quinta-feira, julho 27, 2017

Pureza: viver a plenitude do amor

Por Karol Wojtyla, “Amor e responsabilidade”, p. 159-165.



A castidade não leva de modo nenhum ao desprezo do corpo, mas implica uma certa humildade. Ora, a humildade é a atitude exata a respeito de toda verdadeira grandeza, seja ela própria ou alheia. O corpo humano deve ser humilde perante essa grandeza que é a pessoa, porque é ela que dá a medida do homem. O cor­po humano deve ser humilde perante a grandeza do amor, deve subordinar-se a ele, e é a castidade que leva a esta sujeição.

Não se pode compreender integralmente o significado da virtu­de da castidade senão com a condição de ver no amor uma função da atitude recíproca das pessoas, que tendem para a sua união. Por isso tivemos de separar as considerações sobre a psicologia das pessoas, daquelas sobre a virtude do amor. Por isso foi ne­cessário sublinhar o princípio da integração: no mundo das pessoas, o amor deve possuir a sua plenitude e integridade moral, e as suas manifestações psicológicas não podem bastar. É claro que o amor só é psicologicamente maduro quando adquire um valor moral, quando chega a ser a virtude do amor.
Só o amor tornado virtude pode responder às exigências objetivas da norma perso­nalista, que exige que a pessoa seja “amada” e não admite que ela seja “usada” como objeto de prazer, seja de que forma for. Na esfera dos fenômenos, que a psicologia é a única a definir como manifestação do amor entre o homem e a mulher, nem sempre este princípio é aplicado. Um exame aprofundado demonstra a falta da essência moral do amor no que é muitas vezes chama­do “manifestação de amor” ou “amor”, e que, apesar das aparências, não é senão uma forma de prazer da pessoa. Daqui provém o grave problema da responsabilidade de cada um pelo seu amor e pela pessoa. Que se deve entender por castidade?

