sexta-feira, março 24, 2017

O que fazer para ser santo

Por Columba Marmion, “A união com Deus em Cristo”.

 
Almas ávidas de perfeição solicitavam, às vezes, de Dom Marmion “programas” de união com Deus. Já encontramos algumas destas sínteses, em que Dom Marmion resumia, em fórmulas claras e concisas, com a arte que lhe era peculiar, toda a essência da sua doutrina, adaptando-a às necessidades particulares dos seus correspondentes.
Damos aqui, por ordem cronológica, outras que serão lidas com prazer. Apesar do que nelas possa haver de particular e próprio das almas a quem se dirigia, encontrar-se-ão nestes trechos as ideias fundamentais expostas nos artigos precedentes. Estas páginas formam o complemento natural deste capítulo.
Por ocasião da sua partida para Lovaina, em Abril de 1899, e solicitado por um dos seus confrades a deixar-lhe “alguns princípios gerais de vida espiritual”, que ele condensa nestas linhas:

“1. A essência de toda a vida verdadeiramente piedosa é o cumprimento fiel da vontade manifesta de Deus. Ora esta vontade manifesta-se: a) nos mandamentos; b) nos conselhos evangélicos; c) para nós, na Regra e nas ordens dos superiores. Tudo o mais é acidental, e mais ou menos importante, conforme o grau em que nos ajude a cumprir o que é essencial.
2. A fidelidade aos deveres da vida religiosa — ofício divino, oração, leitura espiritual — é a fonte da força de que necessitamos para cumprir esta vontade de Deus.
E é por isso que, embora estas práticas não constituam a essência da santidade, a negligência no cumprimento destes deveres conduz, inevitavelmente, à violação, mais ou menos grave, das obrigações essenciais e à ruína da vida espiritual.
3. O verdadeiro amor de Deus no coração daquele que pecou gravemente deve revestir a forma de compunção. Não quer isto dizer que deva ser a compunção a forma exclusiva, mas sim o fundamento, o ponto em que se deve insistir sempre: ‘Mala sua praeterita cum gemitu et lacrymis QUOTIDIE in oratione Deo confiteri[1].

4. Quando alguém pecou muito, não deve admirar-se de não encontrar na piedade gosto nem unção. Esta graça perdida deve ser expiada e resgatada por uma longa fidelidade.
5. Entre as práticas de piedade, a mais fecunda de todas é a união da nossa vida e dos nossos sentimentos com os de Jesus Cristo: Hoc enim sentite in vobis quod et in Christo Jesu[2]. Nemo venit ad Patrem nisi per me[3]. Ego sum via[4]. Per Ipsum, et cum Ipso, et in Ipso omnis honor et gloria Deo Patri[5].”

Uma das suas filhas espirituais apresenta (em 1915) a Dom Marmion uma estampa, e pede-lhe que escreva no verso um “resumo da vida espiritual”. Ao correr da pena, escreve estas linhas:

“1. Procurai só a Deus e a sua vontade.
2. Procurai a Deus pelo ‘caminho’ — Jesus Cristo.
3. Olhai para Deus muito mais do que para vós mesma. Vede tudo n’Ele, inclusive as vossas faltas e misérias. A sua misericórdia é oceano que as afogará a todas.
4. Orai muito por aquele que nunca vos esquece diante de Deus.”

8 de Abril de 1916. — A uma pessoa do mundo, mãe de família:

“Pedis-me, querida filha, que vos dê alguns conselhos para orientação da vossa vida. Aqui tendes o que vos escrevo na presença de Deus:
1. Deus foi muito bom para convosco, pois vos deu luz e graça para compreenderdes que a verdadeira piedade consiste, não tanto num grande número de orações e práticas religiosas, quanto em procurar, com sinceridade e lealdade, a sua vontade santíssima. Orientar, dirigir a nossa vida e atividade para a sua vontade, nisto está a essência da vida espiritual. As orações, os sacramentos, as práticas religiosas são meios que nos dão forças, nos sustentam neste trabalho.
2. No entanto, Deus exige de cada um, conforme a sua vocação e as circunstâncias, que Lhe ofereça todos os dias a homenagem de adoração e de oração; e nisto exige grande fidelidade. Não muitas orações, mas muita fidelidade em as fazer. Quando estiver convosco, havemos de conversar sobre o que vos convém. Nada nos é de tão grande auxílio como a assistência à santa Missa.
3. Uma prática que sobretudo vos recomendo é a das orações jaculatórias.
4. Um pouco de leitura piedosa ajudar-vos-ia muito a cumprir os vossos bons propósitos.
5. Os vossos defeitos provêm de uma fonte comum: falta de mortificação interior, que vos impede de vigiar os movimentos do coração, da língua, da atividade. Sois impulsiva; não aprendestes ainda a fazer o sacrifício dos vossos primeiros impulsos. Esforçai-vos, pouco a pouco, por fazer com que Jesus seja o Dono, o Senhor do vosso interior, de modo que Ele domine em vós, vos guie, vos una a Si na perfeita submissão ao Pai.
“Amais muito a Nosso Senhor, e Ele ama-vos; mas é necessário que estejais mais nas suas mãos. Desde que estejais nas mãos de Nosso Senhor e sujeita às suas inspirações, tereis esse equilíbrio, essa igualdade, tão importantes para aqueles que têm de governar os outros e fazer-lhes bem.
“Quando estiver convosco, explicar-vos-ei melhor o que vos acabo de escrever.”

