sexta-feira, março 31, 2017

Quatro condições da alma para ação do Espírito Santo

Por L.J. Callens, “A pedagogia do Espírito Santo”, p. 52-60.


Em que condições deve estar nossa alma para que a direção do Espírito Santo, cujas modalidades vimos traçar, sejam eficazes?
Nessa questão é necessária nossa colaboração com a graça de Deus. Deus não nos salva sem nós. Quer se servir de nossa liberdade e, orientando-a no sentido de seus desígnios, pedir-lhe uma cooperação indispensável, sem a qual sua obra seria muito frágil e seus resultados medíocres. Para isso, o Espírito Santo espera de nós quatro disposições fundamentais, que vamos analisar a seguir.

1º. Procurar encontrar a Deus, em cada acontecimento da vida, e acreditar com toda a alma que é apenas Ele quem nos conduz, por seu Espírito

Sem a fé é impossível agradar a Deus. Porquanto é necessário que o que se aproxima de Deus, creia que ele existe e que é remunerador dos que o buscam (Hb 11,6), dirá S. Paulo. Se não nos abandonamos em Suas mãos pela fé, como poderá nos conduzir? Mas, se nos entregamos a Ele, realizará certamente sua obra de educador e a levará a bom termo.
A educação divina, com efeito, com todas as graças de Deus, só pode ser recebida e apreendida pela fé. Uma imagem do profeta Ezequiel (Ez 47) nos ajudará a compreender melhor essa necessidade. Trata-se da visão do rio divino a sair do Templo, que se origina ao pé do altar dos sacrifícios, dirige-se para o Mar Morto e fertiliza tudo por onde passa. O profeta quer entrar na torrente, mas hesita.
Avança, num primeiro momento, a ponto de ter a água até os tornozelos, e logo se retira. Um pouco mais adiante fazem novo ensaio e a água lhe vem aos joelhos. Recomeça a experiência mais longe ainda e penetra na torrente, que lhe dava aos rins. Por fim, foi preciso recorrer à natação, “perder o pé” – seu último recurso – e deixar-se carregar pela forte correnteza.

Assim acontece quando o Espírito Santo quer nos invadir para nos guiar. Trata-se para nós de um abandono total na fé. É uma espécie de holocausto da nossa própria maneira de ver, de pensar, a fim de deixar o campo livre para uma ação que deseja ser soberana.
Essa era a atitude fundamental exigida por Jesus quando queria operar um milagre em benefício de alguém. Ao homem que tinha seca uma das mãos, disse: Estende a tua mão! (Mt 12,13), assim como Eliseu havia ordenado a Naaman: Vai, lava-te sete vezes no Jordão (2Rs 5,10). Disse Jesus: Se alguém tem sede, venha a mim e beba. O que crê em mim, como diz a Escritura, do seu seio correrão rios de água viva. Ora ele dizia isto, falando do Espírito que haviam de receber os que cressem nele (Jo 37-38)[1].
Eis a absoluta simplicidade do plano divino. Para Jesus o que importa é ter sede, é crer: Tende fé em Deus (Mc 11,22), dirá ele. O ponto culminante da fé encontra-se no abandono total às mãos de Deus que, por seu Espírito, quer trabalhar em nós. Trata-se, sem dúvida, de aventura, pois ignoramos o que o Espírito Santo quer fazer em nós e para onde vai nos conduzir. Os argumentadores, os espíritos complicados, jamais alcançarão uma aceitação sem reservas, cuja necessidade só as almas simples percebem imediatamente. O Espírito terá de agir através da esclerose de nossos hábitos e da rotina e do nosso endurecimento interior. A fé terá de ser muito vigorosa para poder furar o túnel de um lado ao outro da montanha de nossas inércias, hesitações, dúvidas e resistências.
Tudo depende, de fato, da questão: de que fé somos capazes? Uma vez que o Espírito Santo quer dirigir nossa vida, estamos prontos a nos abandonar sem reservas à soberania de sua ação, largando outros apoios muito caros e garantias, na aparência, indispensáveis?

