quinta-feira, julho 06, 2017

A fidelidade comprovada

Por François de Sales Pollien e Joseph Tissot, “A vida interior simplificada e reconduzida ao seu fundamento”, p. 240-244.

 
Amar a vontade de Deus
O que o espírito deve conhecer, o coração deve amar. É preciso fazer tudo por amor e nada por imposição; é mais necessário amar a obediência do que temer a desobediência, diz São Francisco de Sales. Pois não recebemos um espírito de escravos, para recair no temor, mas um espírito de filhos adotivos, pelo qual clamamos: Abba! Pai! (Rm 8, 15). E, assim como o espírito deve, acima de tudo, conhecer a vontade do Pai, assim também o coração deve, acima de tudo, afeiçoar-se a ela. O livro da santidade tem por título: Fazer a vontade de Deus; eis a lei que devo afixar em minha vontade e plantar no centro do meu coração (Sl 39, 8). A finalidade do preceito é o amor (1 Tm 1, 5); e essa é também a finalidade do coração; pois o preceito não pode prescrever, nem o coração realizar nada de mais sublime.
Nessa vontade manifestada, a inteligência lê as ordens e os desejos de Deus. Esses “riachos”, que brotam da fonte, devem ser amados como a fonte e por causa dela. Essas leis e orientações são, com frequência, penosas para a natureza, cujas tendências perversas contrariam. As prescrições são um jugo, e o dever que elas impõem é um fardo; o jugo não pode ser suportado sem incômodo, nem o fardo pode ser transportado sem fadiga. Entretanto, diz o Salvador, quando os recebemos de suas mãos, há no jugo uma suavidade e no fardo uma leveza que concedem grande repouso à alma (Mt 11, 29). E o que significa recebê-los de suas mãos, senão amá-los em Deus, e Deus neles? De Deus vêm, então, a suavidade e a leveza. Que meu coração venha, pois, a ele, no amor de sua adorável vontade, e receberá a dupla bênção reservada ao amor: provará a doçura dos laços que o prendem ao jugo da lei, e sentirá a leveza do peso que o dever lhe impõe.

Assim, o amor não fica limitado ao aspecto exterior da lei e do dever, mas prende-se à vontade soberanamente amável que o impõe ou propõe. E vai ainda mais longe, pois, nessa vontade, ele adora e aprecia a intenção que a inspira, a finalidade a que ela visa. As ordens e orientações que a vontade divina nos apresenta têm em vista somente a nossa santificação (1Ts 4, 3). Esse objetivo de santidade que é o espírito de toda regra ou conselho, o coração deve desejá-lo como Deus o deseja, amá-lo como Deus o ama, valorizá-lo como Deus o valoriza. Pois, segundo a palavra dada a seu servo, Deus lhe deseja esse bem (Sl 118, 65); possa o servo ter o mesmo desejo do seu Senhor; afeiçoar-se às regras divinas, para santificar-se; à santidade, para agradar Àquele que ordena ou pede; ao contentamento do Senhor, para sua glória. Eis o amor inteligente, completo, perfeito! Como tudo é resplandecente de luz e de suavidade, no fulgor do amor eterno!
A submissão amorosa, que, pelos degraus da lei e do dever, da vontade e da intenção divinas, eleva-se até o íntimo de Deus, sabe também inclinar-se para os intermediários de que Deus se serve. Amarei, portanto, a Igreja em suas leis, porque ela é a voz de Deus. Amarei os meus superiores, porque são seus intérpretes vivos. Não me fixarei nos acidentes humanos, que podem não ser nada amáveis; mas verei, para além deles, a presença de Deus, que se manifesta também por esses meios. Lembrar-me-ei de que, segundo a bela expressão de um autor russo, “na Igreja, sob as espécies de uma sociedade visível e humana, esconde-se a substância divina; e tudo o que possa parecer anormal na história da Igreja, pertence às espécies humanas e não à substância divina”.
Oh! Como é próprio de um coração puro e reto, saber discernir e amar a substância divina sob as espécies humanas, e a vontade de Deus nos homens cheios de defeitos! Infelizmente, é tão fácil e comum usar os caprichos dos homens como pretexto para livrar-se do jugo de Deus!

