quinta-feira, agosto 31, 2017

O Espírito Santo, um divino “conselheiro” das almas

Por L.J. Callens, “A pedagogia do Espírito Santo”, p. 31-35.


A luz interior do Espírito

Jesus havia anunciado: O Paráclito, o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, ele vos ensinará todas as coisas, e vos recordará tudo o que vos tenho dito (Jo 14,26). Ele vos ensinará toda a verdade, porque não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido (Jo 16,13).
Eis fixada nossa atenção sobre a ação do Espírito Santo em nós: sua missão não será ensinar-nos coisas novas, mas iluminar-nos interiormente a fim de que a Palavra de Deus, os ensinamentos de Cristo, se tornem para nós luminosos, geradores de vida. Será propriamente ação do dom de inteligência, que não somente há de reforçar a visão da fé a respeito dos acontecimentos que nos tocam, mas ainda nos comunicará um senso divino, uma espécie de instinto de segurança espantosa, para discernirmos e reconhecermos a Deus em todas as coisas. Far-nos-á entender o pensamento divino aí incluso.
Quem melhor que o Espírito Santo poderá mostrar-nos o que é divino nas realidades humanas e nos acontecimentos da vida, ele que é seu autor? Pela fidelidade às suas inspirações, fazemo-nos “clarividentes”. Sem ele, jamais chegaríamos a essa profunda e segura visão. A ação do Espírito Santo sobre a inteligência é definível numa expressão de singular alcance: far-nos-á passar da fórmula à realidade das coisas. Mas o que isso significa?

