quinta-feira, maio 04, 2017

A maternidade divina de Maria

Por M. J. Scheeben, “A Mãe do Senhor”, p. 39-45.



Maria gera uma Pessoa divina

É de fé que Cristo, e mais especialmente o homem-Cristo, foi realmente gerado de mãe humana, e, portanto, é real e propriamen­te filho de mãe humana, como qualquer outro filho de homem. Ao lado da origem sobrenatural da sua pessoa tem, pois, uma filiação humana real e própria. Em atenção ao princípio maternal que inter­vém nesta obra, é preciso dizer que esta filiação humana de Cristo e a maternidade que lhe corresponde são naturais. No que concerne à geração da natureza humana e à sua comunicação à pessoa de Cris­to pela conceição e pelo nascimento, tudo o que uma mãe faz natu­ralmente foi feito positivamente por Maria.
Mas o dogma estabelece explicitamente que a filiação humana de Cristo não deve ser atribuída exclusivamente a Cristo ou ao ho­mem-Cristo, mas ao Logos incarnado de Deus, quer dizer, à pessoa divina do Logos. Segundo o dogma, deve dizer-se que o Logos in­carnado de Deus foi gerado “maternalmente” de Maria, foi concebi­do dela e nasceu dela. O Logos é, pois, filho de Maria, e Maria é sua mãe na acepção corrente do termo.
Esta verdade está incluída imediatamente, por uma simples análise e como consequência necessária, nesta outra verdade de que Cristo é filho de Maria. Com efeito, se Cristo é por essência a pessoa divi­na encarnada do Logos, a geração de Cristo não pode ser uma ge­ração da pessoa de Cristo sem ser uma geração da pessoa divina do Logos segundo a carne. A geração de Cristo não seria realmente ge­ração da pessoa divina se Cristo não fosse realmente a mesma pes­soa que o Logos, ou se a geração não produzisse senão um homem que mais tarde se teria unido ao Logos. De fato, os nestorianos ne­garam o nascimento e a filiação humana do Logos, porque negaram a identidade da pessoa de Cristo com o Logos. Em contrapartida, os católicos afirmam o nascimento e a filiação humana do Logos bem como o título de mãe de Deus que corresponde a Maria, enquanto expressão absolutamente necessária e adequada à verdadeira divin­dade do homem Cristo.
A Escritura não regista, claro está, a expressão “mãe de Deus”, e muito menos a de “geradora de Deus”. Mas a sua doutrina que diz respeito à origem e à essência de Cristo contém todos os elementos necessários para assim a chamarmos. Na profecia de Isaías e na anun­ciação do anjo, o fruto concebido e gerado de Maria será o Emanuel, “o Deus conosco” e o “Filho de Deus”. O Apóstolo escreve aos Roma­nos (Rm 1,3) e aos Gálatas (Gl 4,4) que o filho de Deus foi formado ou gerado de Maria. E Isabel saúda Maria como “a mãe do meu Senhor”.

A Tradição falava de uma segunda geração temporal do Logos di­vino muito tempo antes do concílio de Éfeso. A expressão “geradora de Deus” é até muito antiga. Juliano, o Apóstata, censura os cristãos por não cessarem de chamar Maria de “geradora de Deus”. São Gre­gório Nazianzeno chegou mesmo a anatematizar os adversários deste título. Os nestorianos objetam que a geração de uma pessoa divina envolve necessariamente a produção da pessoa divina, ou mesmo da natureza divina. Mas, como já notava São Cirilo, a própria gera­ção do homem natural não significa a produção de tudo o que cons­titui o homem, nomeadamente da alma espiritual.
Para dissipar todas as dificuldades e evitar uma noção demasia­damente superficial e vulgar da maternidade divina, importa exami­nar mais de perto a essência e as condições desta maternidade. Não podemos fazê-lo com proveito se não esclarecemos primeiro a no­ção da maternidade humana natural. No sentido estrito da palavra, tanto a maternidade como a paternidade se referem não a qualquer ser, mas a um ser pessoal, que deve a sua existência à atividade ge­radora. A maternidade distingue-se essencialmente da paternidade, porque a atividade geradora que a fundamenta tem o caráter de uma colaboração subordinada e, como indica a palavra “maternitas”, de uma colaboração material. Consiste em preparar a matéria que será constituída, ou melhor, que será disposta para ser constituída num ser pessoal. Na ordem natural, a maternidade não dá origem a um ser pessoal senão pela geração maternal da natureza humana. Nes­te ponto, apresenta dois aspectos a partir dos quais podemos consi­derar a maternidade e a geração maternal.

