quarta-feira, abril 19, 2017

O BAILE DA OBEDIÊNCIA

Por Madeleine Delbrêl



“Nós tocamos a flauta, e não dançastes.”




É o dia 14 de julho
Todo mundo vai dançar.
Há meses, anos, por toda parte o mundo está dançando.
Quanto mais se morre, mais se dança.

Na verdade o tumulto é grande.
A gente séria está dormindo.
Os monges rezam matinas do rei santo Henrique.
E eu penso em outro rei, o rei Davi, que dançava diante da arca.

Porque, se há muita gente boa que não gosta de dançar,
há muitos santos que sentiram necessidade de fazê-lo,
tão contentes estavam de viver:
Santa Teresa D’Ávila com suas castanholas,
São João da Cruz com um Menino Jesus nos braços,
e São Francisco de Assis diante do Papa.
Se estivéssemos contentes contigo, Senhor,
não conseguiríamos resistir
a essa necessidade de dançar que se alastra pelo mundo,
e acabaríamos adivinhando
que dança é que te agrada nos fazer dançar,
colocando um a um os nossos passos nos passos da Providência. 

Porque eu penso que às vezes estejas farto disto:
de pessoas que falam sempre de servir-te, com ares de
[comandantes
de conhecer-te, com ares de professores;
de te atingirem, com regras de esporte;
de te amarem, como se ama um casal de velhos. 

Um dia em que sentias um pouco vontade de outra coisa,
inventaste São Francisco
e fizeste dele teu jogral:
é preciso que também nós te deixemos inventar-nos,
a fim de sermos uma gente alegre que dança a sua vida
           [contigo



Para ser um bom dançador, contigo ou com os outros, é
           [preciso
não saber onde nos levam.
É preciso acompanhar,
ser alegre,
ser leve,
e, acima de tudo, não ser rígido.
É preciso não te pedirmos explicações
quanto aos passos que pretender dar,
mas sermos um teu prolongamento,
ágil e vivo,
recebendo por meio de ti o ritmo da orquestra.
É preciso não querer ir adiante a qualquer preço,
mas conformar-se em dar voltas, desviar para o lado,
é preciso saber parar e deslizar em vez de andar.
O que seria apenas uma série de passos imbecis,
se a música não lhes desse uma harmonia.

Mas nós esquecemos a música do teu espírito,
e fazemos da nossa vida um exercício de ginástica;
esquecemo-nos de que em teus braços ela se dança,
que tua Santa Vontade
é de uma inconcebível fantasia.
E que não há monotonia e tédio
senão para as velhas almas
que tomam chá-de-cadeira
no alegre baile do teu amor. 

Senhor, vem convidar-nos.
Estamos prontos a dançar esta caminhada a percorrer,
essas contas, esse jantar a preparar,
esta vigília em que teremos sono...
Estamos prontos a dançar por teu amor a dança do
              [trabalho,
e a do calor, e depois, a do frio.
Se certas árias são em tom menor,
nós não diremos que são tristes;
se outras nos deixam um pouco sem fôlego,
não diremos que são de arrasar.
E se um ou outro nos esbarra, não faremos caso,
sabendo que é assim quando se dança. 

Senhor,
nesse romance eterno
entre o Criador e as criaturas,
ensina-me o lugar que me compete
no estranho baile da nossa obediência.
Revela-nos a grande orquestração dos teus desígnios,
onde aquilo que permites
insinua notas estranhas
na serenidade do que desejas.
Ensina-nos revestir diariamente
nossa condição humana
com o vestido de baile que atrairá teus olhos;
e todos os seus detalhes e circunstâncias,
como dispensáveis jóias. 

Dá-nos viver nossa vida,
não como um jogo de xadrez, onde tudo é calculado,
não como uma competição onde tudo é difícil,
não como um teorema que nos quebra a cabeça,
mas como uma festa sem fim onde nosso encontro se renova,
como um baile,
uma dança,
entre os braços da tua graça,
na música universal do teu amor. 

Senhor, vem tirar-nos para a dança.



(tradução de D. Marcos Barbosa O.S.B.)

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