sexta-feira, junho 23, 2017

Atrair todos os corações ao Coração

Por André Prevot, “Amor, paz e alegria”, p. 30-31; 38-42.



A devoção ao Sagrado Coração de Jesus teve início na Alemanha medieval, durante o século XI, mas somente chegou ao seu completo desenvolvimento, teórico e prático, no século XVIII, quando foi oficializada pela Igreja. Daí em diante popularizou-se propagou-se pelo mundo inteiro, produzindo maravilhoso resultado nas almas.
Entre os muitos devotos do Sagrado Coração de Jesus que havia na Alemanha medieval, salientam-se, como astros de primeira grandeza, as três monjas do mosteiro cisterciense de Helfta (Westfalia): Matilde de Magdeburgo (1212-1283), Santa Matilde de Hackeborn (1241-1298) e Santa Gertrudes de Helfta, a Grande (1256-1302).

O amor, princípio da devoção ao Sagrado Coração

Ouvimos Jesus dizer a Santa Gertrudes: “Foi o amor do meu Coração que produziu os teus escritos; quero que eles sejam para os últimos tempos o testemunho do meu amor, para atrair as almas ao meu coração”.
Numa sexta-feira santa, quando as freiras faziam a adoração da cruz, ao chegar para Santa Matilde o momento de beijar o Crucifixo, ela beijou a chaga do Coração, e o Senhor lhe disse: “Nesta chama de amor, tão grande que abrange o céu, a terra e tudo o que encerram, aplica o teu amor ao meu divino amor, para que ele aí se torne perfeito, e, assim como um ferro em brasa se confunde com o fogo, eles se confundam num só amor” (S. N. 1, 18).
Noutro dia ela viu o Senhor abrir a chaga do seu dulcíssimo Coração e dizer-lhe: “Olha toda a extensão do meu amor; mede-o por estas palavras que eu dirigi a meus irmãos: Como meu Pai me amou, assim eu vos amei (Jo 15, 9). Já ouviste palavras que exprimissem amor mais forte ou mais terno?” (I. M. 1, 21).

O princípio da devoção ao Sagrado Coração é o amor, isto é, o Coração de Jesus nos quer dar esta devoção como o derradeiro esforço do seu amor e o dom mais perfeito que nos possa conceder. É o amor que se quer dar até o extremo, até o fim dos tempos, até as extremidades da terra, até os últimos limites do amor. É o amor que quer reaquecer o mundo, agora que a caridade tanto se esfriou nele; é o amor que veio trazer o fogo à terra e que quer, no fim dos tempos, abrasá-la toda com as suas chamas. É o amor que quer amar ainda mais do que ser amado, pois tal é a lei do amor. Quer dizer uma última vez a esses ingratos o quanto os ama; quer estreitá-los ao seu Coração, recordar-lhes tudo quanto fez por eles, tentar ainda enternecê-los, e salvá-los.

Atrair os corações a Cristo

Vimos que o intuito de Nosso Senhor nos escritos de Santa Gertrudes foi fazer conhecer a ternura do seu Coração, para, desse modo, atrair a si muitos corações.
Jesus também deu várias vezes sensivelmente o seu Coração a Gertrudes, e recebeu o coração da Santa em troca, para nos mostrar a reciprocidade que deve existir no dom de amor entre Ele e nós. Conservou sempre o coração de Gertrudes fielmente unido ao seu, para nos servir ainda de modelo: “Gertrudes, dizia Jesus a Santa Matilde, adere de tal forma ao meu Coração, e conservo-a de tal forma unida a ele, que ela se tornou um mesmo espírito comigo. Por isto ela vive em absoluta dependência da minha vontade: os membros do corpo estão menos sujeitos ao coração do que Gertrudes está submissa à minha vontade. Mal o homem, em seu pensamento, diz à sua mão que faça algo, ao seu olho que veja algo, à sua língua que fale ou ao seu pé que ande, esses membros obedecem imediatamente. Gertrudes é para mim como uma mão, um olho, uma língua de que disponho a meu gosto, sem que resistam a nenhum dos meus desejos.”
Jesus manifesta em particular a Gertrudes o quanto seu Coração divino deseja a conversão dos pecadores. A Santa rezava, um dia, por uns malvados que haviam causado um grande prejuízo ao seu mosteiro. Nosso Senhor mostrou-se então a ela, apresentando um braço dolorosamente dobrado e torcido, os nervos parecendo-lhe partidos. E Jesus lhe disse: “Aqueles que me pedem pela conversão desses infelizes derramam um bálsamo salutar no meu braço doente, e com mão delicada reconduzem pouco a pouco os músculos à posição primitiva”. Surpresa com este excesso de benignidade, Gertrudes disse a Jesus: “Dulcíssimo Senhor, como podeis chamar de vosso braço pessoas tão indignas dessa honra? – Chamo-as assim com razão, porque são membros do corpo da Igreja, de que me honro de ser a Cabeça. Por isso o interesse das suas almas desperta em mim solicitudes inexprimíveis: o meu coração deseja com indizível ardor que esses infelizes se endireitem”.

