quinta-feira, junho 08, 2017

A nossa vocação de filhos de Deus e a Santíssima Trindade

Por M. Vicente Bernadot, “Da Eucaristia à Santíssima Trindade”, p. 76-79.


“Bendito seja Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, que nos elegeu em si antes da criação do mundo, para sermos santos e imaculados no amor” (Ef 1, 4).
Deus, portanto, ocupou-se de nós desde toda a eternidade. O Pai teve para nós um pensamento, que é, ao mesmo tempo, vontade determinada. Para cada um de nós, teve uma palavra, um dito, que nos cria, que nos exprime, que contém a nossa vida temporal e eterna, e expressa o que devemos ser, o lugar que devemos ocupar, a perfeição que devemos realizar, a glória que devemos atingir. Tal dito pronunciou o Pai celeste quando determinou a nossa vocação sobrenatural, logo que quis realizar seu pensamento eterno sobre nós. É ele a economia suprema e a divina teoria da nossa existência: indica os termos em que penetraremos no plano divino da criação.
É sempre dentro deste pensamento que o Pai celeste nos conhece e nos ama. E tanto mais cuida de nós e nos concede as suas graças, quanto mais nos movimentarmos na luz de seu pensamento imperante e nos conformarmos com a ordem divina das realidades eternas.
A nossa obrigação principal, pois, se reduz ao seguinte: fazer a vontade do Pai celeste, viver de acordo com a palavra que pronunciou sobre nós; aceitar, de antemão, tudo o que esta palavra encerra, alegrias e dores e, em seguida, submeter-se amorosamente a todos os seus preceitos, à medida que estes se nos manifestarem na vida cotidiana.
Mas, qual será este misterioso pensamento? Que dirá esta palavra?

É S. Paulo que responde: “Os que ele conheceu na sua presciência, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho” (Rom 8, 29). A vontade de Deus é que penetremos no mistério de Cristo; a palavra que pronunciou sobre nós exprime a medida e o modo como reproduziremos a Jesus para a glória do nosso Pai do Céu: “Por sua benevolência, ele nos predestinou para sermos seus filhos adotivos por Jesus Cristo, para louvor e glória da sua graça” (Ef 1, 5).
Nossa vocação sobrenatural é, pois: conformarmo-nos a Jesus, vivermos como Jesus, identificarmo-nos com Jesus. O Verbo encarnado é o ideal único e universal, que devem reproduzir e manifestar todos os predestinados do Amor: seculares, sacerdotes ou religiosos, virgens ou casados; sob pena de exclusão do reino da graça, todos são obrigados a imitar o modelo único que é Jesus Cristo. Conforme for a medida de sua aderência e fiel semelhança a Jesus, assim será exatamente a medida de sua perfeição e fecundidade sobrenatural: “porque em nenhum outro há salvação” (At 4, 12).
Em que medida, porém, hei de reproduzir Jesus em mim?
Não sei. Está aí o misteriosíssimo segredo da predestinação eterna. Entretanto, é certo que devo reproduzi-lo, incessantemente devo contemplar Jesus, imitar Jesus, identificar-me com Jesus.
Como desempenharei uma função tão sublime? Com a graça e cooperação do Espírito Santo. “Ficando eternamente conosco” (Jo 14, 16), o Espírito Santo torna-se o executor dos desígnios do Pai celeste, o artífice da deificação do homem, cujo plano o Pai delineou sobre o modelo do Verbo encarnado. “Digitus paternae dexterae”, canta a Igreja (Hino ‘Veni Creator’): Vós sois, ó Espírito Criador, o Dedo de Deus Pai. Assim como o pintor ou escultor se servem da mão para expressarem o ideal concebido, assim o Pai celeste se serve do Espírito Santo para retratar o seu pensamento, insculpir o seu Verbo e gravar em nós a sua Imagem.
A primeira operação, em nós, deste Espírito criador e santificador, é a da nossa transformação em semelhança do Filho deDeus e a de nos mover a vivermos uma vida de acordo com a nossa filiação divina: “Todos os que são conduzidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus. Com efeito, não recebestes um espírito de escravos, para recairdes no temor, mas recebestes um espírito de filhos adotivos, pelo qual clamamos: Abba! Pai! O próprio Espírito se une ao nosso espírito para testemunhar que somos filhos de Deus” (Rm 8, 14-16).
Espírito de verdade, Ele esclarece em nossa alma o eterno Pensamento do Pai. Ele no-lo torna mais evidente, mais conciso e mais atraente, revelando-nos Jesus: “Quando vier o Espírito da verdade, ele vos conduzirá à verdade plena; Ele me glorificará” (Jo 16, 13s), fazendo-vos conhecer mais e mais a minha graça e divindade.
Sendo a consumação e a consagração de tudo, Ele continua a imprimir em nossa alma o adorável Pensamento do Pai, que é Jesus. Se lhe damos permissão, esse Pensamento se fixa em nós de modo permanente e irrevogável. É o mistério que Davi contemplava no seu cantar: “Senhor, levantas sobre nós a luz do teu rosto” (Sl 4, 7), porquanto o Verbo é a Imagem do Senhor, o seu Esplendor e a sua Glória.
Além disso, como Ele é o Espírito de vida e o motor da vida sobrenatural, realiza concretamente o Pensamento do Pai: impele-nos a atingir a completa semelhança com Cristo. Ele nos estimula e ajuda “até que todos cheguemos ao estado de varão perfeito, à medida da estatura da plenitude de Cristo... até que Cristo se forme em nós” (Ef 4, 13; Gl 4, 19).

Enfim, sendo pessoalmente o Amor, estabelece, entre nós e a Santíssima Trindade, relações de amor, uma tendência perpétua para a união. Ele faz inclinar para nós a Santíssima Trindade e atrai-nos para ela. Ele é o chamamento contínuo, a atração viva, a aspiração irresistível que nos leva para Jesus; de tal forma que, à medida que a alma se amolda cada vez mais ao Pensamento do Pai, posto em execução pelo Espírito Santo, a união se torna mais íntima e mais acabada, até ao momento em que a alma, assim como o Pai está no Filho e o Filho no Pai, fica em Cristo e Cristo nela, ambos “consumados em unidade”, conforme o supremo desejo da Ceia. Então poderemos apresentar-nos assim, resgatados e santificados, ao Pai celeste e dizer lhe: “Ó Deus, olhai para nós! Vede, em nós, o rosto do vosso Cristo!” (Sl 83, 10).

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