quinta-feira, agosto 17, 2017

A coragem diante da vida

Por Raul Plus, “Virtudes raras”, p. 51-56.

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             Há duas formas de coragem: uma que consiste em agir, outra que consiste em sofrer. Resta saber qual delas é mais meritória.
Em tempo de guerra, pode-se discutir entre regimentos ou batalhões o que uns ou outros preferem: tomar de assalto uma posição, ou organizar bem e defender uma posição toma­da. Louvor àqueles que enfrentam o perigo e louvor também àqueles que, não podendo enfrentá-lo, não o temem quando ele ameaça a todo o instante desabar sobre eles. A primeira forma de coragem é mais brilhante e, talvez por isso mesmo, mais fácil. A segunda é mais humilde; supõe uma virtude, não menor, mas de outra qualidade. É magnífico arrojar-se, avançar para o perigo, apesar dos tremores da sensibilidade ou das hesitações que a razão posta ao serviço de uma covardia disfarçada, que nunca deixa de sugerir. Isto é a coragem: “A arte de ter medo sem o mostrar” e de parecer bravo, apesar das recalcitrações interiores.
Mas manter-se firme na provação, sobretudo quando é longa e cada dia que passa lhe aumenta o peso, que valentia isso não representa! Manter-se firme, apesar do tempo prolongar-se indefinidamente, das privações redobrarem, da situação que se agrava, das perplexidades que crescem e da incerteza do dia de amanhã. Manter-se firme, quando a pátria nos chama, não de braços cruzados à espera que ela seja salva sem o nosso esforço, mas para nos encorajar e para darmos todo o nosso esforço à obra comum. Manter-se firme, para que o nosso exemplo encoraje o vizinho. Manter-se firme, sem frases, mas com decisão, sem nos deixar-se iludir pelas novidades que lisonjeiam as nossas esperanças. Manter-se firme, ainda que a noite venha mais negra e a tempestade mais horrorosa. Manter-se firme até ao despontar da aurora.

