sexta-feira, abril 28, 2017

O Ressuscitado, centro de nossos pensamentos e afetos

Por Adolphe Tanquerey, “O dogma e a vida interior”, p. 34-42.

 
Jesus é a Cabeça de um corpo místico do qual nós somos membros, o nosso mediador junto do Pai, o sacerdote que oferece por nós o único sacrifício verdadeiro, o doutor que nos ensina a verdade eterna, o modelo perfeito que nos arrasta na sua esteira pelos caminhos da perfeição e da felicidade sem fim. Ele é tudo para nós.
A) Se assim é, não haverá razão para dizer que Ele tem de ser o centro de todos os nossos pensamentos? Em quem poderíamos nós pensar senão naquele que é tudo para nós? É isto mesmo o que fazem todos aqueles que meditam no Evangelho.
Com efeito, que podem eles procurar nesse livro divino, senão Cristo – esse mesmo Cristo que faz as delícias do seu coração? Com que amor eles percorrem essas páginas que fielmente evocam os fatos e os gestos do seu divino Salvador! Para eles, a doutrina e as virtudes de Cristo são um verdadeiro alimento e constituem a medida de tudo. Quando têm de formular um juízo sobre qualquer ponto importante, dizem para consigo: Qual é a doutrina do Mestre a este respeito? É que eles sabem que os nossos juízos, para serem verdadeiros, devem estar de acordo com os daquele que é a verdade infalível.
Quando querem orar, pensam instintivamente naquele que, sendo o grande Religioso do Pai, é também o único que pode dar a Deus a glória devida, e unem-se a Cristo para adorá-lo e pedir graças. Vão para o trabalho? Lembram-se de que Jesus auxiliou sua mãe nos humildes cuidados da casa e trabalhou com as suas mãos na pobre oficina de Nazaré. Se fazem alguma visita, se conversam com o próximo, não esquecem que Jesus vive no coração dos nossos irmãos como no nosso, e é com Ele que conversam na pessoa do próximo.
B) Deste modo, Jesus vai-se tornando o centro dos nossos afetos. Com efeito, como pensar em Jesus sem o amar? Não é Ele a beleza e a bondade infinitas? Não sintetiza na sua pessoa todas as perfeições da divindade e todos os encantos da mais pura humanidade? Todas as beldades humanas empalidecem ao lado da sua infinita beleza! Depois que conheci a Jesus Cristo, dizia Lacordaire, nada me pareceu bastante belo para merecer um olhar de concupiscência.
Se os Apóstolos no Tabor, diante da humanidade de Cristo transfigurado, ficaram tão arroubados de admiração que exclamaram: É bom estarmos aqui (Mt. 10, 7), quanto mais exaltados não ficaremos nós em face da beleza sobre-humana que resplandece em Jesus ressuscitado!

E quem será capaz de traduzir a bondade de Jesus para conosco? São Tomás resumiu numa estrofe, de maravilhosa concisão, as grandes manifestações do amor divino para conosco:

No presépio fez-se nosso irmão,
Na ceia, nosso alimento;
Na cruz, nosso resgate,
No céu, nossa recompensa.
No dia do seu nascimento, Ele aparece como um companheiro de viagem nesta terra de exílio, como amigo, como irmão, como consolador, e desde então nunca anais nos deixou sozinhos. Ao instituir a Eucaristia, torna-se nosso alimento e sacia com o seu corpo, sangue, alma e divindade, as almas que têm fome e sede de Deus. Morrendo na Cruz, pagou o preço do nosso resgate, libertou-nos da servidão do pecado, restituiu-nos a vida espiritual e deu-nos o maior sinal de amor que é possível dar aos amuos. No Céu, enfim, será Ele mesmo a nossa recompensa, veremos face a face sua divindade, contemplaremos embevecidos a sua humanidade glorificada, o possuiremos sem partilhas, e a nossa felicidade confundir-se-á eternamente com a sua, porque participaremos da sua glória.
Quem medita atentamente nestas verdades não pode deixar de amar generosamente Aquele que tanto nos ama e que é o único ser digno do nosso amor. Na verdade, Jesus é o nosso melhor amigo, o único que deu a sua vida por nós, o único que pode satisfazer o nosso coração feito expressamente para Ele. Quem tem Jesus, tem tudo. Quem não tem Jesus, não tem nada.
Assim o compreendeu um valoroso cristão, Augusto Cochin[1], que dizia àqueles que não têm a felicidade de crer: Vós, os filósofos, não podeis compreender como nós O amamos e o que Ele é para nós. Jesus está sempre diante dos nossos olhos, está de certo modo com uma mão sobre os nossos ombros, no trabalho e durante o descanso, na tribuna e no escritório, à mesa e no leito. Todo o cristão que compreende a fé, vive na presença e na companhia de Jesus Cristo. Depois disto, poderemos nós ligar importância às visões dos poetas, às musas inspiradoras, às beldades da vida? Nem poesia, nem paixão, nem encanto algum igualarão jamais o real e terno amor que nos inspira a pessoa de Jesus Cristo.