Segundo Aristóteles, podem distinguir-se na vida moral do homem diversas virtudes, que podem ser classificadas e ordena­das num sistema. S. Tomás de Aquino retomou esta ideia na sua Suma Teológica (II, 2), amplo tratado pormenorizado e perspicaz sobre as virtudes. Neste sistema, há virtudes principais, que são disposições das faculdades essenciais da alma, quer intelectuais (inteligência e vontade), quer sensuais (impulsividade e concu­piscência). As principais virtudes morais, chamadas também cardeais (do latim cardo=gonzo), constituem a base das outras virtu­des morais, que se assemelham a uma ou outra virtude cardeal ou condicionam a sua perfeição.
No sistema de S. Tomás, a castidade está ligada e subordinada à virtude cardeal da temperança. Esta virtude, cujo objeto imediato, segundo S. Tomás, é o apetite concupiscível, predispõe o homem para orientar de forma racional os movimentos de concupiscência dirigidos aos bens materiais e físicos que se impõem aos sentidos. É preciso que os movimentos sensuais, que têm em vista bens sensí­veis, sejam subordinados ao entendimento: nisto consiste a função da temperança. Se ao homem faltasse esta virtude, a vontade po­deria facilmente ceder aos sentidos e pretender como fim só aqui­lo que estes consideram um bem e por isso desejam. A virtude da temperança deve defender o ser racional de uma tal desnaturação. Com efeito, para o ser racional que é o homem, é natural, isto é, conforme à sua natureza, desejar aquilo que a inteligência reco­nheceu como bem e tender para isso. Só mediante esta tendência e esta atitude a respeito dos bens, é que se manifesta e realiza a verdadeira perfeição do ser racional da pessoa. A virtude da tem­perança ajuda-a a viver segundo a razão, e, portanto, a atingir a perfeição correspondente à sua natureza. O ponto de vista de toda a moral de Aristóteles e de S. Tomás é essencialmente perfeccio­nista, o que, por outro lado, concorda com a linha fundamental do Evangelho: “Sede, pois, perfeitos...” (Mt 5,48).
Todavia, para nós trata-se de um problema mais particular, isto é, o da subordinação da virtude da castidade à virtude cardeal da temperança. Esta virtude torna a vontade, e sobretudo o apetite concupiscível, aptos a dominar os movimentos dos sentidos e os da concupiscência, que nascem no homem como reação da sen­sualidade (e também da afetividade) perante o sexo. A virtude da castidade, assim concebida, não é senão uma aptidão para dominar os movimentos da concupiscência ligados a estas reações. Aptidão é mais do que capacidade.
A virtude é uma aptidão “permanente”; se fosse passageira não seria virtude. Se não fosse permanente, poder-se-ia dizer que o homem teve a sorte de dominar um movimento de concupiscência, ao passo que a virtude garante tal com­portamento. A capacidade de dominar ad hoc os movimentos de concupiscência não é ainda virtude, não é ainda neste caso a cas­tidade na plena acepção do termo, mesmo que o conseguisse qua­se sempre. Porque a virtude é a aptidão para ter sempre em equi­líbrio o apetite da concupiscência, graças a uma atitude habitual a respeito do verdadeiro bem definido pela razão. Podemos falar em “temperança”, num primeiro momento, como uma aptidão para moderar caso a caso (considerando apenas o âmbito de cada caso, mesmo que aconteça todas as vezes) os movimentos de concupis­cência. Nesse sentido, é o mesmo que “continência”. Mas o termo “temperança” indica, além disso – e este é o seu significado mais próprio e pleno –, uma aptidão constante de moderação que asse­gura um equilíbrio racional do apetite da concupiscência sensual.
Mas, apesar do seu profundo realismo, esta teoria da virtude estará em condições de fazer derivar da temperança a essência da castidade? Com efeito, a questão é saber se, procedendo deste modo, estamos ajudando a colocar em evidência o valor essen­cial da castidade e a sua importância na vida humana. Ora, todas as considerações e análises anteriores fazem-nos pensar que é muito mais importante sublinhar o estreito laço existente entre a castidade e o amor.
Não se pode compreender a castidade senão em relação com a virtude do amor (da pessoa). Sua missão é libertar o amor da atitude de prazer. As análises efetuadas neste capítulo demons­traram que essa atitude resulta não tanto da sensualidade ou da concupiscência do corpo quanto do subjetivismo do sentimento e, sobretudo, do subjetivismo dos valores, que se enraíza na von­tade e cria diretamente condições propícias ao desenvolvimen­to de diversos egoísmos (egoísmo dos sentimentos, egoísmo dos sentidos). Estas são as predisposições para o “amor pecaminoso”, que, sob uma aparência de amor, esconde a atitude de prazer.
A virtude da castidade, cuja tarefa consiste em libertar o amor desta atitude, deve dominar não só a sensualidade e a concupiscência do corpo, mas também, e principalmente, os centros internos do homem, nos quais nasce e se desenvolve a atitude do prazer. Para chegar à castidade é indispensável purificar a vontade de todas as formas de Subjetivismo e todos os egoísmos que estas escondem: quanto mais disfarçada está a atitude de prazer na vontade, tanto mais perigosa ela é; o “amor pecaminoso” raramente é reconhe­cido como tal; é chamado de “amor” simplesmente, a fim de im­por (a si e aos outros) a convicção de que é assim e não pode ser de outra maneira. Ser casto, ser puro, significa ter uma atitude “transparente” a respeito da pessoa de sexo diferente. A castida­de é a “transparência” da interioridade, sem a qual o amor não é amor, e não poderá sê-lo enquanto o desejo de gozar não estiver subordinado à disposição para amar em todas as circunstâncias.
