quinta-feira, abril 13, 2017

Amor até a Cruz: Morte por Amor

Por Luis de la Palma, “História da Sagrada Paixão”, p. 145-152.


1. O Salvador passou a noite toda em poder dos que caçoavam Dele e o afligiam, mas seus pensamentos eram de paz, e não de aflição ou de vingança, porque nenhum poder era mais for­te do que Ele, e livremente entregara-se, por amor a Deus e aos homens. Embora Ele tenha permitido, por um lado, que a sua santíssima humanidade se entristecesse, por outro, o seu amor era tão grande e tão abrasado que o fazia desejar ardentemente as injúrias e ter fome de dores. Assim, essa noite foi um grande consolo e motivo de alegria para o seu coração, banhando-se (Lc 12,50), como Ele disse, com esse banho, e, como disse o profeta, fartando-se de opróbrio (Lm 3,30).
O amor de Cristo, conforme disse o apóstolo São Paulo, excede e está acima de todo entendimento (Ef 3,19), pois a sua fonte está acima de toda compreensão e conhecimento. Ele não se fundamenta e nem se apoia na perfeição, beleza e méritos do homem, o qual, segundo o corpo, é uma criatura tão baixa e imperfei­ta, e, segundo a alma, um vaso de maldade. Como seria possível amá-lo por si mesmo? O divino Senhor que nos ama não é cego, nem preso a paixões, e muito menos impulsivo, para amar uma criatura tão feia e que não o merece. Portanto, o amor de Cristo nosso Senhor pelos homens fundamenta-se no amor que o Eter­no Pai tem por Ele e nos imensos benefícios que lhe concedeu. O Senhor, enquanto homem, recebeu muitos e ilustres dons de seu Pai, e, por causa da gratidão e do amor que sentia por Ele, por respeito e obediência amou os homens além de toda ciência e merecimento.
2. E, para conhecer a origem desse amor e glorificar o Senhor quando seus inimigos escarneceram, devemos considerar a gran­deza inestimável de graça que pela Santíssima Trindade foi con­cedida à humanidade de Cristo nosso Senhor, no instante de sua concepção (Cl 2,9).
Primeiramente, foi dado a Ele o ser divino, unindo-o com a divina pessoa; de modo que podemos dizer verdadeiramente que esse homem é Deus e Filho de Deus, e há de ser adorado nos céus e na terra como Deus. Essa graça é visivelmente infinita pela dádiva de ser Deus e pela maneira como foi concedida, a mais estreita que se poderia imaginar: pela união de pessoas.
O novo homem foi destinado a ser o pai universal e a cabeça de todos os homens, para que, como cabeça espiritual, influísse em todos eles a sua virtude (Cl 1,18). Assim, sendo Deus, Ele é igual ao Eterno Pai, e, sendo Homem, é o Príncipe e a cabeça de todos os homens. Por causa desse principado, Ele recebeu a gra­ça infinita, para que Dele, como de uma fonte de graça e mar de santidade, recebam-na todos os homens (Jo 1,16); não somente porque há Nele mais graça que em qualquer outro, mas porque Ele é o santificador de todos, como se fosse a tinta que irá colo­rir de santidade todos os que serão santos.
Ele recebeu outra graça para a perfeição e santificação de sua vida, que também pode ser chamada de infinita, pois não há o que acrescentar nela. Além disso, o Senhor recebeu todas as graças gratis data, para fazer milagres e maravilhas o quanto quisesse, todas em alto grau e com suma perfeição.
E, principalmente, no instante de sua concepção, Ele pôde ver a divina Essência e conhecer claramente a majestade e a glória do Verbo com o qual estava unido; e essa visão lhe trouxe tan­ta bem-aventurança e glória quanto tem hoje à direita do Pai.
Quando essa santa alma, no feliz momento em que foi criada, abriu os olhos e se viu tal como dissemos, conheceu as mãos que lhe concederam tanto bem, viu-se como o prín­cipe das criaturas, e viu ajoelhadas diante de si todas as hie­rarquias do céu, que, como disse São Paulo, o adoravam (Hb 1,6), como poderíamos nós descrever com que amor Ele terá amado Aquele que assim o glorificara? Com que desejo terá almejado oferecer algo que pudesse agradar e servir a este benfeitor? Nem mesmo a língua dos querubins e serafins é capaz de responder.
Se Deus lhe declarasse que a sua vontade era salvar o gênero humano que estava perdido pela culpa de um homem, e que o Filho se encarregasse disso em sua honra e obediência, realizan­do essa missão tão gloriosa sem descansar até terminá-la, que Ele deveria amar os homens, por recomendação de seu Pai, com tanto amor e desejo que, para vê-los salvos e restituídos na gló­ria, estivesse disposto a fazer e sofrer tudo o que fosse necessá­rio, dizei-me: com que tipo de amor o Filho, que tanto desejava agradar seu Eterno Pai, se dedicaria aos homens para amá-los e abraçá-los em obediência ao seu Pai? Não há língua ou virtude que possa expressar isso. Assim como da parte de Deus houve suma comunicação de seus bens, da parte de Cristo nosso Senhor houve suma correspondência, gratidão e amor.
