quinta-feira, junho 15, 2017

Eucaristia e vida cristã

Por Adolphe Tanquerey, “O dogma e a vida interior”, p. 217-221.




Cristo quis, ao instituir a Eucaristia é incorporar-nos Nele, para que, com Ele, por Ele e Nele possamos glorificar a Deus e unir-nos às três Pessoas Divinas.

A) A comunhão incorpora-nos em Jesus.
É por isso que Ele institui a comunhão sob as espécies do pão e do vinho e nos diz: Tomai e comei, isto é o meu corpo; tomai e bebei, isto é o meu sangue. Alimentando-nos com o seu corpo seu sangue sua alma e sua divindade, Cristo incorpora-nos em si; dá-nos o direito de fazermos nossos os seus sentimentos e de sermos com Ele um só coração e uma só alma.
a) Bossuet explica-nos como é estreita esta união: Ser incorporado em Jesus Cristo, estar-lhe perfeitamente unido de corpo e espírito; ser com Ele uma mesma carne e um mesmo espírito pela consumação deste casto conúbio; ser dos seus ossos e da sua carne, como uma esposa fiel; mas ser também do seu espírito, de maneira que Ele disponha ao mesmo tempo do nosso corpo, do nosso espírito, do nosso amor, como nós dispomos do seu. Numa palavra, ser o corpo de Jesus Cristo, estar unido a Ele como os membros estão unidos entre si, sem nunca haver divisão ou frieza, nem para com Ele, nem para com qualquer dos seus membros, porque Ele não quer apenas vir até nós, mas permanecer dentro de nós.
b) É também uma união duradoura: Aquele que come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele (Jo. 6, 56). Cristo permanece em nós pelo seu divino Espírito, que cria nas nossas almas disposições semelhantes às suas; nós permanecemos Nele, por uma espécie de comunhão espiritual que dá origem a que os pensamentos e os sentimentos do Salvador se formem em nós.

c) É enfim uma união santificante, porque transforma-nos progressivamente em outros Cristos. Pouco a pouco, os nossos pensamentos e juízos vão-se modificando. Em vez de julgarmos as coisas segundo as máximas do mundo, começamos a julgá-las segundo os preceitos do Evangelho. A nossa vontade conforma-se com a de Cristo. Convencidos de que só Ele está na verdade, porque é a Sabedoria eterna, começamos a só querer o que Ele quer, e podemos repetir com Ele: Pai, que a vossa vontade seja feita na terra como no céu! O nosso coração desprende-se pouco a pouco dos afetos egoístas para só amar ardentemente, generosamente, aquele que é o único que merece ser amado.
Podemos afirmar que a comunhão, que nos faz participar dos sentimentos da vítima divina, que transforma o nosso corpo e a nossa alma em verdadeiras hóstias, as quais, unidas à hóstia santa por excelência, glorificam a Deus, completa o sacrifício. É por isso que São Paulo exortava os primeiros cristãos a oferecerem-se como vítimas: “Exorto-vos, meus irmãos, pela misericórdia de Deus, a oferecerdes os vossos corpos como uma hóstia viva, santa e agradável a Deus; este é o culto espiritual que lhe deveis oferecer” (Rom. 12, 1).
B) Mas se a comunhão nos une a Jesus, une-nos também a Deus, às três pessoas da Santíssima Trindade. Com efeito, Jesus é o Filho eterno de Deus, o Verbo Encarnado, e Nele encontramos as duas outras pessoas da Trindade, porque todas elas vivem umas nas outras. O Filho de Deus não vem sozinho à nossa alma. Com Ele vem o Pai, que não cessa de gerá-lo, e o Espírito Santo, que procede do amor do Pai e do Filho. Uma vez incorporados em Cristo, transformam-nos logo em filhos adotivos de Deus.
Assim se realiza o fim intentado por Deus: a nossa união íntima com a divindade. O Santo sacrifício da Missa é realmente o ato por excelência do culto cristão. O centro da nossa religião, a fonte mais fecunda da nossa vida sobrenatural, Memorial da Paixão, a Missa leva-nos ao pé do Calvário e faz-nos contemplar compungida e amorosamente o divino Crucificado, sofrendo, agonizando e morrendo por nós. Representação real e viva do drama do Calvário, ela põe à nossa disposição todo o valor do sacrifício realizado no Gólgota. Unido a Jesus, a vítima sem mácula, o homem pode glorificar a Deus como Ele merece ser glorificado, obter o perdão das suas iniquidades, por mais graves que sejam, e pedir a Deus, com a certeza de ser ouvido, todas as graças necessárias à santificação e a salvação, pois é o próprio Jesus que pede por nós. Essa comunhão íntima com Jesus, com o próprio Deus transforma-nos em outros Cristos, torna-nos semelhantes ao nosso divino modelo e aproxima-nos da perfeição do Pai.

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