quinta-feira, maio 11, 2017

Por que pedir a intercessão da Virgem Maria?

Por Adolphe Tanquerey, “Para formar almas santas”, p. 121-130.

Obra disponível aqui.



Maria, a medianeira universal da graça

Por ser a mãe de Jesus e mãe dos homens, Maria é a mais indicada para ser a nossa medianeira depois de seu Filho.
No plano divino há apenas um mediador necessário, o Verbo Encarnado, que, sendo verdadeiro Deus e verdadeiro homem, possui toda a autoridade para reconciliar o homem com Deus e para unir intimamente os homens, seus irmãos, com seu Pai celestial: “Porque há um só Deus e há um só mediador entre Deus e os homens: Jesus Cristo, homem que se entregou como resgate por todos” (1Tm 2, 5-6). Mas tudo o que dissemos sobre a relação de Jesus com Maria nos leva a pensar que a Virgem bendita, que teve tão grande participação na obra redentora, tem um papel importante na distribuição das graças merecidas pelo seu Filho. Certamente, como o seu ofício foi secundário, a sua mediação também deverá ser secundária: Jesus será sempre o mediador principal, e Maria, nossa medianeira depois dele, mediatrix ad mediatorem: por ela chegamos ao Filho, e por ela o Filho nos dispensa as suas graças.
Para entender bem essa doutrina, veremos: 1º, quais são os seus fundamentos no Evangelho; 2º, como foi se concretizando na Tradição; 3º, a consagração que surgiu com a festa de Maria medianeira universal da graça.
Os fundamentos Evangélicos da mediação de Maria Do relato evangélico se deduz que Maria ocupa, na ordem da salvação, o mesmo lugar que Eva ocupa na ordem da nossa perdição espiritual; assim como Eva cooperou com Adão para a nossa ruína, Maria colabora com Jesus na nossa redenção; Jesus é o novo Adão e Maria é a nova Eva. Recordemos as palavras que o anjo disse a Maria: o que lhe propõe ele em nome de Deus? Não é ser a mãe de Jesus como uma pessoa privada, mas sim, ser a mãe do Salvador, o Redentor da linhagem humana. Pe. Bainvel destaca muito bem: “o anjo não fala somente das grandezas pessoais de Jesus; ele propõe a Maria ser a mãe do Salvador, do Messias esperado, do Rei eterno da humanidade regenerada. Assim, ele lhe propõe cooperar com a salvação da humanidade, com a obra messiânica, com a constituição do reino prometido.

Por isso ela é cheia de graça, por isso ela é bendita entre todas as mulheres”[1]. E, como a Encarnação é o início da Redenção, cooperar com a Encarnação é cooperar com a Redenção, a nossa salvação. Assim, toda a obra da Redenção depende do Fiat de Maria. A Virgem tem plena consciência disso. Ela sabe bem o que Deus lhe propõe, e consente no que Deus lhe pede, sem restrição e nem condição alguma; seu Sim é tão amplo quanto a proposta divina, e se estende a toda a obra redentora. Maria é a mãe do Redentor, e, assim, está associada à sua obra de reparação; unida ao seu Filho, ela merece com Ele por todos os homens, mas secundariamente e com mérito de conveniência, enquanto Jesus merece como causa principal e com toda justiça.
Ela será, pois, também secundariamente, a dispensadora das graças concedidas às almas em virtude da Redenção. Tendo dado ao Salvador a humanidade que lhe permitiu merecer; ela tem certo direito sobre os méritos de seu Filho, e Este sente-se feliz em poder manifestar-lhe sua gratidão confiando-lhe ampla intervenção na dispensação das graças.
Isso se vê prontamente no dia da Visitação: logo depois de receber Jesus em seu seio, Maria se apressa a dar parte de seu tesouro a sua prima Isabel, que morava em uma aldeia de Judá. Assim que entra na casa de sua prima, o menino que esta levava em seu ventre, e que se chamaria João Batista, pula de alegria no seio e é purificado da mancha do pecado original. Também Isabel fica cheia do Espírito Santo, e começa a profetizar: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre. Donde me vem esta honra de vir a mim a mãe de meu Senhor? Pois assim que a voz de tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança estremeceu de alegria no meu seio” (Lc 1, 42-44). E assim será através dos séculos: sempre que a mãe de Jesus se aproxima de uma alma, será para dispensar, com seu Filho, as graças que Ele nos mereceu e que ela nos mereceu com Ele e por Ele.
Nas bodas de Caná, para a qual ela foi convidada com seu Filho, o poder de intercessão da humilíssima Virgem se manifesta mais claramente. Ela percebe, no final do banquete, que o vinho irá faltar; e para livrar os anfitriões desse apuro, simplesmente diz a Jesus: eles não têm mais vinho. Ele a acalma: “ainda não chegou minha hora”[2]. Maria compreende que seu Filho saberá remediar em tempo oportuno a escassez de vinho, e diz aos criados: “Fazei o que Ele vos disser”.
Chegado o momento, Jesus manda os criados encherem de água os seis cântaros que haviam servido para as abluções; e assim que ficaram cheios, a água se transformou em um delicioso vinho que alegrou o coração dos convidados. Que cena comovente, que nos mostra a delicadeza do coração de Maria e o crédito que ela tem diante do coração de Jesus, que não sabe negar coisa alguma à sua mãe tão bondosa!
Esse poder de intercessão é confirmado nos Atos dos Apóstolos, que narram sobre o retiro espiritual que os Apóstolos fizeram no Cenáculo para se prepararem para a vinda do Espírito Santo. Disse São Lucas: “Todos eles perseveravam unanimemente na oração, juntamente com as mulheres, entre elas Maria, mãe de Jesus” (At 1, 14). Quando o escritor sagrado menciona tão expressamente que Maria, a mãe de Jesus, também orava, não seria para nos indicar que ela influiu de forma especial para que o Espírito Santo descesse do céu sobre os primeiros discípulos?
Vimos o fundamento da mediação de Maria e o poder da sua intercessão nos Evangelhos e nos Atos dos Apóstolos; agora, veremos como a Tradição concretiza isso.