Não é preciso que esta transparência da atitude a respeito da pessoa de sexo oposto consista em repelir para o subconsciente os valores do corpo ou do sexo em geral, ou em fazer crer que não existem ou são inoperantes. Muitas vezes interpreta-se a castidade como um freio cego da sensualidade e dos impulsos carnais, que repele os valores do corpo e do sexo para o subconsciente, onde esperam uma ocasião para explodir. Essa é uma falsa concepção da virtude da castidade. Se é praticada deste modo, a castidade cria realmente o perigo de semelhantes “explosões”. Por causa desta opinião (que é falsa), pensa-se, muitas vezes, que a virtu­de da castidade tem um caráter puramente negativo, e que não é mais que uma série de “nãos”. Na verdade, ela é, pelo contrário, um “sim”, do qual a seguir resultam os “nãos”. O desenvolvimen­to insuficiente da virtude da castidade traduz-se no fato de negli­genciar a afirmação do valor da pessoa, deixando a supremacia aos valores do sexo, que, apoderando-se da vontade, deformam a atitude a respeito da pessoa de sexo oposto. A essência da cas­tidade consiste em não se deixar “distanciar” do valor da pessoa e em elevar ao seu nível toda a reação aos valores do corpo e do sexo. Isso exige um considerável esforço interior e espiritual, por­que a afirmação do valor da pessoa só pode ser fruto do espírito. Mas, longe de ser negativo e destruidor, este esforço é positivo e criador “a partir de dentro”. Não se trata de destruir na consciência os valores do corpo e do sexo, repelindo a sua experiência para o subconsciente, mas de realizar uma integração duradoura e permanente: os valores do corpo e do sexo devem ser insepa­ráveis do valor da pessoa.
Portanto, é errada a opinião segundo a qual a virtude da cas­tidade tem um caráter negativo. O fato de estar ligada à virtude da temperança não lhe confere de modo nenhum esse caráter. Pelo contrário, a moderação dos estados e dos atos inspirados pelos valores sexuais serve positivamente aos valores da pessoa e do amor. A verdadeira castidade não pode levar ao desprezo do corpo, nem à desvalorização do matrimônio e da vida sexual. Tal descrédito seria resultado de uma castidade falsa, e até certo ponto hipócrita, e mais ainda da impureza. Isto pode parecer sur­preendente e estranho, e, contudo, não pode ser diferentemente. Só se pode reconhecer e experimentar o pleno valor do corpo e do sexo com a condição de ter elevado estes valores ao nível do valor da pessoa. E isto é precisamente o essencial e característi­co da castidade. Assim, só um homem e uma mulher castos são capazes de experimentar um verdadeiro amor.
A castidade su­prime nas suas relações e na sua vida conjugal a atitude de pra­zer, que, na sua essência objetiva, é contrária ao amor, e por isso mesmo introduz nestas relações uma disposição inteiramente particular para amar. O laço entre a castidade e o amor resulta da norma personalista que, como dissemos no primeiro capítulo, contém dois mandamentos relativos à pessoa: um positivo (“tu amarás”) e o outro negativo (“não buscarás só o prazer”). Mas os seres humanos – os homens de um modo um pouco diferente do das mulheres – devem crescer interiormente para chegar a este amor puro, devem amadurecer para poder apreciar o seu “sabor”. Porque todo homem marcado pela concupiscência do corpo é in­clinado a encontrar o “sabor” do amor sobretudo na satisfação da concupiscência. Por esta razão, a castidade é uma virtude difícil, e cuja aquisição exige tempo; é preciso esperar os seus frutos e a alegria de amar que ela não deixará de trazer. Mas é o verdadei­ro caminho, o infalível, para a felicidade.
A castidade não leva de modo nenhum ao desprezo do corpo, mas implica uma certa humildade. Ora, a humildade é a atitude exata a respeito de toda verdadeira grandeza, seja ela própria ou alheia. O corpo humano deve ser humilde perante essa grandeza que é a pessoa, porque é ela que dá a medida do homem. O cor­po humano deve ser humilde perante a grandeza do amor, deve subordinar-se a ele, e é a castidade que leva a esta sujeição. Sem a castidade, o corpo não está subordinado ao verdadeiro amor, pelo contrário, procura impor-lhe as próprias leis, dominá-lo: o prazer carnal em que são vividos em comum os valores do sexo, arroga-se o papel essencial no amor das pessoas, e deste modo o destrói. Eis porque é necessária a humildade do corpo.
O corpo deve ser humilde perante a felicidade humana. Quan­tas vezes ele pretende ser o único a possuir a chave do seu mis­tério! A felicidade identifica-se então com a voluptuosidade, com a soma de prazeres que, nas relações entre o homem e a mulher, são proporcionados pelo corpo e o sexo. E como essa concepção superficial da felicidade impede de ver que o homem e a mulher podem e devem procurar a sua felicidade temporal, terrena, numa união duradoura das pessoas, numa afirmação profunda dos seus valores! Com maior razão, o corpo, se não é humilde e subordinado à verdade integral sobre a felicidade humana, pode obscurecer a sua visão suprema: a união da pessoa humana com Deus-pessoa.
Assim é preciso interpretar o Sermão da montanha quando diz: “Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus”. Acrescentemos que a verdade sobre a união da pessoa humana com Deus-pessoa, que deve realizar-se plenamente na eternida­de, esclarece ainda melhor o valor do amor humano, a união do homem e da mulher enquanto duas pessoas. É significativo que o Antigo e o Novo Testamento falem do “matrimônio” de Deus com a humanidade (o povo eleito, a Igreja) e os contemplativos, do “matrimônio místico” da alma com Deus.

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