Fidelidade
Por fim, o amor deve produzir a fidelidade na ação. Inspirada por ele, esta será alegre e jovial em sua iniciativa, generosa na doação e no esquecimento de si, forte para suportar, constante para perseverar, exata para conformar-se, na medida certa, ao tempo e ao modo determinados. Ela será simples e reta, e não fará outras distinções senão aquelas que são feitas pelo Senhor e por seus representantes. Ela me fará utilizar tudo o que tenho, e cumprir tudo o que devo. O servidor é chamado bom e fiel, quando os frutos do seu trabalho igualam o “capital” que lhe foi entregue para valorizar (Mt 25, 15).
A fidelidade envolve, portanto, uma dupla questão de capital a explorar, e de patrimônio a conservar. E ela se mostrará igualmente vigilante em ambos os aspectos, pois bem sabe que não se deve separar o que Deus uniu (Mt 19, 6), e que, quanto mais negligenciasse a tarefa que lhe foi designada, menos estaria aproveitando os dons que lhe foram confiados.

Nas pequenas coisas
É por isso, também, que ela se mostra atenta mesmo às menores coisas, porque não as vê como coisas pequenas – o que é próprio das almas estreitas – mas vê nelas essa grande coisa que é a vontade de Deus, a qual ela respeita, com grandeza, nas pequenas coisas. Santo Agostinho diz: “As pequenas coisas são pequenas coisas; mas, ser fiel nas pequenas coisas é uma grande coisa”.
Assim, nos detalhes às vezes bem constrangedores das leis de disciplina ou das rubricas, o padre reconhece, ama e respeita essa coisa nobre e santa que é a vontade de Deus. Assim, nas prescrições muito minuciosas de sua regra, o religioso sabe ver e respeitar essa vontade sempre grande, sempre infinita, mesmo em seus mais ínfimos detalhes. Nosso Senhor não está presente todo inteiro, tão glorioso, tão vivo e adorável em uma pequena hóstia quanto numa grande, tanto em um pequeno fragmento quanto em uma hóstia inteira? O mesmo acontece com a vontade de Deus. As mais humildes particularidades do dever a contêm toda inteira; e, nelas, eu a adoro e a abraço com a mesma devoção que dedico às suas mais importantes prescrições. Não deixo que se perca nenhuma parcela desse bem sagrado (Eclo 14, 14).

Grandeza
E assim como, na comunhão, embora a hóstia seja tão pequena, eu me engrandeço pelo contato com Nosso Senhor, da mesma forma, na minha fidelidade ao dever, por mínimas que sejam as observâncias a que me submeto, sinto-me crescer e dilatar por meu contato com Deus. É algo tão grande, poder tocar Deus!... E o que é que busco com a minha fidelidade aos pequenos nadas, senão estabelecer entre Deus e eu um contato mais adequado, mais contínuo, mais absoluto, de tal forma que já não reste, por fim, nenhum ponto de separação?
Não me restrinjo, portanto, à prescrição ou à prática por si mesmas, pois isso seria uma mesquinharia; mas, ser fiel à prescrição e à prática para estar em contato com Deus, isso é infinito. Por isso há tanta amplitude, confiança e liberdade na alma dos santos! Vejo-os tão fiéis, e ao mesmo tempo tão livres em tudo! Bem se sente que eles estão ligados a Deus somente, e que sua alma não se importa com nada que não seja ele! Eles são sempre exatos, mas com essa exatidão viva, flexível e superior, que se adapta às necessidades. Eles ignoram a rigidez farisaica, as mesquinharias escrupulosas e as inquietudes meticulosas.

Quando eu chegar a compreender, como eles, que meu objetivo não é ajustar-me à prescrição, mas a Deus pela prescrição, também experimentarei, como eles, essa amplitude na exatidão, essa confiança na fidelidade, essa grandeza na pequenez. Como eles, igualmente, não me sentirei aprisionado, mas libertado; não sufocado, mas dilatado, mesmo nos detalhes aparentemente mais insignificantes das regras que me cabe observar. Oh! Como se corre no caminho dos mandamentos, quando se tem o coração dilatado por Deus e em Deus! (Sl 118, 32)

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...