quinta-feira, março 02, 2017

Tempo de reparar

Por Raul Plus, “A reparação – crucificados com Cristo”, p. 91-102.


Muitos acham que, para se dedicarem à Reparação, têm necessariamente de se entregar, no silêncio de um claustro e na austeridade de um mosteiro, às práticas mais torturantes da penitência cristã. É um erro.
A Reparação não consiste tanto em um conjunto de práticas observadas dentro de um determinado quadro, mas antes em um espírito que pode amoldar-se facilmente a qualquer forma de vida, com a condição de que essa vida seja profundamente cristã.
Um espírito. Em consequência, convém, antes de tudo, saber, ter consciência de que há um Deus crucificado, crucificado por nós, e a quem devemos ajudar; convém descobrir que há almas que se perdem ao nosso redor, e que essas almas são em grande número. Isto parece muito simples. Contudo, quantos cristãos há que o ignoram! Quem vive dominado por estas duas grandes ideias possui o espírito de reparação.
E este espírito manifesta logo as suas exigências. Uma alma cristã dominada pela ideia da reparação compreende que, antes de mais nada, tem de ser fiel às promessas do batismo, aos mandamentos de Deus e da Igreja. Não dizemos fiel de qualquer maneira, como todo mundo, mas integral e rigorosamente fiel, sem rodeios nem transigências, quer na vida pessoal, quer na vida social e familiar. Quantas perspectivas se entreveem já!
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Aos corações generosos não faltam ocasiões de praticar a fé até o sacrifício. Já estigmatizamos a tendência de muitos cristãos para inventar uma religião que não seja muito desconfortável. Escrevia o cardeal Manning: “Vivemos num tempo de comodismo. Quem jejua hoje?” Sem dúvida, continua ele, a Igreja manifesta uma grande indulgência. No entanto, “lembremo-nos de que, ainda, hoje, três vezes por ano, os israelitas não tomam alimento algum desde o nascer até ao pôr-do-sol: censura amarga para nós que somos discípulos de Jesus crucificado”.
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A cruz do Salvador é uma cruz que crucifica. Por isso, que contrassenso o cuidado com que os cristãos, que pretendem seguir a Jesus Cristo, fogem das penitências mais comuns ordenadas pela Igreja! O cardeal Manning interroga-os com finura: “Deixai que vos pergunte se acreditais no vosso próximo quando o ouvis dizer que não pode jejuar, nem observar as abstinências de preceito, que lhe faz mal à saúde, etc...”. E acrescentava: “Se eu conseguisse perturbar algumas consciências, não teria pena, convencido como estou de que vivemos numa época que tende a apagar a doce severidade das leis da Igreja”.
Por aqui se vê que, sem ir muito longe, limitando-nos a praticar à letra — ou ao menos em seu espírito — os mandamentos, encontramos muitas ocasiões de oferecer a Deus sacrifícios bem meritórios com o fim de reparar.
Primeiro, aceitar as mortificações impostas pela Igreja. Em segundo lugar, aceitar as mortificações impostas pelas circunstâncias. São muitos reveses de fortuna, faltas de saúde, lutos, fatalidades, desgostos de todo tipo. A vida é cheia deles e pode ser simbolizada numa lira de sete cordas, seis para a dor e uma para a alegria. Bossuet comparava os nossos minutos de verdadeira felicidade àqueles pregos de ouro que adornam uma porta: de longe parecem milhares; mas, ao chegar perto, vemos que mal chegam a uma mão cheia. As nossas alegrias são como as pedras de um vau, instáveis e espaçadas. Precisamos pôr o pé em cima de uma e saltar depressa para outra, e assim por diante. “Quem és tu?” pergunta Beatriz a uma personagem que está olhando passar a barca de Dante. — O meu nome? Não vês que sou “um que chora”?
“Um que chora”. Não é esta, mais ou menos, a definição de todo homem nesta terra, sobretudo em certos dias? Que pena, por conseguinte, ver como são tão poucos os que sabem aproveitar as lágrimas que derramam! Cada um de nós, com o número de sofrimentos que a nossa vida contém, poderia ganhar inúmeros merecimentos. E a maioria não os aproveita, não pensa neles; em vez de utilizar as suas cruzes para o céu e para as almas, desperdiça-as, não as aproveita, não encontra nelas, pela sua revolta, senão ocasião de pecado.
O que se diria de um homem que, possuindo uma fortuna em moedas de ouro, em vez de as levar ao Banco para ajudar na obra da restauração nacional, as atirasse uma por uma do alto de uma ponte, dentro do rio?
A primeira coisa que fazemos, logo que o sofrimento nos visita, é reclamar, acusar Deus. “Eu bem queria, dizia Nosso Senhor a Santa Gertrudes, que os meus amigos me julgassem menos cruel. Deviam fazer-me a justiça de pensar que, se por vezes os obrigo a servirem-me com trabalho e como que à sua custa, é para seu bem, para seu grande bem. Queria que, em lugar de se irritarem contra as suas dores, vissem nelas instrumentos da minha bondade paternal...”.
(...)
Assim fala o Pe. Ramière. E o Pe. de Ponlevoy diz: “Sem dúvida, a consolação mais suave desta vida e o maior recurso da nossa alma consiste em nos unirmos a Jesus Cristo. Contudo, há melhor ainda: é nos conformarmos com a vontade de Deus e sermos pregados à Cruz com Nosso Senhor, ou unidos a Nosso Senhor pela sua Cruz”.
No dizer de todos os autores espirituais, as “cruzes” que nos são impostas são as melhores. “As melhores são as mais pesadas, e as mais pesadas são as que mais contrariam a nossa vontade, as que não escolhemos: as cruzes que encontramos na rua, e ainda mais as que achamos em casa... São melhores do que os cilícios, as disciplinas, os jejuns e tudo o que a austeridade inventar. As cruzes que nós escolhemos são sempre mais leves porque há nelas alguma coisa de nós próprios, e por isso não crucificam tanto como as outras. Humilhai-vos, pois, e recebei com alegria as que vos são impostas contra a vossa vontade”. Certamente já reconhecemos que é São Francisco de Sales que assim fala.
Quererá isto dizer, como pensa talvez a maioria dos cristãos, que as penitências voluntárias são reservadas para uso exclusivo dos claustros e dos mosteiros?
Nada mais falso. Depois do ponto em que recomenda a fidelidade, pelo menos às mortificações aconselhadas pela Igreja, o cardeal Manning acrescenta: “Vou mais longe. Há atualmente alguém que tenha coragem para levar a vida dos Santos? Lemos essas vidas e as admiramos. Sabemos as austeridades que praticaram, a pobreza em que viviam. Louvamos tudo isso, que nos faz estremecer. Mas, de que somos nós capazes? Quais são as nossas penitências? E em que nos parecemos com Cristo? Fazemos tudo para que o mundo nos inclua no rol dos que lhe pertencem. E pretendemos ser cristãos!”
O cardeal Manning falava aos seus compatriotas ingleses, grandes amadores do conforto, como se sabe. Mas o conselho serve para todos. Muitos cristãos, nos últimos momentos, hão de dirigir a si próprios a censura que, num retiro, e por humildade, Paulina Reynolds fazia a si mesma: “Não há meio de dilatar mais este vaso do meu coração, destinado a receber até transbordar a vida divina. Acabou-se. Teria podido dispor-me, por uma correspondência mais fiel à graça, a receber cem mil vezes mais durante a eternidade. Não quis. Não quis oferecer-me senão em certa medida”.
Quantos merecimentos poderíamos levar ao tesouro da comunhão dos santos se, em vez de uma fidelidade vulgar, de uma fidelidade em dose moderada, quiséssemos ser generosos sem medida!
Eis como se deveria reparar, diz também o autor da Mission du Saint-Esprit dans les âmes. “Primeiro, pela nossa prontidão em seguir as inspirações do divino Espírito; depois, por uma fidelidade proporcional à sua graça e na medida dos seus dons, e não de uma maneira mesquinha, enterrando o talento que nos foi confiado. Seria preciso fazê-lo produzir de modo que cada mil talentos rendessem dez mil... Finalmente, seria preciso servi-lo com grande pureza de coração, e por estas palavras entendo duas coisas: não só o afastamento de tudo o que pode manchá-lo, mas também o sacrifício de tudo o que o divide”.