JESUS, O CAMINHO, A VERDADE E A VIDA

Quando amamos a Jesus Cristo deste modo, fazemos dele o centro das nossas ações e de toda a nossa vida. Ele é para nós o caminho, a verdade e a vida.
A) Jesus é o caminho que devemos seguir para chegar a Deus. Já dissemos que Ele é o nosso mediador de religião e de redenção. O homem quer oferecer a Deus adoração, reconhecimento e amor, mas só por si é incapaz de fazê-lo. Neste caso, só lhe resta incorporar-se em Jesus, fazer suas as homenagens que Ele, em seu nome, oferece ao Pai; que una o seu louvor ao do divino Mediador, e Deus há de comprazer-se nele por causa do seu Filho.
Éramos, diz Mons. Olier[2], devedores a Deus de um milhão de deveres religiosos, mas como éramos incapazes por nós próprios de lho tributarmos de adorá-lo como Ele merece e é nosso dever (Salmos 95, 4; 94, 13) necessitávamos que o grande Mestre, pela sua caridade, servisse de suplemento aos nossos deveres e fosse mediador da nossa religião. Foi por isso que Ele quis reviver depois da sua morte e estar sempre vivo, diz São Paulo, para louvar e pedir ao seu Pai por nós e na nossa falta.
Tivemos a infelicidade de ofender a Deus? É o próprio Jesus, mediador de redenção, que pleiteia a nossa causa e se oferece como vítima de propiciação pelos nossos pecados: E se alguém pecar tem um advogado junto do Pai: Jesus Cristo, o justo. Ele mesmo e uma vítima de propiciação pelos nossos pecados, não só pelos nossos, mas pelos do mundo inteiro (1 Jo. 2, 1-2).
Queremos implorar novas graças? Jesus está presente para apoiar as nossas preces com todo o peso dos seus méritos infinitos: Em verdade, em verdade vos digo: tudo o que pedirdes ao meu Pai, Ele vo-lo dará em meu nome (Jo. 16, 2-4). Com efeito, Jesus pede conosco e por nós. Ora Jesus é sempre ouvido por causa da dignidade da sua pessoa (Hb. 5, 17).
É pelo Filho que nós recebemos também o Espírito Santo. Como Deus, Ele se une ao Pai para no-lo enviar; como homem, merece-nos a graça de o recebermos e de tirarmos proveito dos seus dons.
É bom para vós que eu vá, porque, se não for, o Consolador não virá para vós; mas se eu for eu vo-lo enviarei. Quando o Consolador, o Espírito de verdade, vier, ele vos guiará em toda a verdade. O Consolador, o Espírito Santo, que meu Pai enviará em meu nome, há de ensinar-vos todas as coisas e lembrar-vos-á tudo o que eu vos disse (Jo. 16, 26; 16, 7-13).
É graças aos méritos do Salvador que o Espírito vem em socorro da nossa fraqueza, porque nós não sabemos o que devemos pedir nas nossas preces, segundo as nossas necessidades. Mas é o próprio Espírito que pede por nós com gemidos inenarráveis (Rom. 16, 7-13).
O Verbo encarnado é de fato o caminho que conduz ao Pai e ao Espírito Santo e, por isso mesmo, o caminho que nos conduz à mais alta perfeição. Além disso, é o nosso caminho, porque, como acabamos de provar, é o modelo perfeito de todas as virtudes que devemos praticar.
Sigamo-lo com amor. Seguindo-o, não nos extraviaremos e caminharemos para a luz.
B) Jesus é a verdade infalível que devemos crer e abraçar com amor. Jesus, como Verbo, é a infinita Sabedoria, a luz que ilumina todos os espíritos; como homem, possui uma tripla ciência: a visão beatífica, pela qual vê a Deus face a face e Nele todo o domínio do real, passado, presente e futuro; a ciência infusa, que se estende a todas as realidades da ordem natural e sobrenatural; a ciência experimental, que adquiriu progressivamente e que, sem ser tão universal como as outras duas, acabou por atingir um dia o conjunto das verdades a que o espírito humano pode elevar-se.
Cristo é o nosso Mestre por excelência: Vós só tendes um mestre que é Cristo (Mt. 23, 10). Que, se quiserem, os outros escolham mestres que deleitam os ouvidos e se desviam da verdade, para se entregarem a fábulas (2 Tm. 4, 3-4). Quanto a nós, iremos àquele que tem palavras da vida eterna, aquele que veio a este mundo para dar testemunho da verdade. Iremos a Ele com toda a nossa alma, com a dupla luz da razão e da fé. Diz a propósito Lacordaire[3]:
Movemo-nos em duas esferas: a da natureza e a da graça; mas tanto uma como outra têm o Verbo, Filho de Deus, por autor e por guia. Eis porque a Igreja, infalivelmente assistida pelo Espírito que a instituiu, nunca abdicou na defesa da razão; teve-a sempre como uma parte da sua herança. Não façamos de Jesus Cristo, nosso Mestre, uma exceção no curso geral das coisas; da Igreja, uma pequena sociedade perdida no meio das idades e das nações. Filhos de Deus, o universo e a morada do nosso corpo, os séculos, a medida dos nossos dias, a razão, a nossa iluminadora, a fé um segundo esplendor nascido do primeiro, a Igreja um mundo que compreende o passado, o presente e o futuro, que abarca os povos da terra e os espíritos do céu, e, entre estas duas extremidades, tudo quanto o Verbo de Deus pôde conceber sem no-lo dizer e fazer sem no-lo mostrar.
