quinta-feira, agosto 24, 2017

A poesia de um amante da Beleza

Por Agostino Trapè, “Agostinho: o homem, o pastor, o místico”, p. 381-390.

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Não entende Agostinho homem, e muito menos Agostinho pastor e teólogo, quem não considera que ele foi um místico, um grande místico. A essa realidade faz-nos dirigir a atenção, com aguda intuição, o primeiro biógrafo: “Ele era”, diz de Agostinho continuando o discurso sobre sua atividade de escritor, “como aquela religiosíssima Maria, figura da Igreja celeste, da qual está escrito que sentava aos pés do Senhor atenta para escutar sua palavra”[1].

Não há necessidade de rediscutir aqui a questão discutida – e substancialmente resolvida – nos decênios passados sobre o significado a ser dado à palavra místico quando associada ao nome do bispo de Hipona. Quase a totalidade dos estudiosos que se ocuparam com o tema entende-a no sentido estrito. Antes, alguém considera Agostinho o príncipe dos místicos cristãos. Algum outro, ao contrário, considera-o só um “intelectualista” ou um “grande entusiasta”[2]. A controvérsia vem de muito longe. Procede da noção de mística, sobre a qual não há acordo. Trata-se de saber se, nessa noção, há lugar para a visão intelectualista ou não, isto é, se intelectualismo e misticismo, esquemas filosóficos e contemplação infusa excluem-se mutuamente ou podem convergir. A maioria responde que podem convergir, e dão como exemplo disso a própria experiência do bispo de Hipona. “Agostinho, para mim, é o príncipe dos místicos, unindo em sua pessoa, de maneira inigualável por outros, os dois elementos da experiência mística: uma profunda visão intelectual das coisas divinas e um amor a Deus que foi paixão devoradora”[3].

Mas, antes de segui-lo nas ascensões místicas, é útil vermos mais de perto o gênio poético. Agostinho, de fato, foi também poeta. Não dizemos isso porque escreveu alguns versos, que de resto foram poucos e de não grande valor, mas porque tem a sensibilidade e a imaginação do poeta. Foi um enamorado da beleza. A sua primeira obra versava sobre esse tema. Tinha por título: O belo e o conveniente. A obra perdeu-se, mas a recordação que lhe dedica o autor das Confissões indica os interesses que dominavam seu ânimo aos 26 anos.

[...] Enamorado das belezas terrenas [...], eu dizia a meus amigos: “Não amamos senão o que é belo. O que é o belo? E o que é a beleza? O que nos atrai e nos objetos do nosso amor e une-nos a esses? A conveniência e a graça, porque se disso fôssemos privados não nos atrairiam de modo algum”. Isto é, eu percebia e notava que nos corpos uma coisa é a beleza, por assim dizer, complexiva, enquanto são um complexo, e outra a conveniência, ou seja, a harmonia com outros corpos, como uma parte de nosso corpo harmoniza-se com o todo, ou um calçado com o pé, e assim por diante. Essa consideração brotou em minha mente do íntimo de meu coração, por isso escrevi alguns livros com o título O belo e o conveniente, creio que dois ou três, tu sabes, Deus; eu não tenho mais recordação deles, nem mais os possuo. Perderam-se, quem sabe como[4].

Amando a beleza, amava a luz, “rainha das cores”, o canto, a harmonia. Em Milão, chorou ao canto dos hinos sacros, compostos por outro poeta, Ambrósio, e cantados pelos fiéis; em Hipona, comovia-se escutando seu povo cantar os salmos. Esse canto fascinava-o. Algumas vezes lhe parecia que o fascínio fosse excessivo e pensava em abolir o canto, que ele mesmo havia introduzido, e substituí-lo por uma recitação mais próxima à declamação que ao canto, em uso – como se dizia – na igreja alexandrina. “Quando, porém, vêm-me à mente as lágrimas que os cantos da igreja arrancaram-me no início de minha fé reconquistada, e a comoção que ainda hoje suscitam em mim não o canto, mas as palavras cantadas, se cantadas com voz límpida e a modulação mais conveniente, reconheço de novo a grande utilidade dessa prática”[5].