25 de Maio de 1919. — À mesma:

“Muito me consolou a vossa cartinha, por ver que procurais a Deus com sinceridade. Digo-vos com toda a simplicidade: creio que Deus vos ama muito e que as pequeninas dificuldades desta vida constituem essa parcela da cruz de Jesus que vos há de unir a Ele. Deus não pede a uma mulher casada e obrigada a viver no mundo as austeridades e mortificações que podem praticar as almas que vivem no claustro. Envia-lhes, porém, outras provações, acomodadas ao seu estado e que as tornam tão agradáveis à sua divina Majestade.
“O que Nosso Senhor reclama de vós é:
1. Que aceiteis, cada dia, os trabalhos, as obrigações e as alegrias que vos envia, como Jesus aceitava tudo quanto Lhe vinha do Pai. Quando S. Pedro, devido ao grande afeto que Lhe dedicava, O queria dissuadir da Paixão, Jesus replicou: ‘Então não hei de beber o cálice que o meu Pai me apresenta?’[6]. Eis, minha filha, a resposta que deveis dar quando vos sentirdes acabrunhada pelo sofrimento.
2. O cumprimento perfeito das vossas obrigações:
a) Para com Deus. — Oração, Missa, sagrada comunhão. Não orações em demasia; mas uma grande fidelidade em rezar as que tiverdes oferecido a Deus como obrigação, principalmente a oração em família.
b) Para com o próximo. — Para com o vosso marido. O matrimônio, diz S. Pedro, e o símbolo da união de Cristo com a Igreja[7]; o sacramento do matrimônio confere-vos uma participação contínua nesta união de Jesus com a Igreja. Jesus amou tanto a Igreja que morreu por ela[8]; e esta, em troca, ama-O como a seu Deus e Esposo. É assim que deveis amar o vosso marido, como se fosse para vós Jesus Cristo.
“Para com os filhos. A graça da maternidade tem a sua origem no coração de Deus; Ele deposita-a no coração da mãe, para que esta ame e guie os filhos em conformidade com a vontade divina.
c) Para convosco. — Presentemente, não precisais de outras mortificações além das que Deus vos envia todos os dias. O que é preciso é santificá-las, unindo-as aos sofrimentos de Jesus Cristo.
“Sede, como sois, jovial e alegre, natural e reta, e Deus vos abençoará.”

7 de Julho de 1922. — Ainda à mesma:

“Para vós, o caminho é este:
1. Em união com Jesus, e apoiada no seu amor e nos seus merecimentos, caminhar para o Pai com amor filial. Esta intenção de agradar a Deus em tudo eleva e simplifica toda a nossa vida.
2. Grande submissão a Deus no meio de todos os, acontecimentos. As alegrias que o Pai celeste vos envia, aceitá-las também com alegria natural, sem vos mergulhardes demasiado nas suas delícias: ‘Delicias non amplecti’, diz S. Bento[9].
3. De tempos a tempos, durante o dia, fazer uma comunhão espiritual, como ponto de partida de nova ascensão para Deus.
4. Se cairdes em alguma falta ou fraqueza, não fiqueis assustada, mas pedi perdão ao nosso Pai, com grande simplicidade, e, depois, para a frente. Sede vós mesma, porque N... está muito bem, e Deus gosta de N... unida a Jesus.
5. — Aceitai, em espírito de penitência, os aborrecimentos provenientes das vossas ocupações.”




[1] “Confessar, cada dia, a Deus, na oração, as culpas passadas com lágrimas e gemidos” (S. Bento, Regra, IV, 58).
[2] “Tende em vós os mesmos sentimentos de que estava animado Jesus Cristo” (Fl 2, 5).
[3] “Ninguém vai ao Pai senão por mim” (Jo 14, 7).
[4] “Eu sou o caminho” (Jo 14, 6).
[5] “É por Ele, com Ele e n’Ele, que toda a honra e glória são rendidas a Deus Pai” (Cânon da Missa).
[6] Cf. Mt 26, 39.
[7] Cf. Ef 5, 23.
[8] Cf. Ef 5, 25.
[9] Regra IV, 12.

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