Eis a carta de um oficial de artilharia dirigida à sua esposa, no princípio da guerra de 1939. O valente encontrará a morte ao proteger a sua divisão em retirada. Naquele momento (13 de setembro de 1939), escreve: “Sejamos francos: o pensamento do sacrifício que talvez seja preciso fazer para a felicidade e para a paz da humanidade não tem sido motivo de alegria. Não posso ocultar-te que tenho tido períodos, felizmente breves, de desa­lento”. Vê-se que o oficial não quer fingir de valente, manifestar sentimentos que não tem; é leal, humilde. E depois, tendo rezado e refletido melhor, acrescenta: “Agora, com a ajuda de Deus que tenho — como tu — a felicidade de receber todos os dias, aceito integralmente o sacrifício. Antevi os seus diferentes aspectos, olhei-os de frente, e não tenho medo, com a graça de Deus”.
Que dizer desta linguagem? Enquanto houver na nossa terra homens capazes de falar assim, de vibrar assim, de se sa­crificarem assim, como não havemos de nos sentir animados das mais belas esperanças? É certo que se trata de uma alma seleta. Mas, nos tempos que correm, não deveriam todas as almas ser ou tornarem-se almas seletas?
Não exageremos as nossas forças, nem nos julguemos mais fortes e capazes de maior valentia do que somos. Façamos o nosso exame de consciência e, se ainda somos covardes, não receamos confessá-lo: “O pensamento do sacrifício não tem sido motivo de alegria”. Mas não queiramos permanecer nesse estado. Compreendamos os grandes interesses que estão em jogo, o que de nós exige a pátria, o que Deus nos pede. Rezemos, porque, para aceitar o sacrifício, é precisa a graça — e a graça é de graça. Peçamo-la para os que não têm a felicidade de crer, ou cuja fé é tíbia. Que todos cheguem a poder dar este testemunho: “O sacrifício foi aceito integralmente. Olhei-o de frente e nunca mais tive medo, com a graça de Deus”.
Ir devagar
O provérbio italiano “quem vai devagar, vai com segurança[1] desagradava ao grande Lyautey[2]. Não porque ele desprezasse a lentidão prudente, mas, a lentidão pela lentidão, como se ela fosse virtude, isso o irritava, pois a sua divisa era: agir, agir, agir. Não acrescentava “agir tão rapidamente como a situação exige”, mas isso estava implícito no gesto com que acompanhava as suas palavras. Gostava de alguns provérbios franceses que parecem inculcar o menor esforço: “Pedra que rola não ganha musgo”: condenação dos que querem andar por toda a parte para enriquecer a experiência. “Tudo vem a tempo para quem sabe esperar”: quando, pelo contrário, é preciso mais vezes ir ao encontro das circunstâncias do que elas vêm ao nosso. “De nada serve correr, é preciso partir a tempo”: o que, dizia ele, muitas vezes é uma desculpa, não para partir a tempo, mas para não correr!
Para ele o provérbio fatal entre todos era: “O ótimo é inimi­go do bom”; O provérbio italiano diz: “Piano piano si va lontano” (N. do R.). desculpa de toda a inércia. Tinham-lhe muitas vezes respondido com este provérbio, quando tendo solicitado das repartições uma solução rápida para qualquer caso urgente, lha retardavam nos subterfúgios de formalidades indefinidas ou já gastas. As grandes almas, onde quer que estejam e qualquer que seja a profissão a que pertencem, raciocinam da mesma maneira.
Ouçamos como o eminente cirurgião Gosset falava do seu professor Terrier e da sua maneira de proceder segundo os exemplos que recebera em outros tempos. Por várias vezes se encontrou diante de problemas angustiantes e de casos extrema­mente difíceis em que era preciso, mais que a intuição, espírito de iniciativa e audácia. Naqueles momentos, perguntava a si mesmo: “que faria o meu professor Terrier?”. Feita a pergunta, já não tinha hesitações. Sabia claramente que, na dúvida, ele não se teria omitido: num caso desesperado, ainda que tivesse só uma possibilidade entre mil, tentaria essa possibilidade. Perante uma grave responsabilidade, não procuraria fugir-lhe, ainda que tivesse maneira galante de o fazer; e que, finalmente, depois de um insucesso, nunca se queixaria e aceitava todas as consequências, quaisquer que fossem.
Como nos afasta disso a acanhada filosofia com que todos os dias e a respeito de tudo nos enchem os ouvidos! Valha-nos Deus! Em vez de repetirmos constantemente estribilhos já gas­tos, que só servem para levar ao desânimo, de nos lamentarmos e gemermos, de apelarmos para falsas prudências, conselhos inúteis, covardias deprimentes e paralisações sem dignidade, em vez disso, lucraríamos todos ao mostrarmos uma confiança invencível, ao prepararmo-nos, pela audácia no cumprimento diário do dever, para os duros golpes e para os acontecimentos dolorosos da vida.
Em tudo, a serenidade
“Tenho tido muitas provações na minha vida, a maior das quais nunca chegou”, dizia um humorista.
Sofremos de três coisas. Primeiro, do que objetivamente nos causa sofrimento. Depois, do que nos vai causar dor, daquilo que precede a chegada efetiva do sofrimento (por vezes a expectativa é mais cruel do que o próprio mal). Por exemplo, a perspectiva de uma intervenção cirúrgica iminente custa-nos mais do que a própria operação e os sofrimentos que lhe seguem. E por último, o que entristece ainda mais a nossa vida são os sofrimentos que imaginamos ter de suportar. Nesse sentido, o nosso humorista mostra-se bom psicólogo, considerando como as suas mais duras provações os males que receou, mas que nunca lhe sobrevieram. Os nossos mais cruéis sofrimentos são as apreensões.
Ouvi um episódio da vida no deserto que dizia que se en­xergava lá longe, a perder de vista, alguns destroços, mas que não se prestavam para uma emboscada. Podia-se caminhar sem medo. Mas o que eram, todavia, aquelas pontas de lanças que lá estão a brilhar, imóveis, por detrás daquele rochedo? Certamente homens escondidos que espreitam o viajante para o roubarem. O que fazer? Avançar? Um só contra três é muito perigoso... Mas no fim, eram apenas três lanças abandonadas.
Da mesma forma, não são muitas vezes imaginários os perigos que divisamos nos caminhos da vida? Não é já mui­to que temos realmente de sofrer, sem lhe acrescentarmos sofrimentos ilusórios? Para que andarmos continuamente a compor ladainhas com todos os “o que acontecerá se...?”. O futuro nunca é o que hoje imaginamos. Ordinariamente, quan­do ele se torna presente, é menos sombrio do que tínhamos imaginado. Em todo o caso, nós, os cristãos, sabemos que ele traz consigo a sua graça. No minuto que passa, não tenho o auxílio necessário para aceitar tal ou tal minuto do futuro. Se agora mesmo, amanhã, daqui a um ano, daqui a dez anos, Deus me pedir um sacrifício, dar-me-á o auxílio necessário para suportá-lo. E não vai concedê-lo hoje, porque a provação a suportar só virá mais tarde.
A graça acompanha o curso do tempo. Vivamos uma hora de cada vez. A cada dia bastam as suas próprias aflições e a paciência para suportá-las. A expressão “Não vivemos, esperamos viver” poderia muito bem modificar-se em: “Não sofremos, receamos sofrer”. E isso é infecundo, desalentador, inoperante.
Que a tigela do leite quebre, pouco importa! Pega-se outra e enche-se novamente de leite; coloca-se outra vez sobre a cabe­ça bem levantada e olha-se para frente, sorrindo. Lamenta um viajante que as mulheres do nosso país, a França, não tenham, como as suas congêneres de alguns países quentes, o hábito de levar os objetos à cabeça; não há nada que dê a elas, parece, um porte mais majestoso. Talvez. Mas é verdade sobretudo no ponto de vista moral.
Caminhemos na vida corajosamente e de rosto levantado. Aconteça o que acontecer, não permitamos que a alegria deixe de ter a primazia. E se a imaginação fizer das suas, que seja mais para embelezar a vida do que para torná-la triste.



[1] O provérbio italiano diz: “Piano piano si va lontano” (N. do R.).
[2] Louis Hubert Gonzalve Lyautey (1854-1934), militar francês que se destacou nas guerras coloniais e durante a Primeira Guerra Mundial (N. do R.).

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