quinta-feira, março 09, 2017

A pedagogia do Espírito Santo

Por L.J. Callens, “A pedagogia do Espírito Santo”, p. 21-26.

 
O Espírito Santo dá à alma um “apetite” para as coisas divinas, inspira-lhe gosto pelo sobrenatural, a fim de tornar-lhe simpáticas as realidades divinas.
É sabido que o alimento só preenche sua função de sustentar a vida se é desejado pelo organismo que deve absorvê-lo e de algum modo exigido por ele. Se este é contrário a seu desejo, há de rejeitá-lo, isto é, em nada lhe aproveita.
Mas, ao contrário, se é esperado, cobiçado, então tem todas as probabilidades de realizar a nutrição.
Urge mais ainda que esse “gosto” do que é divino seja muito vivo em nós, porque frequentemente – para não dizer sempre – as realidades divinas repugnam à nossa natureza, tão em desproporção com suas exigências e sua elevação.
Deus tem, muitas vezes, coisas desagradáveis a nos dizer, esforços penosos a pedir, renúncias dolorosas, algumas das quais nos dilaceram o coração e nos deixam abatidos e sem forças por muito tempo. Se Ele não criar em nossa alma, no próprio momento da Sua intervenção, um poderoso atrativo que a faça apegar-se a Ele e nEle confiar, é em vão que falará.
O que mais importa não é ouvir a Deus, e sim compreender o que Ele diz e conformar-se com isso. Quantas almas se sentem perseguidas por apelos incessantes, cuja oportunidade elas reconhecem, sem ter a coragem de romper os liames e voar, enfim livres, para uma atmosfera mais pura! É o drama de muitos: “Queria, mas não posso. Sinto-me fraco!” É preciso, às vezes, uma vida inteira para se chegar a dizer com o salmista: Para mim vale mais a lei que saiu da tua boca do que milhões em ouro e prata (Sl 119,72).
Deus terá, pois, de criar, por seu Espírito, essa atração soberana e imperiosa para vencer todas as revoltas do coração, as dúvidas da inteligência, as lentidões da vontade frágil[1]. Uma espécie de movimento a jorrar das profundezas da alma, capaz de transtornar a segurança a que se apegava como um bem inalienável, considerado indispensável. Uma sedução como a de que havia sido objeto o profeta Jeremias, antes da missão perigosa a cumprir e sem a qual não teria ele ido até o fim de sua obra. Tu me seduziste, Senhor, e eu fui seduzido; foste mais forte do que eu, e pudeste mais (Jr 20,7). Quem ainda não experimentou no íntimo do coração o mistério dessa intervenção de Deus a triunfar sobre todos os obstáculos sem que sabedoria humana alguma o pudesse prever?
O coração foi abalado, mudado repentinamente, fez-se resoluto diante de uma coisa grandiosa, heroico até, em perfeito contraste com sua habitual frouxidão, sua pequenez de todos os dias. Nada nem ninguém preparou, imaginou, previu ou quis tal mudança. Mas Deus passou por essa vida e Sua sedução onipotente agiu. Quem de nós não encontra em suas lembranças pessoais fatos assim, que são o melhor da história íntima de sua alma em suas relações com Deus?

Espírito que age primeiramente no coração


Deus, portanto, age na ordem do sentimento antes de agir sobre a inteligência e de criar convicções geradoras de vida. O segredo de uma educação eficaz encontra-se em agir primeiramente no coração da pessoa, antes de convencê-la e de pedir-lhe um esforço talvez custoso. Se o coração do educando não se entregar a seu educador, a formação torna-se difícil, senão impossível. Assim como aconteceu com um grande educador grego que, censurado por haver fracassado com um aluno inteligente, respondeu: “Que quereis que eu faça? Ele não me ama!”. Assim também nos Atos dos Apóstolos, que nos mostram o motivo da influência exercida por São Paulo sobre Lídia, negociante de púrpura: E o Senhor abriu-lhe o coração para atender àquelas coisas que Paulo dizia (At 16,14).
Em que consiste, então, esta instância íntima do Espírito, que estabelece a alma num estado tal de vigília espiritual e força que faz com que a porta do coração abra-se ao que é divino? Essa “instância” é um dom inteiramente gratuito de Deus, é pura emanação de Seu amor, que se antecipa a respeito de quem o quer e por quanto tempo o quer[2]. Num domínio onde ele se mostra como senhor único de suas liberalidades, a ninguém precisa prestar contas. Este é um fato que nos causa espanto e para o qual em vão buscamos uma explicação.
Numa alma de criança – uma Aninha de Guigné, por exemplo – Deus faz nascer uma irresistível necessidade dEle, um senso de sofrimento e de redenção que não veio de nenhuma formação anterior; já na alma de um adulto Ele deixa insensível às mesmas realidades, pois embora espiritualmente formado, muitas vezes ele ainda está fechado para essas realidades completamente espirituais.
Limitemo-nos a dizer que agora entramos em um domínio onde tudo é graça, onde nada de humano vem se inserir, onde Deus trabalha sozinho com maestria e independência, marcas de Sua soberania. A nenhum outro deixa o cuidado de agir nas almas para estar certo de que o trabalho será bem feito.
A Escritura traduz esse cuidado de Deus numa palavra, válida para toda alma em que se faz manifesta. Falando da conduta de Javé, no deserto, para com o povo de Israel, diz: Só o Senhor foi o seu guia (Dt 32,12). E Santa Teresa de Lisieux, fazendo eco a essa atestação, vivida e comprovada por ela, escrevia no entardecer da vida: “Só Jesus me instruiu. Nenhum livro, nenhum teólogo me ensinou; sinto, contudo, no fundo de meu coração, que estou com a verdade”.
Só uma oração humilde, perseverante, a jorrar das profundezas da alma, pode fazer com que Deus abra nosso coração e o volte inteiramente para ele. Súplica semelhante à dos apóstolos que, extasiados ao constatarem o efeito da oração no rosto de Jesus, pediam-lhe timidamente: Senhor, ensina-nos a orar (Lc 11,1). Pedido humilde que provocou a emissão do Pai nosso, a grandiosa oração. A experiência das almas prova que aqueles que atraem a benevolência divina são humildes: Deus esconde suas maravilhas aos sábios e aos prudentes, e as revela aos pequeninos (Mt 11,25).