3. Dessa fonte saiu o grande e caudaloso rio de amor que o Salvador derramou sobre todos os homens, porque os olhava como algo dado por seu Eterno Pai. Os evangelhos expressam esse sentimento com frequência: Omnia mihi tradita sunt a Patre meo — Tudo me foi dado por meu Pai (Mt 11,27). Isto é: “Os ho­mens e tudo o que lhes pertence me foi dado e recomendado por meu Pai”. A finalidade disso não seria outra senão a que o próprio Senhor mencionou: Haec est autem voluntas eius, qui misit me, Patris, ut omne quod dedit mihi non perdam ex eo — A vontade do meu Pai que me enviou é esta: que nenhum daqueles que me deu se perca, mas que Eu o ressuscite no último dia (Jo 6,39). Como se dissesse: “Ut ex eo omne nihil perdam: Esta é a vontade de meu Pai que me enviou: que não se perca nenhum dos que me foram confiados”. Mas, como os homens já estavam perdidos, não os perder era o mesmo que os ganhar: Non enim misit Deus Filium suum in mundum ut iudicet mundum, sed ut salvetur mundus per ipsum — Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para condenar o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele (Jo 3,17). Ou seja, Deus não o enviou como juiz, mas como Salvador.
A recomendação de seu Eterno Pai foi a razão de toda a sua solicitude na obra de nossa redenção, como ponderou São João: Sciens quia omnia dedit ei Pater in manus – sabia que o Pai puse­ra em suas mãos todas as coisas (Jo 13,3). Ele sabia que o Pai lhe confiara os homens e pusera em suas mãos tudo o que era preciso para a salvação deles; por isso, levantou-se depois da ceia, tirou as suas vestes, cingiu-se com uma toalha e não se recusou a la­var humildemente os pés dos seus discípulos. Pela mesma razão diz ter-lhes pregado o Evangelho: Manifestavi nomen tuum ho­minibus, quos dedisti mihi – Anunciei o teu nome aos homens que Tu me deste e me recomendaste (Jo 17,6). Pela mesma razão ainda rezou por eles: Non pro mundo rogo, sed pro his, quos dedisti mihi, quia tui sunt – Não rogo pelo mundo, mas por estes discípulos que me deste, porque são teus (Jo 17,9). E, finalmente, por essa mes­ma razão ofereceu-se por eles: Et pro his ego sanctifico meipsum – Por eles me glorifico a mim mesmo (Jo 17,19). Como se dissesse: “Por eles me ofereço em sacrifício”. Também por respeito ao Pai, no momento em que o prenderam para sacrificá-lo, Ele defendeu os seus: Si ergo me quaeritis, sinite hos abire. Ut impleretur sermo quem dixit: Quia quos dedisti mihi non perdidi ex eis quemquam – Se é a mim que buscais, deixai ir estes. Para que se cumprisse a palavra que tinha dito: não perdi nenhum daqueles que me deste (Jo 18,8-9). Essa foi uma das razões pelas quais mais lhe doeu a perdição de Judas; pois também ele lhe fora recomendado por seu Pai, e o Senhor buscara conservá-lo tanto quanto aos outros. Embora tenha tentado ganhá-lo de tantas formas, mesmo assim custou-lhe prestar contas ao Pai de sua perdição, custou-lhe dei­xá-lo entregue à sua dureza de coração, como convinha para que se cumprisse a Escritura: Quos dedisti mihi custodivit, et nemo ex his periit, nisi filius perditionis, ut Scriptura impleatur – Guardei aqueles que tu me deste, e nenhum deles se perdeu, senão o filho da perdição, para que se cumprisse a Escritura (Jo 17,12).
4. Da mesma fonte nasceu não somente o amor que o Senhor teve pelos homens, mas também o amor pelas dores, afrontas e outros sofrimentos que convinham para o bem e salvação dos ho­mens. Ele disse no início de sua Paixão: Para que o mundo conheça o quanto amo meu Pai, e que, assim como me enviou, assim cumpro e faço, levantai-vos e saiamos daqui (Jo 14,31). Ir para onde, senão morrer pelos homens em uma cruz? Era tão grande o seu desejo de cumprir essa missão em obediência a seu Pai, que disse: Devo receber um batismo, e como vivo angustiado até que isto se cumpra! (Lc 12,50). Ele desejara tanto ver-se banhado em seu sangue, que cada hora que passava parecia-lhe mil anos, por causa da grandeza do seu amor. Por essa razão, ao chegar a Jerusalém para padecer, Ele quis ser recebido com a gloriosa festa dos de Ramos: para mos­trar ao mundo a alegria do seu coração, e da mesma forma, com aplausos e rodeado de flores, quis subir ao leito nupcial da cruz.