Como se vê, não faltam meios de reparar. O que é que falta então? Almas que queiram utilizar esses meios; almas dispostas a lutar, não só contra o pecado, mas também contra os pequenos defeitos; almas que se dediquem resolutamente, não a práticas extraordinárias, mas sim, na monotonia da vida quotidiana, ao cumprimento dos mínimos deveres, com intenção de reparar. Sonhamos muitas vezes com façanhas impossíveis; no entanto, “é pelas pequenas coisas que se avalia um grande amor; fazer coisas grandes não é difícil: arrasta-nos para elas a inclinação. Mas as coisas ordinárias, insignificantes e fastidiosas necessitam de um esquecimento de nós próprios, do qual nem todos somos capazes”.
Com o seu bom senso e finura habituais, dizia Mons. De Ségur: “A nossa santificação é um edifício formado de grãos de areia e gotas de água; um olhar desviado, uma palavra retida, um sorriso que se deixa em meio, uma linha interrompida, uma recordação abafada, uma carta agradável lida rapidamente sem depois se reler; um pequeno movimento natural moderado com coragem; uma importunidade, uma contrariedade, levadas com mansidão; um ímpeto de gênio, um movimento de mau humor reprimidos imediatamente; a privação de uma despesa inútil; uma nuvem de tristeza suavemente afastada; uma alegria natural temperada por um movimento para o Hóspede divino do coração; uma repugnância vencida; enfim, uns nadas imperceptíveis ao olhar humano, mas admiravelmente visíveis ao olhar interior de Jesus Cristo: eis o que é preciso vigiar; eis as fidelidades muito pequenas e muito grandes que granjeiam à alma torrentes de graças...!”.
(...)
Por nós mesmos, para a reparação, somos iguais a zero; seja! Mas com a graça de Deus, alcançada pela humildade, pelos bons desejos, representamos uma força, um valor mais considerável do que se pensa. Com que sustentou Nosso Senhor cinco mil pessoas no deserto? Com cinco pães e dois peixes.
Também aqui não há proporção. E a seguinte frase talvez convença mais ainda. É de uma profissional da Reparação: “Não é o ouro, nem a prata, nem as pedras preciosas que Deus escolhe para fazer uma hóstia, mas sim um pedacinho de pão, uma coisa muito vulgar e sem valor algum”.

Descontemos a parte da humildade naquela que a si própria se animava desta maneira. Mesmo assim, a frase é verdadeira e, para todos nós, consoladora.

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