Reflexões

A finalidade íntima que Nosso Senhor se propôs revelando ao mundo a devoção ao seu Sagrado Coração é ainda o amor dos homens, que ele quer atrair todos a si. Jesus quer ter o coração do homem: “Meu filho, dá-me o teu coração”.
Mas o amor supõe o conhecimento; só amamos algo que conhecemos e que nos agrada. Se até aqui Jesus não foi amado, é porque não foi conhecido: eis porque ele tenta um derradeiro esforço para difundir por toda a parte o conhecimento do seu amor. Basta que o homem olhe para esse Coração aberto pelo amor, para que compreenda o quanto é amado por Deus, para que veja que tem um Salvador, um amigo, e, se quiser pensar nisto um instante, é impossível que não se sinta atraído, porquanto o amor atrai, necessariamente, o amor.
Jesus quer, pois, primeiramente fazer conhecer o seu amor a todos os homens. Por este meio, quer vir a estender sobre todos o reino do amor. Esse reino consiste principalmente no dom mútuo dos corações, entre ele e nós, na união de vida e de sentimentos do nosso coração com o seu Coração. O nosso dulcíssimo Senhor precede-nos, dá-nos primeiro o seu divino Coração.
Não é totalmente justo que a sua pequena criatura lhe dê o seu em troca? É esta a lei do amor. E por certo, nessa troca, não somos nós que tudo temos a ganhar em nobreza, em beleza, em paz, em alegria e em felicidade? Oh! que admirável condescendência, que nosso Deus queira assim dar-nos o seu Coração para ter o nosso coração! Que permute os seus tesouros com a nossa miséria, o seu poder com a nossa fraqueza, a sua sabedoria contra a nossa ignorância! Oh! Saiamos de nós mesmos como o amor faz sair de si mesmo o nosso Deus!
Nós, nós somos a miséria, o erro, o mal, a perturbação, o tédio; saia o nosso coração desse meio onde definha; perca-se em Jesus; abisme-se nesse Oceano de misericórdia, nessa Fonte de todos os bens, nesse Centro de paz, nessa Torrente de felicidade!
A unidade de vida e de sentimentos é ainda uma lei do amor gravada na nossa natureza; o amigo: convivit; quer e pensa como ele: concordat; sem este acordo das vontades e dos sentimentos, a amizade não poderia ser verdadeira. Oh! Jesus, que sois nosso Amigo no supremo grau, vinde e vivei nos nossos corações, que quereis possuir inteiramente. Seja o vosso Coração o nosso coração; a vossa vontade seja a nossa vontade, as vossas virtudes tornem-se as nossas virtudes: falai em nós, orai em nós, fazei vós mesmo todas as nossas obras. Só por esta união é que podemos satisfazer o vosso amor; só por esta união é que as nossas obras se tornam verdadeiramente divinas e merecem a recompensa divina que nos haveis prometido.
Pela devoção do Sagrado Coração, Jesus quis especialmente propor aos pecadores o objeto e o meio mais próprios para convertê-los. Se o pecador se puser um instante em contemplação desse Coração que tanto o amou e tanto o ama ainda, sua consciência lhe dirá:
“Eis o Coração que para me salvar sofreu tão cruéis tormentos! E por meus pecados eu o aflijo, encho-o de amargura!” Não é possível que não se sinta tocado e não se proponha converter-se. E, para incentivá-lo, para facilitar-lhe o regresso, o terno Salvador ofereceu-lhe ao mesmo tempo o meio mais doce e mais seguro: é o amor que o seu Coração lhe quer comunicar; seja qual for o número dos seus pecados, o amor os apagará todos. Jesus lhe dará o amor, e o amor será a garantia do perdão.
Jesus quis sobretudo preparar indiretamente o meio mais eficaz para a conversão dos pecadores, inflamando de zelo alguns de seus irmãos mais fiéis, que deverão auxiliar o Redentor a salvar essas pobres almas.

É principalmente ao contato sagrado desse Coração que tanto amou os homens, que o zelo da alma delicada se incendeia. Vendo o que Jesus fez por seus irmãos, essa alma quer fazer como ele: orar, dedicar-se, sofrer. Nada lhe custará para completar o que falta à Paixão do seu amado Salvador, visando assegurar a salvação das almas.

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