quinta-feira, junho 29, 2017

A virtude da paciência

Por Pe. F. W. Faber, “Progresso na vida espiritual”, p. 113-132.



    Não é verdade que, em geral, não damos na vida espiritual o devido valor a esta virtude? Reconhecemos de boa vontade a importância da oração, do exame de consciência, da mortificação e da leitura espiritual, como meios de santificação, julgando-os parte necessária dos exercícios ascéticos de cada dia; mas receio que não damos à prática da paciência o lugar que lhe compete.
   Dirijo-me de modo particular às pessoas que vivem no mundo, e cuja santidade tem, por conseguinte, um caráter mais reservado que a dos religiosos, porque as circunstâncias exteriores a concertam forçosamente para dentro e não lhe fornecem ocasião para as belas expansões que tem livre curso na vida conventual. Disse que a santidade da pessoa piedosa no mundo é de caráter mais encoberto que a do religioso, e, à primeira vista, parece que isto é vantagem para a secular.
   Praza a Deus que não seja assim! Se as circunstâncias exteriores tornam a santidade do mundo mais escondida, formando assim um espírito todo interior, o religioso por outro lado goza do inestimável privilégio da obediência que exerce na alma pressão contínua e sobrenatural, adestrando-o no mais delicado espírito interior. Nada pode compensar a falta desta obediência, muito diversa da obediência que o secular deve ao diretor. Mas dou muita importância ao fato (atestado tanto pela experiência como pelas vidas dos santos) de que a santidade do leigo é mais oculta. Com efeito, já foi moda escreverem-se livros espirituais num estilo de hipérbole e de exagero, inteiramente oposto à calma discrição e sóbria moderação, tão necessárias na exposição de tais assuntos, e que atribuía toda santidade ao claustro, considerando o resto do mundo como um abismo de almas condenadas. (...)

   É bom, na confissão, acusarmo-nos das menores faltas contra a paciência e fazermos, a respeito, frequentes atos de contrição durante o dia, dirigindo repetidos olhares cheios de amor ao nosso Crucifixo, emblema tocante da paciência de Deus. Estranho é que, apesar de ser Deus impassível, há um quê de particularmente divino na virtude da paciência. Se é possível dizer que uma graça, além da caridade, faz a beleza da santidade, podemos dizê-lo da paciência.


   A paciência conosco

   Se a paciência para com o próximo não é fácil, mais difícil ainda é a paciência para com nós mesmos! De fato, há tanta negligência neste ramo de virtude, que o mérito parece estar no contrário, como se a impaciência para conosco fosse mortificação heroica ou meritória. Entre o ódio que nos devemos votar e esta impaciência, há vasta diferença. Quanto mais do primeiro e menos da segunda, melhor. Uma vez superada a dificuldade da paciência para com nós mesmos, o caminho da perfeição se estenderá claro e desimpedido em nossa frente.

