quinta-feira, junho 01, 2017

O que são dons do Espírito Santo?

Por Maurice Meschler, “O dom do pentecostes”, p. 213-218.

  
Os Dons do Espírito Santo são o ornamento, o ade­reço da alma santificada. Examinaremos a natureza destes; o número deles; de onde procede a sua importância para conosco.

1. Dons do Espírito Santo! Que entendemos por estes ter­mos? São certas propriedades ou faculdades sobrenaturais da alma, que têm por fim permitir que mais facilmente e mais se­guramente obedeçamos aos impulsos do Espírito Santo. Apre­sentam com as virtudes as suas analogias. Como elas, os dons não consistem simplesmente em atos transitórios: constituem força e aptidão permanentes, a disposição da alma para exercer os atos da vida sobrenatural. Eis o que nos ensinam os teólogos e os mestres da vida espiritual.
Ainda a Santa Escritura, falando destes dons, nos mostra que eles permanecem, que repousam no justo. Isaías diz de Nos­so Senhor Jesus Cristo: “E o Espírito Santo repousará sobre Ele; o Espírito de sabedoria e de inteligência, o Espírito de conselho e de fortaleza, o Espírito de ciência e de piedade, e será repleto do Espírito do temor do Senhor” (Is 11, 2-3). São João, por sua parte, declara que o Espírito Santo será com os Apóstolos, ha­bitará com eles (Jo 14,16 s); o mesmo, pois, se tem a dizer acer­ca dos Dons que acompanham a sua presença. A cada modo de atividade pode corresponder uma capacidade, uma aptidão especial; e visto como são frequentes estes atos e importantes para a vida, é muito natural que sejam permanentes estas ap­tidões da alma. Eis por que se admitem, para a prática das vir­tudes, aptidões permanentes.
Sob este ponto de vista, os dons são análogos às virtudes. Sem embargo, diferem delas e se apresentam como coisa distinta, enquanto que os perdemos, quando perdemos a Caridade por um pecado mortal, ao passo que as virtudes — pelo menos a Fé e a Esperança, — podem ainda então permanecer na alma. Ao contrário, no Céu cessarão a Fé e a Esperança; mas nada se opõe a que os dons subsistam na alma glorificada. E os dons supõem as virtudes e a Graça Santificante.