A essa força se referia o profeta, quando disse: Exulta como um herói a percorrer o seu caminho. Sai de uma extremidade do céu e, no seu percurso, alcança a outra extremidade, e nada se subtrai ao seu calor (Sl 18,6-7). Oh! amor divino, que nasceu de Deus e voltou para Deus! Não amaste o homem por causa do homem, mas por causa de Deus. Quem poderá esconder-se do teu calor e defender-se do teu amor? A tua caridade é tão ardente que for­ça os corações, como sentiu o teu apóstolo: Caritas Christi urget nos – A caridade de Cristo nos compele (2 Cor 5,14).
5. Desse versículo pode-se obter um novo argumento para conjeturar a excelentíssima caridade de Cristo e o seu arden­te desejo de padecer: se a caridade tanto estimulava o apóstolo São Paulo e o “forçava” a ponto de, desprezando a fome, a sede, as perseguições, a espada, a vida e a morte, aceitar para alcan­çá-la até mesmo as penas sensíveis do inferno – Optaban enim ego ipse anathema esse a Christo pro fratribus meis – Quisera eu mesmo ser anátema, separado de Cristo, em favor de meus irmãos (Rm 9,3) – isso quanto à participação na glória, embora não tan­to quanto ao amor e a graça; e, se o apóstolo Santo André, ao ver a cruz em que morreria, louvara-a como se fosse uma esposa muito amada, e lhe rogara que se alegrasse com ele como ele se alegrava com ela, oh! alma minha, cria asas e voa para as en­tranhas e para o coração de Cristo! E vê que, se o apóstolo Santo André alegrou-se com a cruz por causa do amor que tinha pelo Mestre que morreu nela; e se o apóstolo São Paulo amou tanto os homens a ponto de desejar verdadeiramente padecer as pe­nas do inferno por eles, quão maiores não terão sido os desejos de Cristo, já que muito maior era a sua graça e a sua caridade!
O patriarca Jacó serviu por sete anos ao seu sogro Labão para se casar com a formosa Raquel. Ele trabalhou muito, sem dormir à noite e sem descansar de dia, foi consumido pelo calor e pela geada (Gn 31,40), e ainda assim pareciam-lhe pouco sete anos por causa do grande amor que tinha por ela (Gn 29,20). Assim, o que seria para o Salvador uma noite de escárnios e três horas na cruz, e a sua Paixão, para desposar a Igreja e torná-la bela, sem manchas nem rugas? (Ef 5,27). Sem dúvida, Ele amou muito mais do que padeceu, e havia ainda mais amor em seu coração do que revelavam as suas chagas. Se lhe fosse ordenado que padecesse por cada um tudo o que padeceu pela salvação dos homens, Ele o faria. Ele teria amor suficiente para sofrer na cruz até o fim do mundo, se fosse necessário.
6. Considerando que o sofrimento do Senhor foi muito menor do que o seu amor e o seu desejo de padecer por nós; e que so­mente essa centelha que Ele nos mostrou causou tanto espanto nos homens, foi escândalo para os judeus e loucura para os gen­tios (1 Cor 1,23), como seria se Ele demonstrasse ainda mais a grandeza do seu amor? Se essa demonstração já foi tão grande que fez os maus perderem os sentidos e cegou-os com tanta luz, o que devem sentir e fazer os seus filhos e amigos, que acredita­ram e conheceram tão bem esse amor? Por isso eles saem de si e ficam atônitos e pasmos, quando, recolhidos no íntimo de seu coração, Deus lhes revela segredos e lhes dá a conhecer e sentir esses mistérios. Eles desfazem-se em lágrimas e abraçam o amor; passam a desejar os martírios, regozijar-se com as tribulações, alegrar-se com as injúrias, acolher e abraçar tudo o que aborre­ce e causa temor ao mundo, e amar e desejar tudo o que Cristo nosso Senhor desejou e amou.
Isso nos revela outro motivo que o nosso Salvador teve para alegrar-se na noite de sua Paixão, sendo alvo de injúrias, caço­adas e golpes dados por pessoas vis e indignas: Ele olhava com alegria inefável em seu coração para a imagem do mundo reno­vado e dos homens espirituais que, por causa de seu sofrimento, arderiam em caridade, e, abrasados nesta forja de amor, transfor­mar-se-iam em sua imagem e semelhança; desprezariam a honra porque o mundo recusou-a ao Senhor, e amariam e buscariam as desonras porque Ele as recebeu. Por essa razão Ele permitiu com tanta mansidão ser desonrado, e deixou-se ferir com cons­tância e fortaleza, não fugiu dos golpes e nem desviou o rosto das cusparadas; porque sabia que, pelas mãos daqueles oficiais, o Pai Eterno lavrava Nele o modelo e exemplo dos predestinados.
Por fim, devemos considerar como o Pai Eterno ficou feliz com o sofrimento de seu Filho; como ficou honrado com a sua obediência, humildade e mansidão; e como preparou a sua re­compensa e os hinos de louvor que lhe seriam cantados perpe­tuamente no céu e na terra, em troca daquelas injúrias e ofensas que ali suportou. 

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