2º. Jamais nos separarmos de Deus

Ele há de nos conduzir por seu Espírito na medida em que mantivermos a plena comunhão com Ele.
Um incidente do Antigo Testamento é particularmente ilustrativo: é o episódio de Achan. Eis que Deus conduzia seu povo à conquista do país de Canaã, mas, quando um pecado, embora secreto, resvalou entre os israelitas, ele retirou sua mão e o povo foi batido, de modo lamentável (Js 7,12-l3). O Tabernáculo onde habitava a presença de Deus estava no meio do povo, mas ela cessou de agir.
Como Deus respeita a nossa liberdade, se por algum motivo experimentamos esquivarmo-nos à direção do seu Espírito, ele suspende sua ação em nosso coração.
Fazemos, então, a experiência de nossa fraqueza e vemo-nos sem forças para cumprir os deveres cotidianos.
O Espírito não se “revela” mais em nós. Imediatamente também apaga-se a alegria, porque o fruto do Espírito é a alegria (Gl 5,22). Daí provém a tristeza dos que não vivem em comunhão com Deus. Por que certos cristãos não são alegres, atraentes? Por que não irradiam mais a felicidade da fé vivida? A história de Achan renovou-se neles: o pecado introduziu-se em sua vida e a fonte da alegria se estancou. O Senhor lhes repete a palavra outrora dirigida a Josué: Eu não estarei mais convosco enquanto não exterminardes o pecado do meio de vós (Js 7,12)[2].

3º. Entregarmo-nos ao Senhor em total abandono

Se a nossa vontade não se entrega a Deus, o Espírito Santo não nos poderá conduzir. Agimos para com Deus, muitas vezes, como pessoas que têm o costume de pedir conselho a todo o mundo e, no momento de decidir, fazem apenas o que têm na cabeça. Assim é com Deus. Pedimos que nos revele Sua vontade e quando Ele se digna responder-nos, nós nos esquivamos. Só o abandono total às mãos de Deus traduz toda a delicadeza de nosso senso filial para com Ele.
Embora já havendo tratado disso, detenhamo-nos ainda um pouco nessa disposição tão valiosa, pois aqui está o fundamento de nossa natureza de filhos de Deus.
Essa disposição de abandonarmo-nos em Deus exige tal despojamento que só o alcançamos depois de muito tatear. As almas realmente abandonadas a Deus são raras; até as melhores hesitam, às vezes, dominadas por uma espécie de temor, pensando no que será feito delas se houver uma entrega sem reservas, e o que lhes poderá ser pedido se abrem mão de todos os direitos. Assim, essa realização numa vida cristã requer longa educação: a vida toda ainda é pouco.
Sim, às vezes é duro entregar tudo a Deus e esperar tudo de Seu coração de Pai. Mas por quê? Por que o abandono é o ponto culminante da fé? Jesus abandonou-se totalmente a seu Pai, entregou-se sem medida à fidelidade e ao poder dEle, porque sua confiança era perfeita. O abandono filial, expresso no sono tranquilo no fundo da barca, é o segredo de seu poder, que logo acalmará a tempestade e determinará todas as suas vitórias.
Esse abandono ainda se encontra sem limites no diácono Estevão, perfeitamente tranquilo, radiante como um anjo, no momento da lapidação (At 6,15). Mostra-se  em Pedro, embora apenas num curto instante, quando se lançou da barca para andar sobre as ondas levado por seu Mestre, que só responde a um verdadeiro abandono.
Oferecei-vos a Deus, diz por sua vez S. Paulo (Rm 6,13). Fomos criados em vista desse permanente abandono a Deus, que, por sinal, exprime o que há de melhor em nossa natureza de filhos de Deus.
(...)

