segunda-feira, julho 24, 2017

Para crescer em humildade

Por Joseph Tissot, “A arte de aproveitar as próprias faltas”, p. 53-56.


Aproveitemos os nossos pecados para crescer em humildade

Falemos da primeira dessas três vantagens que podem resultar das nossa faltas: a humildade, pois é a primeira que o Bispo de Genebra destaca, seguindo Santo Agostinho.
“Queira o Espírito Santo inspirar-me o que tenho a vos escrever, minha senhora. Para se viver constantemente na piedade, é necessário estabelecer sólidas e salutares máximas no espírito. A primeira que desejo ver bem gravada no vosso espírito é a de São Paulo: Tudo contribui para o bem dos que amam a Deus (Rm 8,28). E é verdade, porque, se Deus pode e sabe tirar o bem do mal, para quem o fará senão para aqueles que se dão a Ele sem reservas? Sim, até os pecados (dos quais nos guarde Deus por sua bondade) se veem reduzidos pela divina Providência a contribuir para o bem dos que lhe cometem.
Davi não teria sido tão humilde se não tivesse pecado. “Deveis odiar os vossos defeitos, mas com um ódio sereno e tranquilo. Encará-los com paciência e fazê-los servir para vos humilhardes. Tiremos proveito duma santa humilhação em que a nós mesmos nos entregamos”[1].

A Humildade, fundamento de todas as virtudes, e o Orgulho, princípio de todos os pecados

Se há no mundo algum tormento para os corações que ambicionam santamente a perfeição, é sem dúvida o duplo sentimento da necessidade de serem humildes e da dificuldade que têm em consegui-lo. Por um lado, essa virtude, “base e fundamento de todas as outras e tão necessária ao homem nesta vida mortal”[2], é “a mãe, a raiz, a seiva e o elo de ligação de todos os demais bens do espírito”[3]; por outro, quando parece que ela da nossa miséria, eis que encontra precisamente aí, com raízes mais fundas que as dela, o orgulho, princípio de todo o pecado (Eclo 10,15), incessantemente empenhado em abafá-la.
Não há nada que possa melhor exprimir a astúcia e a força do demônio do que o orgulho, na habilidade e na multiplicidade das suas manobras. É uma verdadeira serpente, que nasceu conosco e quer nos envolver nos seus anéis e infectar com o seu veneno tanto as nossas ações mais santas como as mais indiferentes, os pensamentos mais secretos e as intenções mais puras. “Alimenta-se com frequência das nossas próprias virtudes e procura confiscar em seu proveito os dons mais delicados de Deus, para com eles se saciar”[4]. Se às vezes parece dormir, é para melhor e mais à vontade envolver com os seus anéis a nossa alma cheia de ilusões; se mostra-se e se deixa ferir, é para triunfar à custa dos mesmos golpes que lhe damos. No dizer de São Francisco de Sales, “o orgulho é um mal tão comum entre os homens, que nunca será demais pregar-lhes e inculcar-lhes a necessidade que todos têm de perseverar na prática da santa e amabilíssima virtude da humildade”[5].

Nunca ninguém estará suficientemente armado contra tamanho inimigo de uma virtude tão indispensável e, já que não é possível exterminá-lo nesta vida, é preciso ao menos conhecer avidamente todos os meios de enfraquecê-lo e neutralizar-lhe as investidas. Ora, dentre estes meios, um dos mais eficazes é justamente fornecido pelas nossas faltas. À semelhança da mandíbula dessecada de uma mula, que nas mãos de Sansão se transformou num engenho de morte contra os filisteus, os nossos pecados, por mais hediondos que sejam, também podem transformar-se numa arma poderosa contra o orgulho e converter-se, assim, em instrumento da nossa salvação e perfeição.
Com efeito, se o orgulho provém de uma estima e um amor desordenado da nossa pretensa excelência, a humildade, diz o nosso Santo, essa vem do “conhecimento verdadeiro e consequente reconhecimento voluntário da nossa miséria”[6]. E que há de mais apropriado para nos dar esse conhecimento verdadeiro do que a consideração dos nossos pecados? Realmente são eles, na engenhosa expressão do Pe. Álvarez, janelas, entre tantas outras, pelas quais penetra uma luz mais abundante sobre as nossas misérias[7].
Mais eficazes do que as humilhações que nos vêm dos acontecimentos ou dos homens, as nossas quedas convencem-nos da fragilidade das nossas forças puramente humanas. “E este reconhecimento do nosso nada, diz São Francisco de Sales, não nos deve inquietar, mas tornar-nos mansos, humildes e pequenos diante de Deus, porque é o amor-próprio que nos faz impacientes ao vermo-nos fracos e indignos”[8].
“— Mas eu sou tão miserável, tão cheio de imperfeições!
“— Conheces bem o teu estado? Pois bendize a Deus por te dar esse conhecimento e não te lamentes tanto. És muito feliz por saber que não és senão a própria miséria”[9]. “Devemos confessar a verdade: somos umas pobres criaturas que, sem a ajuda de Deus, não podem fazer bem coisa alguma. Eu vos digo que será mais fiel se fordes humilde”[10].
“— Mas chegarei a ser humilde?
“— Sim, se quiserdes sê-lo.
“— Mas eu quero.
“— Pois então já o sois.
“— Mas eu vejo que não sou.
“— Melhor ainda, pois isso serve para que o sejais com mais firmeza”[11].
“As faltas que cometemos, tanto interiores como exteriores, são um motivo eficaz de humildade, e a humildade produz e alimenta a generosidade”[12].
Com efeito, como confiar em nós mesmos e julgar-nos de algum valor quando caímos de bruços ao primeiro sopro da tentação, quando vemos os nossos melhores propósitos desvanecerem-se como uma faísca, como a estopa atirada às chamas (Is 1,31)? Ah! como o orgulho perde a sua força quando uma queda nos mostra a realidade da nossa miséria!
E como a humildade se assenta mais facilmente na verdade! É como se ouvíssemos uma voz bradar: Sejam retos os vossos juízos! (Sl 57,1); Fostes pesados na balança e viu-se que não tínheis o peso que queríeis (Dn 5,27); Pensáveis ser mais, e eis que sois menos (Ag 1,9).




[1] XVIII, 209.
[2] IX, 428.
[3] São João Crisóstomo.
[4] São Tomás. Catena aurea, in 2Cor.
[5] IX, 255. Sermão do dia da Purificação.
[6] Introdução à vida devota, III, 6.
[7] Oráculo do homem de olhar penetrante (Nm 24,4).
[8] XIV, 236.
[9] VI, 48. Colóquio III. Da firmeza.
[10] XII. 203.
[11] XIX, 300. Carta a uma superiora carmelita.
[12] XVIII, 266. Carta a uma superiora.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...