   Mas que significa impaciência para conosco mesmo? (...) Os sintomas perigosos da impaciência para conosco provêm de uma ou outra das causas que passarei a enumerar; e nelas devemos procurá-los, a fim de matá-los no próprio ninho, antes que possam voar. São, de fato, as aves de rapina da vida espiritual.
   A primeira causa é o amor próprio, incapaz de tolerar a decepção de não se ver, em tempos de provação, belo, nobre e digno de ser admirado. A segunda é a falta de humildade, que nos impede de avaliar a nossa miséria ou compreender os efeitos deploráveis dos pecados passados. A terceira é a falta de uma noção exata das dificuldades enormes que cercam a vida espiritual e, por conseguinte, da necessidade do divórcio absoluto do mundo, da abjuração formal de suas máximas, antes de podermos entregar-nos efetivamente a Deus. A quarta é uma teimosa aversão em nos deixar guiar pela luz da fé, que nos fatiga. A natureza, o amor próprio, tudo, enfim, exceto a fé, quer ver, saber, raciocinar, ter certeza e segurança de que o êxito é infalível.
   A paciência para conosco é incalculável bênção, é o caminho mais curto para a perfeição e o meio mais rápido de adquirir o espírito interior, a não ser pelas operações súbitas de Deus. Torna-nos indulgentes e suaves para com os outros. Afasta a tendência para a censura, porque temos sempre na lembrança as nossas próprias imperfeições. Aviva o sentimento de inteira dependência de Deus e da graça, e produz a um tempo serenidade de espírito e igualdade de ânimo, porque não é somente esforço, mas esforço tranquilo e contínuo. É, por conseguinte, fonte constante da mais genuína humildade. Numa palavra, por meio desta virtude atuamos sobre nós mesmos exteriormente, por assim dizer, como se não se tratasse de nós, mas do nosso mestre, ou do nosso anjo da guarda. Obtidos estes resultados tanto na vida exterior como na interior, que resta a fazer para a perfeição?
   Há vários modos de cultivar essa paciência que nos diz respeito: a meditação frequente sobre o nosso nada é de grande utilidade; e sobretudo a lembrança de qualquer baixeza, fraude ou vileza da vida passada, cuja reconsideração não ofereça perigo pelo desgosto intrínseco e vergonha profunda que as minúcias do caso despertam em nós. Ao ouvir falar de algum grande crime, lembremo-nos de que, se não fosse a graça, poderíamos tê-lo perpetrado nós mesmos, ou talvez pior ainda.
   Cuidemos, também, na confissão e na preparação anterior, em não confundir vexame com verdadeira contrição; e continuemos depois da comunhão a pedir a paciência de modo especial. Devemos tentar (é muito difícil, mas o tempo consegue vencer as dificuldades) alegrar-nos em todas as ocasiões que nos mostram a necessidade que temos da graça, bem como a possibilidade de pecar muito gravemente que nos acompanha sempre. Não nos apressemos em esquecer os pecados passados, não forcemos o caminho até à luz do sol. Se Deus nos dá a respeito do pecado um sentimento desalentador, devemos prezá-lo e prosseguir sob a pesada carga. Bendito seja qualquer peso por mais esmagador, que Deus, com a própria mão, se dignou colocar-nos aos ombros. Numa palavra, esta paciência é uma quase condição do progresso espiritual, e Santa Catarina de Gênova é a sua padroeira.

   A paciência com Deus

   Deus digna-se, de vários modos, pôr-nos a paciência à prova, a nós, que somos apenas pó e cinza. Alguns desses modos se referem sobretudo à vida espiritual ou lhe pertencem exclusivamente. Os caminhos da providência e justiça de Deus, e os segredos dos seus desígnios não nos dizem respeito no momento; neles a majestade é adorável e a glória impenetrável. A lentidão é a característica do Criador, em relação às criaturas. Onde estaríamos há muito, se não fosse essa lentidão? Esquecemo-nos disto quando esta nos torna impacientes. Deus é lento, e nós somos velozes e precipitados.
   A razão é que nós só existimos passageiramente e Deus existe eternamente. Assim a graça, em geral, opera lentamente; a mortificação é demorada, qual nivelamento de uma montanha; a oração se assemelha ao crescimento de um carvalho secular. Deus trabalha pouco a pouco, e alcança os fins suave e firmemente, porém com tal lentidão que nos prova a fé, pelo mistério que a tudo envolve. Devemos prender-nos a este tributo divino à medida que crescemos em santidade. Deve ser, a um tempo, o objeto do nosso culto e o nosso modelo. Há algo de imponente na extrema lentidão de Deus. Deixai que nos proteja a alma, sem inquietá-la.

   (...)

   E quais são os remédios? É imperativo estudar a Deus. Devemos saciar-nos do seu espírito, amá-lo ardentemente, imensamente, até à morte. Mas devemos também temê-lo, com temor inexprimível, humilde, perpétuo. O temor deve pulsar no nosso sangue e tremer nos nossos membros, e, muitas vezes, arrebatar-nos e lançar-nos ao chão.
   Oh! como havemos de amar a Deus quando soubermos temê-lo assim! Tempo grandioso! És dom do Espírito Santo! Esperemos por Deus longa e carinhosamente, no vento e na chuva, nos trovões e nos relâmpagos, no frio e na obscuridade. Esperemos, que ele há de vir. Nunca vem aos que não sabem esperar, porque não segue o mesmo caminho. Quando chegar, ide com ele, mas ide de vagar, ficai um pouco para trás; quando ele acelerar o passo, certificai-vos bem antes de acelerar também o vosso; mas quando o retardar, retardai logo o vosso. É necessário, porém, caminhar não somente devagar, mas em silêncio, em profundo silêncio, porque ele é Deus.

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