4º. Saber esperar

Deus prometeu dirigir-nos em tudo por seu Espírito, mas reservou para Si determinar a hora de Sua intervenção.
Quantas não foram as personagens do Antigo Testamento que fizeram dolorosas experiências por não terem sabido esperar o momento da manifestação divina! O exemplo de Saul é talvez o mais instrutivo.
Sob a pressão do inimigo, quis entrar em combate, mas não queria partir sem previamente consultar o Senhor. O profeta Samuel não chegava e o povo se dispersava.
Saul cometeu, então, o sacrilégio de oferecer em pessoa o holocausto. Não terminara ainda quando chegou Samuel e lhe anunciou a punição devido à sua impaciência (1Sm 13,5-14).
A escola da paciência é necessária para nós e devemos considerar estabelecido o seguinte princípio: enquanto Deus não se manifestar claramente, de um modo ou de outro, fiquemos no mesmo lugar (como faziam os israelitas no deserto), continuando a esperar com confiança e submissão.
Ocorrerá, talvez, uma ou outra circunstância da vida em que a espera não será possível, pois será exigida uma decisão rápida. A única certeza que temos é a de não podermos diferir: seria covardia de nossa parte adiar. Como agir sem nos enganarmos? Recolhermo-nos, dizendo a Deus: “Senhor, quero fazer vossa vontade, não a minha; guiai-me! Se a decisão que tomo não está de acordo com vossos planos, impedi sua realização”. Lancemos sobre ele toda preocupação[3]; se nossa decisão for segundo o Seu Coração, Ele a fará ter bom êxito; se não for, fechará a porta e a situação se tornará nítida.
Que alegria poder dizer a si mesmo, ao refletir sobre própria vida: “Jamais agi senão de acordo com os desígnios de Deus. O Senhor manteve sua promessa: nos grandes e nos pequenos acontecimentos, conduziu-me e cuidou de mim!”. No fim dessas reflexões, como não estarmos convictos de que o Espírito Santo está pronto a dirigir nossa vida, até às minúcias, para fazê-la feliz e conforme à vontade divina? Possamos nós experimentá-la imediatamente! Teremos, então, apenas um pesar: o de não haver mais cedo seguido esse caminho.
O Antigo Testamento contém uma imagem do modo como o Espírito Santo ilumina e guia as almas. Procede a seu respeito como outrora para com o povo de Deus: Israel, no deserto, foi sem cessar acompanhado pela coluna de nuvem. Desde que os israelitas atravessaram o Mar Vermelho, ela se colocou entre eles e os egípcios; protegia-os e iluminava a noite de seu lado, enquanto era tenebrosa do outro lado. Guiou o povo em todos os deslocamentos até sua entrada na Terra Prometida, fixando não somente o itinerário, mas ainda o momento preciso de cada partida e de cada chegada[4].
Hoje o Espírito faz o mesmo serviço em nosso favor: permanece conosco, ilumina a estrada quando experimentamos a noite profunda da provação – quase chegando a duvidar de Deus – enquanto esconde Sua luz aos que a recusam em sua inconsciência ou maldade.
Protege-nos e nos conduz durante toda a peregrinação terrestre. Se soubermos esperar, revelar-nos-á – seguindo as alamedas do caminho – a vontade divina, até nosso encontro definitivo com o Senhor e nossa entrada na glória.
Não achais que a mais bela oração que se possa elevar de nosso coração é mesmo a dos Salmos? Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova nas minhas entranhas um espírito reto. Não me arremesses da tua presença, e não tires de mim o teu Espírito Santo. (Sl 51,12-13). Não apartes de mim a tua face... O teu bom espírito me conduzirá à terra da retidão (Sl 143,7).
Ouviremos, então, a palavra de benevolência que Deus outrora pronunciou a respeito de seu povo: Não lhes esconderei mais a minha face, porque derramei o meu Espírito sobre toda a casa de Israel (Ez 39-29).



[1] Refere-se ao texto da Escritura: Pv 4,23.
[2] Encontra-se aqui o sentido profundo da oração que dirigimos a Cristo antes da comunhão: “Não permitais, Senhor, que jamais me separe de vós”. Não se refere somente à separação eterna, no outro mundo, mas, em primeiro lugar, da perda de contato com ele, no meio de nossos trabalhos do dia, a produzir uma espécie de anemia espiritual, dando origem às nossas falhas. Qualquer separação de Cristo produz atonia na vida cristã.
[3] Belo pensamento o do Salmo 55,23: Descarrega sobre o Senhor os teus cuidados, e ele te sustentará; não deixará o justo em perpétua agitação.
[4] Ex 14,19-20 e Nm 9,15-23.

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