Diferem ainda das virtudes no seu fim. As virtudes dão-nos só a possibilidade e nos colocam em estado de seguir a direção da razão e da fé; os dons permitem-nos praticar o bem com fa­cilidade, prontidão e deleite. Tal é a sua natureza própria e o seu destino: tornam-nos dóceis, ágeis, flexíveis aos movimen­tos do Espírito Santo.
Finalmente, outra diferença se pode notar: os dons não têm sempre o mesmo objeto que as virtudes, ou se têm o mesmo ob­jeto de tal ou tal virtude, é de um modo mais elevado e mais su­blime. Assim os seus atos contêm as manifestações mais nobres e mais excelentes da vida espiritual. É neste sentido que os teó­logos dizem que pelos dons o Espírito Santo, de per si, opera de modo muito especial sobre nós e em nós, tornando-nos dóceis a sua influência. Sem dúvida opera também nas virtudes e pelas virtudes, mas não com a mesma potência e a mesma segurança.
Esta facilidade no bem de tal modo traz em si o selo do Es­pírito Santo e o caráter de sua unção, que com toda a razão lhe é atribuída; e, por outro lado, é tão grande a sua importância para a prática das virtudes e das obras da salvação, quanto é natural que na alma justa se pressuponha uma disposição para esta facilidade.
Conseguintemente, o efeito que os dons produzem na alma é a aptidão para reconhecer as divinas inspirações, a docilida­de, a prontidão, decisão e generosidade em corresponder-lhes; numa palavra o perfeito exercício da vida espiritual. Saber não é poder simplesmente; o poder manifesta-se na ação feita com facilidade e prazer. Eis aí, ao que parece, em que precisamente consistem os dons e o ponto em que principalmente se distin­guem das virtudes.
2. Vejamos agora como se dividem os dons. Devem facili­tar às virtudes o exercício dos seus atos. Segue-se daqui que se adaptam a elas, e que é preciso por meio delas apoiem e sus­tentem as forças principais da alma, a inteligência e a vontade.
Por consequência, devemos ter dons que se referem à inte­ligência e à vontade. Os primeiros quatro — os dons de enten­dimento, de ciência, de sabedoria e de conselho — aperfeiçoam a inteligência. Os outros três — dons de temor de Deus, de pie­dade e de fortaleza — dirigem-se à vontade.
Com relação às diferentes virtudes, dividem-se da manei­ra seguinte: os dons de inteligência, de ciência e de sabedoria facilitam a fé; além disso a sabedoria estende a sua ação à cari­dade; o dom de conselho vem em auxílio da prudência; o temor de Deus favorece a temperança; a piedade mantém a justiça; o dom de fortaleza aperfeiçoa a virtude do mesmo nome. Os dons são como o espírito das virtudes, e eis por que lhes facilitam o exercício. Por forma que todo o sistema das forças e faculdades naturais é duplamente fortificado, transformado, elevado a uma atividade superior, a princípio pelas virtudes sobrenaturais, de­pois pelos dons do Espírito Santo.
3. Um primeiro motivo de estimar estes dons em geral é a sua necessidade. Todos devemos possuir estes dons, a todos se deve estender a sua influência; porque todos devemos sal­var-nos. As virtudes sem dúvida nos tornam possível a salva­ção, sob o impulso da graça atual; mas não nos basta a simples possibilidade, precisamos da facilidade; é a vantagem dos dons. Além disso, por vezes a salvação exige obras mais altas e mais dificultosas: podemos afirmar que a necessidade de tais obras se impõe a todo cristão; é, pois, também para isso necessária ação particular do Espírito Santo. À atividade de ordem supe­rior deve corresponder em nós uma faculdade superior. Deus, pondera S. Tomás, conduz-nos por duas luzes: a princípio pela luz da razão, depois por Ele mesmo, agindo sobre nós com es­pecial impulso e ilustração.
Ora, esta ação de Deus constitui um princípio mais nobre de conhecimento e ação; é, portanto, natural e conveniente que a esta ação especial de Deus corresponda, na alma, faculdade especial. Para vir pedir a um mestre ensino superior, é preciso possuir a capacidade necessária para a compreensão desse en­sinamento. E assim, neste caso, o Espírito Santo é Mestre in­comparavelmente sublime, que nos esforça a um modo de ação muito superior ao da nossa natureza racional, mesmo quando dotada das virtudes ordinárias; por conseguinte devemos levar à escola deste Mestre faculdades especiais. Geralmente falando convém que Deus já encontre na sua criatura um mecanismo e uns órgãos que estejam relacionados com a sua ação, mesmo quando quer nela operar de modo extraordinário; tais disposi­ções da alma e tais órgãos são precisamente os dons do Espí­rito Santo. Logo esses dons tornam-se-nos necessários para a nossa salvação.[1]