Como a Tradição determinou a intercessão de Maria

Desde os primeiros séculos os Padres da Igreja explicaram o papel de medianeira da santíssima Virgem, doutrina que foi se concretizando cada vez mais.
Nos séculos segundo e terceiro, São Justino, Santo Irineu e Tertuliano insistiram no paralelo entre Eva e Maria, mostrando que, assim como Eva contribuiu para a nossa queda, Maria colaborou com a obra da nossa redenção.
Veja-se, por exemplo, o que disse Santo Irineu, cuja autoridade é muito respeitada por ser representante das Igrejas da Ásia, onde foi educado, da Igreja de Roma, onde viveu, e da Igreja da Gália, onde ensinava e defendia a doutrina católica contra os hereges: “Assim como Eva, enganada pelas palavras do anjo rebelde, afastou-se de Deus e faltou com a sua palavra, Maria escuta da boca do anjo a boa nova da verdade, e recebe Deus em seu seio por ter obedecido à sua palavra... O gênero humano, acorrentado por uma virgem, é também libertado por uma virgem... a esperteza da serpente foi vencida pela simplicidade da pomba; as correntes que nos atavam à morte foram rompidas”[3].
Desse paralelo os Padres da Igreja tiram um grande número de conclusões. Santo Efrém, glória da Igreja da Síria, deduz que Maria é, depois de Jesus, o mediador por excelência, a medianeira do mundo inteiro, e nós recebemos por ela todos os bens espirituais[4]. Santo Agostinho nos diz que, se a morte nos veio por uma mulher, a vida nos veio por outra mulher, e acrescenta: “Para enganar o primeiro homem, a mulher ofereceu-lhe o veneno; para redimir o homem, a mulher lhe deu a salvação eterna”[5].
Mas os padres gregos vão ainda mais longe e afirmam, com São Germano de Constantinopla, que ninguém recebe graça alguma a não ser por Maria: “Ninguém recebe os dons de Deus senão por ti, oh puríssima; a ninguém se concede a divina graça senão por ti, oh reverendíssima”[6].
Por isso, quando são Bernardo proclama essa mesma verdade de modo mais explícito, nada mais faz que comentar a doutrina dos Padres gregos e latinos. Com que eloquência insiste ele na mediação de Maria e no seu papel de dispensadora da graça! Deus veio a nós por ela, e por ela devemos subir a Deus: “Por ti podemos chegar a teu Filho, oh bem aventurada que encontrou graça, oh Mãe da vida, oh Mãe da salvação, que por ti nos receba aquele que por ti se deu a nós...! Oh, medianeira, oh advogada nossa, reconcilia-nos com o teu Filho, recomenda-nos a teu Filho, apresenta-nos a teu Filho”[7]. É por meio dela que recebemos todas as graças. Jesus é a fonte delas, mas Maria é o canal, o aqueduto pelo qual as graças chegam a nós, porque é a vontade de Deus que tudo tenhamos por Maria, “sic est voluntas ejus qui totum nos habere voluit per Mariam[8]. Ele pôs nas mãos dela o preço inteiro de nossa redenção, que é Cristo; tornou-a a tesoureira das graças, e encheu-a delas até transbordar, e o que dela transborda se derrama sobre nós: “plena sibi, superplena nobis”[9].
Ela é uma medianeira tanto mais acessível quanto recebeu o cetro da misericórdia, e não da justiça; e, não tendo que exercer o ofício de juiz, está cheia de ternura, mansidão e bondade. Ela é uma medianeira poderosíssima, porque o Filho não saberá negar-lhe coisa alguma: “Poderia seu Filho desprezá-la ou tolerar que ela seja desprezada? Não, certamente, pois ela encontrou graça diante de Deus”[10].
Está já concretizada a doutrina, e Bossuet apenas a formulará para o teólogo e para o orador, e fundamenta-a com uma razão profunda tirada da unidade do plano divino: “Deus determinou dar-nos Jesus Cristo por meio da Virgem Santíssima, e Deus nunca volta atrás em seus dons, nem muda a ordem por Ele estabelecida. É e sempre será verdade que, tendo recebido por sua caridade o princípio universal da graça, recebemos ainda mais por sua mediação as diversas aplicações da graça aos diferentes estados que constituem a vida cristã. A sua caridade maternal contribuiu tanto para a nossa salvação no mistério da Encarnação, que é o princípio universal da graça, que contribuirá eternamente com todas as demais operações que dela dependem”[11].
