segunda-feira, abril 10, 2017

“O CHAMADO VOCACIONAL”

Trecho da primeira conferência do livro Aos meus seminaristas, do Cardeal Mercier


Transportai-vos aos anos da vossa infância e evocai a recordação, já talvez longínqua para muitos dentre vós, das horas tranquilas em que interiormente ouvíeis, em deliciosos ecos, os pri­meiros chamamentos de Deus. (...) Deus realizava a sua obra: Ele era quem docemente apar­tava estas almas do que não era feito para elas, as afastava do pecado e dos declives sedutores das paixões, para atraí-las exclusivamente a Si.
Juntamente com a aversão ao rumor dos pra­zeres, em vossa alma se manifestava uma inclinação mais pronunciada para a oração. O afastamento do mundo vos avizinhava de Deus: entrevíeis agora para vossa vida uma finalidade mais nobre e mais elevada; tornavam-se mais ponderados os vossos pensamentos e vos penetrava mansamente a con­vição de que a vida superficial, mesmo que honesta, suficiente para muitos outros, era para vós dema­siado vazia. Já vos cativara o coração — ignoráveis ainda até que ponto — o atrativo suave do amor divino.
Por vezes, a medo vos interrogáveis se vos seria mais tarde possível cortar inteiramente pelas satis­fações sensíveis ou sensuais que no momento vos enojavam; uma voz então, mais forte que a natureza, acudia a tranquilizar-vos, e com passo mais avisado retomáveis com alegria o vosso caminho.
Era a resposta consciente ao apelo divino: Sim, repetíeis, quero pertencer a Deus, melhor e mais completamente do que os outros. Há entre os cristãos um escol em que me hei de alistar. Não é impossível fazer pelo Senhor alguma coisa mais de que Ele reclama estritamente de mim; fá-lo-ei, amparado da sua graça que a oração me há de alcançar. Quero entregar-me ao meu soberano Mestre, absoluta e totalmente, no tempo e na eternidade.

Sim, ó Deus, Vós só sereis a minha herança, o objeto dos meus desejos, do meu culto, do meu amor; a Vós, todo o fruto dos meus trabalhos. Heis de consolidar, Senhor, espero-o com filial confiança, a resolução de minha alma, e aquilo que hoje não passa de um desejo e de uma esperança, se há de transformar graças a Vós em inabalável realidade, “o cordel mediu para mim um lugar delicioso, sim, é magnífica a minha herança” (Sl 16, 6).
Caros Amigos, eis em resumo a história da vossa vocação. É evidentemente plausível que os três estágios que acabo de descrever — apartamento das satisfações frívolas, progresso mais e mais acentuado do coração para Deus e as coisas santas, abandono consciente e espontâneo da alma ao serviço divino — não os tenham percorrido todos de maneira uniforme. Muitos, creio-o, trilham-nos regularmente um após outro; a alguns, entretanto, determina-os um clarão súbito da graça: antes de se voltarem para Deus haviam caminhado veredas traiçoeiras, onde mais de uma vez sucumbira sua virtude frágil; um dia, porém, tomou-os o arrependimento, desgos­tou-os o que antes os seduzira. Eles reconheceram a voz de Deus que os chamava a Si, e, como São Paulo no caminho de Damasco, levantaram-se na plena luz da graça para se tornarem, de futuro, apóstolos da salvação. Há diferentes modalidades na ação de Deus sobre as almas que Ele prepara para os seus altares, mas esta diversidade não altera, em seu íntimo, a psicologia de uma vocação sacer­dotal.

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