Daí novo motivo para estimar os dons do Espírito Santo e amá-los: sua excelência. Os dons supõem as virtudes; têm nelas a razão de ser, tanto mais quanto as virtudes — e mais particu­larmente as virtudes teologais — são mais necessárias e mais importantes. Contudo, os dons, em seu gênero, atestam uma perfeição superior; e se na dignidade e excelência ficam abaixo das virtudes teologais, sobre-excedem as virtudes não-teologais pelo seu valor intrínseco, visto como estas não nos unem a Deus tão perfeitamente, enquanto que os dons estabelecem a subordinação a Deus da nossa alma, a sua união com Ele, e a facilidade e prontidão na execução do bem. Mesmo relativa­mente às virtudes teologais, possuem os dons valor eminente e excelência especial: completam, elevam, aperfeiçoam a prática destas virtudes, como já vimos. Em muitos casos — também já o dissemos — a influência dos dons torna possíveis atos, para os quais não bastam virtudes ordinárias. Portanto põem-nos no estado de exercitar a virtude num mais alto grau de perfeição acima da medida habitual.
Como quer que seja, o que lhe dá grau particular de ex­celência é que os dons submetem a Deus as nossas potências e atividades; tornam-nas dóceis a Deus. Ora, a perfeição con­siste na inteira submissão a Deus, na completa união com Ele.
Pode, pois, dizer-se: os dons, o exercício destes dons, cons­tituem o grau superior da vida espiritual. Os atos desta vida es­piritual, que chamamos Mística, têm principalmente o princípio nos dons do Espírito Santo. Os dons tornam-se assim realmen­te a mais gloriosa manifestação da graça e das virtudes; são os órgãos mais nobres e mais excelentes da vida sobrenatural. Também expressa e individualmente os deparamos no Salvador. Ainda muito mais, no organismo do Homem-Deus formam or­namento infinitamente precioso, ao passo que certas virtudes — a Fé e a Esperança, por exemplo, — não Lhe eram essenciais, pois que a visão imediata de Deus, que não deixou de fruir, inu­tilizava e excluía aquelas virtudes. A posse dos dons aprimora assim a excelência da Graça Santificante e levanta-nos até uma notável semelhança com o divino Salvador.
Ora, estes dons tão excelentes, tão admiráveis, devemo-los principalmente ao Espírito Santo: eis por que formalmente são chamados “Dons do Espírito Santo”. É pelos dons que, como outros tantos toques secretos de ação de extrema delicadeza, atua sobre a alma santificada e a dirige à sua vontade. Por eles, a alma se eleva facilmente aos mais altos cumes da perfeição; e também, os mestres da vida espiritual têm comparado os dons com as asas da ave, com as velas do navio: a ave voa com maior velocidade do que caminha; a vela é mais rápida e potente do que o remo. Graças a estes dons, a alma torna-se instrumento de predileção para o Espírito Santo, seu educador e Mestre, e é o que de tal mestre se pode esperar.
Bastam estas reflexões para encontrarmos novo motivo de reconhecimento para o Espírito Santo, para Lhe agradecer por se dignar conceder tão preciosos dons à nossa alma, não pon­do limites à sua liberalidade. Nestes dons há coisa que merece particularmente nossa estima e gratidão; é por meio deles que o Espírito Santo nos aproxima de si; chama-nos à sua intimida­de, quer ser Ele mesmo o educador e Mestre da nossa alma. Que há, pois, de mais justo do que procurar descobrir esses dons, difundidos em nós com a Graça Santificante e com as virtudes, esforçar-nos por tirar deles proveito, exercitar os seus atos e ampliá-los pela docilidade às inspirações do Espírito Santo?



[1] Relativamente à natureza dos dons do Espírito Santo e às proprieda­des que os distinguem das virtudes, encontra-se entre os teólogos gran­de diversidade de opiniões. Segundo uns, os dons permitem-nos corres­ponder às graças atuais; outros reduzem a sua ação às graças eficazes; outros, enfim, limitam-na às obras extraordinárias ou ao menos às obras a que somos levados por um impulso particular do Espírito Santo. Ado­tamos a opinião exposta mais acima, sobretudo porque, enquanto aos dois primeiros pontos, está ela de acordo com a doutrina de Tomás. Os outros dois pontos, — que os dons são necessários a todos para a salva­ção, e que tornam a alma mais dócil e obediente à inspiração do Espírito Santo — parecem deduzir-se dos ensinamentos do Santo Doutor sobre este assunto. (ST 1, 2, q. 68, art. 1 e 2).

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