Em outras palavras: por termos recebido Jesus por meio dela, causa meritória de todas as graças, por ela também receberemos todas as graças particulares que nos serão dadas no transcurso do tempo.
Concluamos, pois, formulando esta doutrina com o Pe. Bainvel, nos moldes de uma tese teológica: “Maria tem parte na obra da nossa redenção e salvação; parte secundária e inteiramente subordinada à de Jesus, mas não menos extensa e universal, tanto que se pode dizer que não há salvação, nem santificação, nem graça alguma no mundo dos homens em que ela não intervenha nem cesse de intervir ao lado de Jesus. Esse é o sentido e a extensão de seus títulos de medianeira e de mãe”[12].
Assim, segundo a doutrina tradicional, não há uma só graça concedida aos homens que não venha imediatamente de Maria, ou seja, sem a sua intervenção; mas é uma mediação subordinada à de Jesus. O Pe. de la Broise expõe claramente esta subordinação: “A ordem presente dos decretos divinos determina que todo bem sobrenatural concedido ao mundo o seja com o concurso de três vontades, caso contrário, não será concedido. Estas três vontades são: primeiramente, a vontade de Deus, que é a que confere todas as graças; depois, a vontade de Nosso Senhor, medianeiro que as merece e alcança com toda justiça; e por último, a vontade de Maria, medianeira secundária, que as merece e alcança convenientemente por meio de Nosso Senhor”[13].
Essa mediação é imediata no sentido de que em toda graça que Deus nos confere, Maria intervém com seus méritos passados ou suas orações presentes; mas isso não implica necessariamente que quem recebe as graças, irá pedi-las por meio de Maria: ela pode intervir – e de fato intervém – em muitas ocasiões em que não se pediu a ela; uma mãe nem sempre espera seu filho pedir para socorrê-lo. No entanto, por regra geral, intervirá com maior eficácia quando acudirmos a ela com filial confiança.
A mediação de Maria é universal, da mesma forma que a de Nosso Senhor: se estende a todas as graças concedidas aos homens depois da queda de Adão; graças de conversão, de aproveitamento espiritual, de perseverança final, e por isso devemos rogar-lhe que peça por nós “agora e na hora de nossa morte”.
Mas ela está subordinada à mediação de Jesus, posto que Maria não pode merecer nem alcançar e dispensar as graças senão por meio de seu Filho. Por isso, a mediação de Maria e o seu poder de intercessão, longe de tirar a glória e o louvor do Filho, exaltam cada vez mais o valor e a fecundidade de sua mediação, a única verdadeiramente necessária. É isso o que indica e declara a festa de Maria medianeira.




[1] Maria, madre de gracia, Paris, 1921, p. 73-75.
[2] Esta é a interpretação, simples e conforme ao contexto, que E. LEVESQUE.
dá a essa passagem no número de janeiro de 1928 de L´Evangile dans la Vie, p. 27-368.
[3] Adv. Hæres., lib. V, XIX, 1.
[4] Esse texto é citado na quarta lição do ofício de Maria medianeira da graça.
[5] Sermão II , n. 4.
[6] Homil. In S. M. Jonam, nº 5; uma passagem semelhante a essa é citada na quinta lição do ofício de Maria medianeira.
[7] Sermão segundo In adventu, 5.
[8] Sobre a Natividade da Bem-aventurada Virgem Maria, nº 7.
[9] Sermão II sobre a Assunção, nº 2.
[10] Sermão sobre a Natividade, nº7.
[11] Sermones, Adviento de San Germán, fiesta de la Concepción, edic. Lebareq, t. V, p.609.
[12] María, Madre de gracia, p. 66
[13] María, Madre de gracia, p. 23-24.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...