com a sensação de que restam mil tarefas pendentes... e não se preocupar em excesso com isso. Deus vela por nós, um a um. Ele sabe mais, e nós “fizemos o que tínhamos de fazer”. (Lc 17,10)
A maneira de conseguir este silêncio interior consiste em praticar atos explícitos de recolhimento. Sobre isto também irá versar nossa conversa no acompanhamento espiritual. Santa Teresa Benedita da Cruz relata que, enquanto foi professora nas dominicanas, uma grande atividade ocupou suas tarefas diárias. Diante da impossibilidade de estar na capela todo o tempo que desejava, encontrou um remédio eficaz para a dispersão: refugiar-se, várias vezes ao dia, por breves instantes, em seu santuário interior. Desse modo, ela conseguiu não ceder ao impulso de dispersão e conservar em sua alma o silêncio que abre para a intimidade com Deus.
A experiência ensina que esta batalha pelo recolhimento é uma luta incessante contra nós mesmos. Convém levá-lo em conta, para não desesperar nesta guerra de paz. Em primeiro lugar, é necessário um momento diário de oração. “O verdadeiro cristão tem de conquistar em sua vida um lugar para a contemplação, custe o que custar.” (D. von Hildebrand, p. 98) No momento em que nos abandonamos à execução de uma tarefa atrás de outra, sucumbimos no torvelinho da atividade e nos dispersamos. Vem a infecundidade e a tristeza: a falta de sentido. “Permanecemos sempre tensos para algo que é preciso resolver, e muitos só conhecem o descanso ou a diversão como contrapeso para o trabalho.”
Na direção espiritual, será prioritário fixar para a oração “um tempo suficiente, com horário determinado, se possível. Ao lado do sacrário, fazendo companhia para aquele que ali ficou por Amor. E se não houvesse outro jeito, em qualquer lugar, porque nosso Deus está de modo inefável em nossa alma em estado de graça”. (Amigos de Deus, nº 249) É próprio dos sábios conhecer-se, e deixando ao arbítrio do dia a dia o momento da oração, corre-se o risco de que a meditação se extinga, desapareça ou seja caprichosa. “Meditação. – Tempo fixo em hora fixa. – Do contrário, adaptar-se-á à nossa comodidade: isto é falta de mortificação. E a oração sem mortificação é pouco eficaz.” (Sulco, 446) Uma vez atingida esta meta, nascerá outro esforço: o de não converter a oração em tarefa de agenda, em algo a ser feito. Mas sobre isto falaremos mais adiante.
O segundo ato explícito de silêncio interior é formado pelas orações vocais e jaculatórias; isto é, esta contínua referência a Deus nas tarefas cotidianas. Exige um esforço sustentado no tempo. Seu fruto consiste em não nos deixar sufocados pela pressa e em saber que estamos acompanhados. Ao menos temos de tentar.
Perguntar ao Senhor durante o dia: Que pensas sobre isto que perturba? Que pensas que devo fazer nesta ou naquela situação? Contar com Deus e com a Virgem. Dirigir-lhes palavras de abandono, talvez aprendidas quando éramos pequenos, e que trazem tanto consolo. Começar a manhã dedicando-lhe o dia, e encerrá-lo com a oração das Ave-Marias. Durante a jornada, pequenas frases cheias de ardor: Jesus, te amo. Senhor, não entendo. “Primeiro, uma jaculatória, e depois outra, outra... até que esse fervor pareça insuficiente, porque as palavras se tornam pobres... e a gente se entrega à intimidade divina, em um contemplar a Deus sem descanso e sem cansaço. Vivemos, então, como cativos, como prisioneiros [...]. Começa-se a amar a Jesus de maneira mais eficaz, com um suave sobressalto.” (Amigos de Dios nº 296)
Finalmente, poderia acrescentar muitos outros atos explícitos de recolhimento: a participação habitual na Eucaristia, a confissão frequente, a leitura espiritual, a mortificação, a devoção a Maria... Deixo conscientemente esta tarefa para a terceira parte deste livro, quando falaremos do conteúdo concreto que deve ter nossa conversa na direção espiritual. Aqui, basta fazer referência a isso para que, quando tratarmos do assunto, ninguém seja tão lerdo a ponto de pensar que a vida espiritual consiste em acumular cada vez mais práticas piedosas. Não. Trata-se de guardar o silêncio, cujo fruto é a vida verdadeira.
Se chegássemos a ter a convicção de que o acompanhamento espiritual ajuda a viver nesse abandono, nessa capacidade de desfrutar, seria motivo suficiente para começar a praticá-lo. A voz da Igreja e a experiência histórica afirmam que é assim.

Que esperamos, então, para iniciar esta caminhada?

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