De todas as obras que tinha projetado acerca das artes liberais, levou a termo, além do De grammatica, aquele sobre a música, a ciência da harmonia:

Pode-se considerar nas palavras qual seja a potência da harmonia em todos os movimentos das coisas. Tal consideração percorre, por assim dizer, uma escala, e sobe de degrau em degrau até os divinos segredos da verdade. Acima daqueles degraus, a sabedoria mostra seu aspecto mais alegre e agradável e, com toda a sua sabedoria, ajuda seus amantes. Por isso, no início do meu retiro, estando meu espírito livre das ocupações mais graves e mais urgentes [...], eu quis compor uma introdução ao estudo da verdade. Escrevi então seis livros somente acerca do ritmo; mas [confesso que] havia proposto também acrescentar talvez outros seis sobre a melodia, na esperança de ter tempo livre em seguida. Mas, depois que me foi imposto sobre os ombros o fardo das ocupações eclesiásticas [...], todas aquelas alegrias escaparam-se-me das mãos, de modo que até mesmo dificilmente consigo encontrar o livro[6].

Em perspectiva de harmonia vê o universo, o homem, a história. Entre os leitores das Confissões, não há quem não recorde a peregrinação ideal de Agostinho em busca de Deus.

Interroguei a terra [...], interroguei o mar [...], interroguei o céu, a lua, as estrelas [...]. E todos responderam: ‘Não somos nós o teu Deus’. O meu interrogar consistia em fixar nesses a minha atenção e a sua resposta, no mostrar-me a sua beleza.[7]

Eis, o céu e a terra existem, e gritam que foram criados [...], tu, então, Senhor, fizeste-os; tu que és belo, porque são belos; tu que és bom, porque são bons; tu que és, porque são. Mas não são tão belos, tão bons, nem são como tu, seu criador [...][8].

De fato, Deus é “a beleza sempre antiga e sempre nova”[9], o “pai da beleza”[10], a “beleza de toda beleza”[11], “no qual, do qual e pelo qual têm bondade e beleza todos os seres bons e belos”[12].

Mas, no universo, o lugar privilegiado da beleza é o homem: o homem com a perfeição de seu corpo, com as maravilhas de sua memória, com a capacidade de sua arte, com o amor, a virtude, a sabedoria. “O que se louva no corpo? Não vejo nada mais que a beleza. O que é a beleza física? A justa proporção das partes acompanhada por certo encanto de cores”[13].

“Vão os homens admirar os cumes dos montes, as ondas enormes dos mares, as correntes amplíssimas dos rios, a circunferência do oceano, as órbitas dos astros, enquanto descuidam de si mesmos.[14]” O mesmo vale para a beleza artística. Também essa provém, através das mãos do artista, da Beleza eterna. Mas os homens tiram dessa a norma para julgar sua arte, e não a norma para servir-se dela retamente[15]. E isso porque se esquecem de si mesmos. A verdadeira Beleza é a virtude. “O que é, no fundo, nossa justiça, ou qualquer outra virtude pela qual se vive reta e sabiamente, senão a beleza do homem interior? E certamente é graças a essa beleza, e não a qualquer semelhança corpórea, que fomos criados à imagem de Deus.[16]

Também a história é vista em termos de harmonia: é um poema grandioso modulado pelas mãos de um artífice inefável.

Ele, imutável criador e moderador das coisas mutáveis, sabe, muito mais que o homem, aquilo que é oportuno para cada idade, aquilo que, em um dado momento, deve dar, acrescentar, retirar, subtrair, acrescentar ou diminuir até que a beleza do universo – cujas coisas são partículas adequadas a cada tempo – desenvolva-se e realize-se como o concerto de um inefável artista, e aqueles que adoram Deus como se deve, ainda no tempo no qual ocorre crer, não passem à eterna contemplação da Beleza absoluta[17].