O fruto da maternidade divina
Sob o primeiro aspecto, em que é considerado como fruto e filho de sua mãe, Cristo aparece em primeiro lugar como homem. Mas este homem é fruto acabado de geração e filho real apenas na medi­da em que é um ser autônomo. Como o princípio da sua autonomia é um princípio divino, Cristo não é um filho real de sua mãe senão como divinamente subsistente. Maria é, pois, tão real e propriamen­te mãe de um filho “divino”, quer dizer, de um filho com personali­dade divina, de um “filho santo”, ou de um “fruto divino”, como toda a mãe é mãe de um filho animado espiritualmente.
A atividade maternal de Maria dirige-se pelo menos tão direta e formalmente à geração de um fruto essencialmente santo como a da mãe natural se dirige à geração de um fruto exclusivamente humano. Realmente, o fim da atividade maternal, puramente colaboradora, é determinado pelo fim do agente principal. A atividade maternal de Maria está ordenada tão direta e formalmente, sob a influência so­brenatural de Deus, para a união da carne com o Logos divino, prin­cípio da sua autonomia, como a da mãe natural, sob a influência do homem, para a união da carne com uma alma espiritual. Além disso, esta influência sobrenatural, que orienta a atividade maternal, opera imediatamente a união da carne com o princípio da sua autonomia, coisa que não acontece na maternidade ordinária.
Por conseguinte, é completamente errôneo conceber a atividade maternal de Maria como dirigida unicamente à formação da natu­reza humana de Cristo, de um homem, e apenas secundariamente à do Homem-Deus, formado pela união desta natureza humana com a pessoa divina. Tal coisa só seria exata se Maria tivesse concebido não do Espírito Santo, mas de um pai humano, ou se a concepção do Espírito Santo não incluísse como conteúdo principal e próprio a pessoa divina do Logos. Segundo a doutrina dos Padres, a ativida­de maternal de Maria tem por base a conceição do Logos como uma “semente divina”. Não se dirige interior e essencialmente à produ­ção de um homem qualquer; dirige-se à constituição de um homem que é o Homem-Deus.
Sob o segundo aspecto, em que Cristo é considerado como um filho dado por Deus à sua mãe, este filho aparece em primeiro lugar como Logos, Deus eterno e Filho eterno de Deus. Do lado da mãe, o Logos eterno aparece como objeto e conteúdo da concepção, tomando carne dela e nela, e como conteúdo principal e direto desta concepção. Em si mesmo, aparece como fim direto da atividade ge­radora da mãe, uma vez que esta atividade se dirige fundamental­mente a revesti-lo, a ele e só a ele, da carne da mãe, a desenvolver e a constituir essa carne.
Portanto, ainda neste ponto, a noção de maternidade se aplica direta e formalmente à pessoa divina do Logos, que é simples em si, já que é o sujeito da carne tomada da mãe. Como a pessoa de Cris­to, considerada formalmente, é puramente divina, não humana, nem mesmo humano-divina, a maternidade também não pode ser humano-divina, mas unicamente divina. Assim, não é uma figura de retórica mais ou menos ousada chamar Maria de mãe do Verbo. Esta denomi­nação põe em relevo o verdadeiro fim da sua maternidade e carac­teriza esta como uma relação espiritual com uma pessoa espiritual.

Embora, na maternidade natural, o ponto de vista do fruto tenha a primazia, isso não nos deve fazer colocar este ponto de vista em primeiro plano no caso de Cristo, menos ainda levar-nos a conside­rá-lo como normativo. A própria noção essencial de Cristo, Verbo incarnado, nos impede de fazê-lo. Cristo é, em primeiro lugar, uma pessoa divina que se fez homem e possui a natureza humana. Só em segundo lugar é que é um homem que possui a divindade. Do mes­mo modo, também Maria é mãe de um fruto que não é só homem, mas Deus e Filho de Deus, uma vez que a “semente divina”, conce­bida por ela e da qual esse fruto procede, é uma pessoa divina que assume a sua carne.

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