O Concílio Vaticano confirmou as palavras de Lacordaire, mostrando como a razão e a fé são duas irmãs, filhas do mesmo Pai, e como não podem contradizer-se. Seja, pois, o Verbo encarnado a nossa luz no estudo de todas as ciências, profanas ou sagradas. Não esqueçamos que toda a verdade é uma espécie de parcela da divina Sabedoria, e conduzamos todos os nossos conhecimentos para a glória do Verbo encarnado.
Mas procuremo-lo sobretudo no santo Evangelho, que havemos de ler e reler, sempre interessados na doutrina do Mestre, que é o Doutor infalível; façamos desta doutrina a regra da nossa vida, não esquecendo que o melhor meio de conhecer e sentir a verdade é pô-la em prática: aqueles que praticam a verdade vêm à luz (Jo. 3, 21).
C) Jesus é também a vida. A vida, ele a hauriu integralmente como Deus no seio do Pai; como homem, possui uma participação de vida tão abundante que é a fonte onde todos nós devemos beber.
A bebemos pelos sacramentos, canais misteriosos da graça, que, partindo do sagrado Coração de Jesus, vêm derramá-la nas nossas almas. Seja qual for o sacramento recebido, não esqueçamos que a vida divina de que nos torna participantes, é um fruto do sangue de Jesus e do seu amor por nós. Sobretudo quando recebemos a Eucaristia, porque então é o próprio Jesus que nós recebemos; quer dizer, o Verbo encarnado com todos os tesouros da sua divindade e da sua humanidade, com o Pai e o Espírito Santo inseparavelmente unidos a Ele[4]; se dilatarmos a alma correrá nela a vida divina em caudais: Eu vim para que os que têm vida a tenham mais abundante (Jo. 10, 10).
Mas não é apenas dos sacramentos que nos vem esta vida. Vem ainda de todos os atos feitos em estado de graça, em união com Jesus. Todos eles se tornam uma espécie de comunhão espiritual. Inserido em Cristo, o cristão participa da sua vida, como os ramos crescem à custa da seiva da videira, e cada um dos nossos atos aumenta em nós a graça santificante, isto é, a participação da vida divina que nos informa desde já[5].
Felizes as almas que saboreiam e praticam estas belas doutrinas, que São Paulo e São João ensinavam incessantemente aos primeiros cristãos e que transformaram o mundo! Felizes as almas que, segundo o pensamento de Mons. Olier, têm habitualmente Jesus diante dos olhos, no coração e nas mãos[6].
Tenhamos Jesus diante dos olhos, contemplando-o como o modelo mais completo de todas as virtudes que devemos praticar. Quando oramos ou meditamos, quando estudamos ou cumprimos os nossos deveres de estado, perguntemo-nos muitas vezes, como São Vicente de Paulo: Que faria Jesus se estivesse no meu lugar? Ao mesmo tempo, adoremo-lo e supliquemos-lhe que nos ajude a reproduzir as suas disposições interiores: E depois, quando o nosso coração estiver cheio de amor, permaneçamos em silêncio diante dele, nessas mesmas disposições e sentimentos[7].
Tenhamos Jesus no coração: quer dizer, supliquemos ao Espírito Santo, que animava a alma humana do Salvador e que é ainda hoje a alma do seu corpo místico, que venha até nós para nos tornar semelhantes a Jesus Cristo. Demo-nos a Cristo para que a sua virtude nos anime a deixarmo-nos possuir por Ele, e, depois fiquemos ainda algum tempo em silêncio junto dele, para nos deixarmos imbuir interiormente da sua unção divina[8].
Tenhamos Jesus nas mãos, isto é, roguemos-lhe que faça com que a sua vontade se cumpra em nós, que, como bons membros, devemos obedecer à cabeça, e cujos impulsos só devem vir de Jesus Cristo, o qual, enchendo a nossa alma do seu Espírito, da sua virtude e da sua força, deve operar em nós e por nós tudo quanto deseja[9].
Tal é a prática da comunhão espiritual que toda a alma em estado de graça se deve esforçar por conseguir, não só diante do Santíssimo, mas em todo o lugar e em qualquer tempo. Só assim Jesus se torna verdadeiramente o centro da nossa vida, dos nossos pensamentos, dos nossos sentimentos, das nossas ações; só assim Ele é sempre para nós uma fonte de água viva, porque encontra em nossas almas a docilidade e a generosidade que procura.
Aproximemo-nos com confiança do trono da graça (do Verbo encarnado), para conseguirmos misericórdia e encontrarmos graça no auxílio oportuno (Hb. 4, 16). E, com São Paulo, digamos de todo o coração: “A minha vida é Jesus”.



[1] Espérances chrétiennes, pág. 339.
[2] Catéch. Chrétian, II parte, IX lição.
[3] Lettres à un jeune homme sur la vie chrétienne, págs. 36-38.
[4] Para o desenvolvimento deste pensamento, ver o opúsculo de Bernadot, Da Eucaristia à Santíssima Trindade.
[5] Na verdade, é defensável a opinião de que apenas aqueles atos realizados com uma caridade mais intensa do que a que tínhamos antes dele, nos trazem um aumento da caridade (N do R).
[6] Introduction a la vie chrétienne, C. IV.
[7] Olier, locus citatum (l.c.).
[8] Olier, l.c.
[9] Olier, l.c.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...