Mas na história há o mal. Agostinho sente-o e sofre-o e não encontra outra explicação que a beleza do todo. O pintor sabe onde pôr a cor negra para que seja bela a pintura, e Deus não sabe onde pôr o pecador para que seja ordenada a criatura?[18]

Esta sensibilidade estética – unida à intuição de verdades altíssimas – dá frequentemente a suas palavras as asas da poesia. Ele sabe exprimir um sentimento verdadeiro e profundo mediante uma imagem viva e eficaz; sabe dar uma voz às realidades espirituais sem que percam sua imaterial pureza, e um pulsar às realidades terrestres para que se tornem, sem perder sua palpitante concretude, sinal e escala do divino. Tem a rara faculdade de arrebatar à abstração as verdades mais abstratas e de apresentá-las de modo que mostrem sua vibrante realidade e irradiem cor e força. Isso ocorre, sobretudo, nos sermões e nas Confissões, que são as obras de maior lirismo.

Ao toque de sua fantasia, o homem inquieto enquanto não repousa em Deus transforma-se em “um fio de grama sedento”[19]; o amor, em um peso que leva o homem aonde quer que se mova[20]; a vida terrena, em um som entre dois grandes silêncios: o silêncio daquilo que não é mais e o silêncio daquilo que não é ainda[21]; as riquezas, no sonho de um pobre. “Um mendigo deitado por terra, tremendo de frio, está tomado pelo sono e sonha com tesouros, e goza e orgulha-se sonhando, e não se digna sequer olhar o pai vestido em farrapos. Enquanto não acorda, é rico; mas, quanto mais goza falsamente, dormindo, tanto mais, acordando, adolorar-se-á com a verdade”[22].

As gerações dos homens sobre a terra são folhas de uma árvore, uma árvore sempre verde. “A árvore está sempre vestida de verde; mas olha a seus pés e observa quantas folhas secas tu pisas”[23]. A fé torna-se o “ninho” onde os pequenos preparam-se para levantar voo; quem pretender entender antes de crer é semelhante ao passarinho que quiser voar antes de ter as penas. Agostinho aplica isso à presunção de seus dezenove anos. “Eu, que vos falo, fui enganado um tempo [...]; acreditei-me idôneo para o voo, abandonei o ninho e caí antes de poder voar. Mas o Senhor misericordioso recolheu-me e recolocou-me no ninho antes que os passantes pisoteassem-me”. Cristo torna-se uma árvore nascida ao longo das margens de um rio, o rio das realidades temporais. “Sentes-te arrastado até o precipício? Agarra-te forte à árvore”[24].

As exemplificações poderiam continuar: a quente fantasia do filho de Mônica é extraordinariamente rica. Muitas vezes é a poesia dos Salmos, dos quais é admirador entusiasta, que lhe oferece a imagem apropriada; muitas vezes é um episódio evangélico que o comove e dá asas à fantasia; como o episódio da adúltera. A acusação, a réplica, a fuga dos acusadores. E Jesus fica só; só com a pobre mulher: a misericórdia e a mísera. “Foram-se todos; permaneceu só com ela só; permaneceu o criador e a criatura; permaneceu a mísera e a misericórdia”[25]. Nesse confronto, está o drama da salvação.
Mas a fantasia alcança topos inigualáveis quando Agostinho fala de Deus. Como nesta passagem das Confissões:

Mas o que amo, quando te amo [Senhor]? Não uma beleza corpórea, nem uma graça temporal: não o esplendor da luz, tão caro a estes meus olhos; não as doces melodias das cantilenas de todo tom; não a fragrância das flores, dos unguentos e dos aromas; não o maná e o mel; não os membros aceitos nos abraços da carne. Nada de tudo isso amo, quando amo meu Deus. Entretanto, amo uma espécie de luz, de voz, de odor, de alimento e de amplexo no amar o meu Deus: a luz, a voz, o odor, o alimento e o amplexo do homem interior que há em mim, onde resplandece ante minha alma uma voz não envolta pelo espaço, onde ressoa uma voz não arrastada pelo tempo, onde exala um perfume não disperso pelo vento, onde é cultivado um sabor não atenuado pela voracidade, onde se aperta um abraço não interrompido pela saciedade. Isso amo, quando amo o meu Deus[26].