Atração conhecida pelos efeitos

Reconhece-se este dom – atração misteriosa para Deus – sobretudo pelos seus efeitos. Um dos efeitos consiste num movimento da alma, pelo qual se adere a tudo o que Deus dela pede.
Abandonada a si mesma, às forças da natureza ferida pelo pecado, sua reação, em muitas circunstâncias, seria de afastar-se de Deus, visto que Suas intervenções são muitas vezes incompreensíveis[3].
Far-se-á de surda, muitas vezes, e fingirá não entender. Mas Deus vem a seu encontro e ela começa a escutar, como sabe escutar apenas Aquele que ama de verdade.
Suponhamos que a alma passe por uma prova; ao invés de se admirar e de se revoltar – seria o primeiro movimento da natureza – ela aceita. Pouco a pouco, sob a ação divina, compreende sua misteriosa fecundidade: um dia talvez, em intuição totalmente sobrenatural que não engana, terá a certeza de que Deus a escolheu para uma missão de redenção, graças à qual seu sofrimento reverter-se-á em fonte inestimável de graças para almas desconhecidas, que lhe deverão sua própria salvação[4].
Eis aí a obra do Espírito Santo. Só uma alma movida pelo dom da inteligência penetra assim na luz da fé e a irradia em torno de si. A atração soberana e irresistível para Deus assinala a absoluta liberdade de Deus, que atrai a si quem Ele quer e por quanto tempo o quer. Concordamos agora com a doutrina de São Paulo relativa à eleição de Israel, pois, guardadas as devidas proporções, manifesta-se a mesma atitude divina[5]. Deus a ninguém presta contas; sua liberdade não admite controle.
Essa atração sobrenatural pode ser comparada com o instinto que, por uma segurança quase infalível, conduz a ave e a guia em todas as suas atividades, como a andorinha que volta, a cada primavera, para o ninho que havia feito no ano precedente; ou o filhote de rouxinol que, estreando ainda a arte de cantar, quase sem esforço descobre a técnica paterna, à espera de se tornar também ele mestre na arte. O instinto, aplicado ao homem, dá ao amor paterno ou materno essas indubitáveis intuições.
Na vida espiritual, o instinto das coisas divinas, criado pelo Espírito Santo nas almas dispostas a recebê-lo, havendo-o pedido em oração muito humilde, tem um belo nome: chama-se senso cristão. Sua característica essencial o define: tendência instintiva para tomar, em todas as circunstâncias, o partido de Deus. Como, por exemplo, descobrir que em certo acontecimento a nosso respeito Deus se manifesta quando tiramos do fato um proveito sobrenatural nele oculto; ou como quando possuímos a intuição de estar segundo o plano de Deus aquilo que empreendemos; ou quando nos empenhamos sempre em atividades que Ele há de aprovar e abençoar... Que graça é tal percepção, fruto da presença do Espírito em nós!
Assim, o Espírito Santo quer fazer nascer nas almas esse instinto, quando as chama a partilhar mais estreitamente os segredos da intimidade divina, a fim de que, “no meio das agitações do mundo, seu coração se fixe onde se encontram as verdadeiras alegrias”. Se Deus não houvesse tomado posse de nossa alma, quantas vezes não nos voltaríamos contra Ele ou procuraríamos escapar-Lhe!



[1] S. Tomás de Aquino (IIa IIae q.85, a.3) destaca as quatro feridas de que sofremos em consequência do pecado original. Em nossa inteligência, a ignorância; na vontade a fraqueza e a malícia; no coração, a concupiscência. Mas, para não ficar num tom pessimista, logo acrescenta que essas mesmas potências podem ser sujeito de virtudes morais, e isto é infinitamente consolador. A prudência aperfeiçoa a razão; a justiça fortifica a vontade; a fortaleza dá à mesma vontade valor e continuidade no esforço; e a temperança retifica e canaliza a capacidade de desejo. Note-se que há duas virtudes para aperfeiçoar a vontade, porque estava ferida duas vezes e porque foi atingida mais profundamente pelo pecado original, sendo maior o seu desequilíbrio.
[2] S. Tomás de Aquino (Ia IIae q. 109 a. 6 ad primum) traduziu nitidamente esse primado da ação de Deus: “O livre arbítrio volta-se para Deus somente sob o impulso de Deus, que o orienta para si”. E acrescenta: “A causa primeira da efusão da graça é a escolha divina” (Com in Matth.). E ainda: “Em consequência de uma moção de Deus todos os seres se voltam para ele” (Ia IIae, 109, 6).
[3] “No estado de corrupção, o homem não está mais à altura do que comporta sua natureza, a ponto de não poder mais, só pelas forças naturais, realizar em toda a sua extensão o bem proporcionado à sua natureza” (Ia IIae 109, 2).
[4] Compreendeu-o bem Eva Lavallière, quando respondeu a Mons. Lemaitre, arcebispo de Cartago, que a reconfortava em suas provas, dizendo: “O sofrimento é a chave que abre o paraíso”. “Oh! dai-me, então, um molho!” Dirá, mais tarde: “Sou feliz, não apesar de meus sofrimentos, mas por causa deles”.
[5] Rm 9,10.

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