O Espírito Santo cria convicções geradoras de vida


Acontece conosco, no mundo das realidades espirituais, o mesmo que é tão frequente na criança, entregue ao mestre que deve instruí-la e educá-la: começa ele por inculcar-lhe definições, princípios fáceis de guardar; a criança recita-os sem erro, sem hesitação: a memória entrou em jogo, sozinha. Será que realmente compreendeu? Certamente não! São palavras que decorou, na maior parte das vezes, sem entender seu sentido e inclusive sem estar convencida da verdade das mesmas. Só à custa de pesquisas, de esforços, chegará mais tarde a apanhar a realidade encerrada nas palavras que pronuncia. Somente, então, verá ser verdade o que lhe ensinaram, porque entreviu claramente a equivalência entre a palavra articulada e a verdade que exprime. Terá passado da fórmula, anteriormente obscura e complexa, à ideia clara, que agora o convence. Reconhece-se o verdadeiro educador pelo seguinte sinal: ele cria convicções geradoras de vida.
Tal é nossa condição para com Deus. As verdades divinas que ele nos comunica hão de ser necessariamente traduzidas em palavras humanas. Adotará nossa linguagem, se quiser que as compreendamos. Adapta-se às nossas maneiras e emprega todos os meios ao nosso alcance, a fim de atingir o íntimo de nosso espírito e tocá-lo com a verdade proclamada. Mas, basta que Deus fale? Não terá de intervir, por seu Espírito, de maneira mais direta ainda, mais pessoal? Não lhe cabe – como excelente educador que se propõe ser – ultrapassar esse estágio e fazer Sua palavra tornar-se, para nós, realidade vivida?
Ora, a ideia entra na vida apenas quando se transforma em convicção. É nisso que consiste exatamente – por que não o dizer? – o drama experimentado por tantos cristãos de hoje. Sabem o que devem fazer para serem fiéis às exigências de seu ideal, conhecem as fórmulas de sua fé e da lei moral. No entanto, quantas vezes essas são para eles simples palavras, cujo sentido vital jamais perceberam? Eles param na fórmula – que com certeza seriam capazes, também eles, de repetir de cor, sem hesitação nem embaraço. Não perceberam, contudo, a realidade espiritual aí presente, principalmente se não a vivem. É nesse afrouxamento que se encontra a melhor explicação para a sua mediocridade, para a monotonia de sua vida, de sua fraca irradiação: a verdade religiosa para eles não é convicção do coração, fonte vivificante, dinamismo generoso.
Foi exatamente isso o que Jesus anunciou à samaritana ao lhe dizer: A água que eu lhe der virá a ser nele uma fonte de água que emana para a vida eterna (Jo 4,14). Não busqueis mais longe o motivo por que tantos cristãos, “sal da terra e luz do mundo”, perdem sua força e projetam claridade tão pálida.
Tendes a verdadeira explicação do fato, que surge nitidamente: eles vivem de fórmulas. Aderem a verdades, que para eles não se tornaram realidades. Vede, ao contrário, o que se produz numa existência se penetrar na verdade divina com todas as suas forças, para vivê-la e exprimi-la em um nítido testemunho! É assim que começa a aventura da santidade.
Antão, jovem patrício, ouve o diácono cantar no ambão o evangelho do jovem rico: Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens, e dá-o aos pobres... Depois, vem e segue-me (Mt 19,21). Então, eis acende-se nele uma luz interior, uma força desconhecida, que comove o seu coração e o faz partir para o deserto sem dar explicações, sem olhar para trás, com a certeza triunfante de não se enganar. E sob a ação proveniente da graça divina, sem mérito seu, Antão é tomado por uma fidelidade jamais desmentida até à extrema velhice e, assim, torna-se o pai dos monges do deserto, o legislador do cenobitismo.
O Espírito Santo havia feito tudo nesse coração juvenil[1].
Como Antão teria podido imaginar que, penetrando na basílica, se produziria nele tal drama que transformaria sua vida de maneira tão total? Isso não faz eco ao drama que viveram os ouvintes de Pedro, no dia de Pentecostes, após a pregação do apóstolo? Depois que ouviram estas coisas, ficaram compungidos no seu coração e disseram a Pedro e aos outros apóstolos: Que devemos fazer, irmãos? (At 2,37). Antão, com a divina tomada de posse, havia passado num instante da fórmula evangélica, que sem dúvida já conhecia por tê-la ouvido, à realidade vivida; enquanto outros, que como ele haviam ouvido atentamente, talvez até com curiosidade, iam novamente para seus negócios e prazeres. Antão havia compreendido, para sempre, o que é ser chamado por Deus, ser “apreendido” por ele, como outrora fora Saulo de Tarso, no caminho de Damasco (cf. Fl 3,12).
Maria Goretti seguira assiduamente as aulas de catecismo do padre de Nettuno. Havia aprendido o que é o pecado e os danos que este causa à alma, atacando a vida divina para destruí-la totalmente, se houver consentimento livre. Quem pode dizer o que significava isso para o espírito dessa criança de doze anos? Talvez soubesse a lição de cor e houvesse merecido, naquele dia, um elogio por tê-la aprendido bem. Mas, veio o dia em que ela se viu diante da realidade do mal que se apresentava em seu aspecto mais apaixonado, e teve de optar e provar que essa palavra, “pecado”, tão banal na aparência, era para ela o único perigo a evitar a qualquer preço, mesmo pelo da morte. O Espírito Santo a havia misteriosamente lhe visitado e, fortificada por sua luz, provou, numa hora de heroísmo, que ser fiel a Deus é empenhar-se em luta corajosa, não havendo outra saída para tal situação que o sacrifício da própria vida.
Que lição para tantos cristãos que também aprenderam em sua infância a noção de pecado e as devastações que provoca, mas que, na hora da tentação, não sentem a coragem de ficar firmes, de dizer o não que os libertaria da pressão do mal. Como sentimos nesses momentos a necessidade da presença do divino conselheiro que, à custa de explicações, nos mostrará – em um relâmpago, por vezes – a futilidade da felicidade procurada fora de Deus! Revelar-nos-á nesse instante, em contraponto à atração do mal – tão forte em certos encontros –, os encantos de Deus, sua fidelidade e sua bondade. “E com que conhecimento do coração humano sabe convencer-nos de que, apoiando-nos nas criaturas humanas, por excelentes que possam parecer, corremos o grande risco de fazer dolorosas experiências e de que devemos contar unicamente com Deus. Todo o resto um dia nos decepcionará porque é frágil e, portanto, falível”[2].
Santa Teresa de Lisieux confessou que levou muito tempo para compreender o texto do Livro dos Provérbios: Todo aquele que é pequeno venha a mim (Pv 9,4). Até o dia em que, à luz do Espírito, percebeu as ressonâncias que tinha em sua vida pessoal e, assim, dele fez a base sólida de seu pequeno caminho da infância espiritual, cujo mistério de repente se lhe manifestou. Quantos cristãos, no decurso das idades, haviam lido esse mesmo texto, sem, no entanto, que ele exercesse a menor influência sobre sua vida? Teresa foi dócil ao impulso do Espírito, viveu à sua luz, fazendo viver de igual modo ainda tantas almas em nossos dias.
(...)
Casos excepcionais, direis. Acaso não chegam a se aproximar de um milagre? Nós podemos pretender a tanto assim? Também fui tentado a pensar como vós, até o dia em que tive sob os olhos umas linhas de Bergson. Ele que ainda não usufrui da luz da fé e do poder misterioso que traz consigo, admirava-se, com razão, de que o pensamento do além tivesse, ao que parece, lugar tão pequeno entre as preocupações de cristãos. Sua vida parecia-lhe um contrassenso. Eis o que escreve:
“Como converter em realidade viva e ativa uma crença no além, que parece haver na maior parte dos homens, mas que fica, o mais das vezes, verbal, abstrata, ineficaz? Para saber com que medida é avaliada, basta olhar como eles se lançam ao prazer: não se agarrariam a ele, a tal ponto, se não vissem nisso um meio de tirar alguma coisa ao nada, de zombar da morte. Na verdade, se estivéssemos certos, absolutamente certos, de sobrevivermos, não poderíamos mais pensar em outra coisa. Os prazeres subsistiriam, porém empanados e sem cor, porque sua intensidade vinha apenas da atenção que neles fixávamos. Empalideceriam como a luz de nossas lâmpadas ao brilho do sol da manhã. O prazer seria eclipsado pela alegria”[3].



[1] Santo Tomás de Aquino exprimiu a ação misteriosa de Deus nas almas com clareza em duas fórmulas, que traduzem toda sua fé na primazia da ação divina: “Todas as vezes que a vontade livre criada se determinar pelo sentido da virtude, ela o faz porque Deus a leva a agir assim; e se Deus não a houvesse levado a fazer desse modo, qualquer que fosse a facilidade que tinha de o fazer, por si mesma, ela não o teria feito” (De Ver. q. 24). “Os homens são constituídos na graça, isto é, constituídos em um ser novo; e isto do nada, quer dizer, sem que inicialmente houvesse de sua parte mérito anterior” (Ia IIae, 110, 2 ad tertium).
[2] Isso é de acordo com o pensamento de Santo Tomás, ao escrever: “A menor graça é bastante forte para resistir a qualquer concupiscência e para preservar de qualquer falta, porque o ínfimo grau de caridade encerra maior amor de Deus do que a cobiça comporta, para com os montões de ouro e de prata” (IIIa, 70, 4).
[3] BERGSON, Les âeux sources de ia Moraie et ia Religion. Presses Universitaires de France, p. 338.

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