Tem-se a mesma altura de conceitos, a mesma vivacidade de imagens quando fala da ação de Deus em si. “Tarde te amei, beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei [...]. Mantinham-me longe de ti tuas criaturas, inexistentes se não existissem em ti. Chamaste-me, e teu grito rompeu minha surdez; brilhaste, e teu esplendor dissipou minha cegueira; difundiste tua fragrância e respirei desejoso por ti, degustei e tenho fome e sede; tocaste-me, e ardi pelo desejo de tua paz”[27].

Há ainda poesia naquela longa e apaixonada oração que abre o primeiro livro dos Solilóquios. Uma oração que se estende ampla e solene como uma sinfonia. O fundo é filosófico e teológico, a inspiração é mística; mas a comoção que a anima, o ritmo que a governa, a forma que a exprime são tais que a fazem tornar-se uma passagem de poesia, e poesia estupenda. Dói-me não poder reportá-la por inteiro aqui.

Primeiro uma introdução: “Ó Deus, criador do universo, dá-me a força de pedir-te bem [...]”. Depois, a contemplação da obra divina no mundo sensível: “Ó Deus, que criaste do nada este mundo do qual os olhos de todos advertem a alta harmonia [...]”. Segue em um crescendo grandioso a invocação a Deus, princípio do mundo inteligível: “Ó Deus, pai da verdade, pai da sabedoria, pai da verdadeira e suma vida, pai da felicidade, pai do bem e do belo, pai da luz inteligível, pai de nosso despertar e de nossa iluminação, pai do sinal mediante o qual somos admoestados a retornar a ti: invoco-te”. Depois, a invocação de Deus sumo bem, “do qual distanciar-se é cair, ao qual converter-se é ressurgir, no qual permanecer é ter consistência”.

Retoma a contemplação do ser divino, “onde não há discórdia, obscuridade, mudança, necessidade, morte, mas suma concórdia, suma clareza, suma atividade, suma riqueza, suma vida, onde nada falta, nada redunda”; retoma a contemplação da Providência divina, “por cujas leis giram os céus [...], é livre a escolha da alma [...], provém a nós todos os bens e são afastados todos os males [...]”. Depois, um arrebatador final: “Escuta, escuta, escuta-me, meu Deus, meu Senhor, meu rei, meu pai, meu criador, minha esperança, minha realidade, minha honra, minha casa, minha pátria, minha salvação, minha luz, minha vida; escuta, escuta, escuta-me de tua maneira, conhecida tão só por bem poucos”[28].

Se isso não é poesia, não se sabe mais aonde ir buscá-la.






[1] Possídio, Vita Augustini 24,12 (ed. Pellegrino, p. 171).
[2] Cf. o amplo resumo da controvérsia oferecido por M. A. Mandouze, “Où est la question de la mystique augustinienne?”, em Augustinus Magister, vol. 3, Paris, 1955, p. 103-168. Para a solução negativa, recentemente, ver J. A. Mourant, “Ostia Reesamined: A study in the Concept of Mystical Experience”, em Philosophy of Religion 1 (1970) 34-45.
[3] C. Butler, Il misticismo occintale, London, 1926; trad. ital., Bologna,1970, p. 124-125.
[4] Conf. 4,13,20.
[5] Conf. 10,33,50.
[6] Ep. 101,3.
[7] Conf. 10,6,9.
[8] Conf. 11,4,6.
[9] Conf. 10,27,38.
[10] Sol. 1,1,2.
[11] Conf. 3,6,10.
[12] Sol. 1,1,3.
[13] Ep. 3,4.
[14] Conf. 10,8,15.
[15] Conf. 10,34,53.
[16] Ep. 120,4,20.
[17] Ep. 138,1,5.
[18] Cf. S. 125,5; Civ. 11,23.
[19] Conf. 11,2,3.
[20] Conf. 13,9,10.
[21] Cf. En. Ps. 109,20.
[22] S. 345,1.
[23] En. Ps. 101,2,10.
[24] Ep. Io tr. 2,10.
[25] S. 16A,5.
[26] Conf. 10,6,8.
[27] Conf. 10,27,38.
[28] Sol. 1,1,2-4.

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