quinta-feira, fevereiro 09, 2017

Uma crônica de Belém

Maurício Mescheler, “São José na vida de Cristo e da Igreja”, p. 33-40.

 
Aproximava-se o momento em que a Virgem daria ao mundo o Salvador. Por esse mesmo tempo foi publicado um edito de César Augusto exigindo que, em todos os reinos submetidos a Roma – e a Judeia era desse número, – todos os habitantes se fizessem inscrever. O recenseamento ordenado por Sulpício Quirino, governador da província romana da Síria, efetuou-o Herodes e, conforme o antigo uso, por tribos e famílias.
Para fazer-se inscrever, todo chefe de família devia dirigir-se à cidade ou povoação de onde procedia a família. Essa medida descontentou o povo. Mas José e Maria submeteram-se pacientemente, sabendo que tudo vem de Deus e que o Salvador nasceria em Belém. José pôs-se, então, a caminho com Maria, que, na qualidade de herdeira, devia fazer-se inscrever também nos registros do censo.
Era pleno inverno, no mês de dezembro, quando, geralmente, na Palestina o vento sopra com violência, as chuvas são abundantes e, nas alturas, o frio chega a ser rigoroso. Maria e José viajavam a pequenas jornadas, modestos e recolhidos, suportando com doçura as intempéries do clima e a indiferença dos homens.
A viagem durou cerca de quatro dias e meio, e fez-se provavelmente pela planície de Esdrelon e pelos vales da Samaria. Depois, de Jerusalém em diante, continuaram pelo planalto de Refaim, por onde outrora seguia Salomão para ir aos seus jardins de Etã[1], cercado de uma multidão de servos e em meio a uma pompa que contrastava singularmente com a modéstia e a pobreza da Sagrada Família. Em frente ao planalto, dominando vinhas e jardins escalonados em terraços, cercado de vales verdejantes onde pastavam rebanhos, sobressaía o povoado real de Belém. As habitações cobriam o vértice e as encostas ocidentais da altura, ao passo que a vertente oriental, volvida para Jerusalém, era deserta. Onde se vê agora a igreja da Natividade abria-se uma gruta.

Pelo pôr do sol, José e Maria galgavam as encostas da colina para ganhar a hospedaria (khan), vasto pátio fechado por muros, onde os viajantes acham abrigo e água. Quanto ao mais, deve cada um providenciar por si mesmo. Os forasteiros eram então numerosos em Belém. A hospedaria estava repleta. Os dois viajantes tiveram de prosseguir seu caminho, batendo talvez em muitas portas, mas só recebiam negativas.
Fora da cidade, ao oriente, numa colina árida, descobriram uma espécie de gruta, destinada a servir de refúgio aos animais. Talvez José já a conhecesse. Talvez lhe tivesse indicado algum transeunte caridoso. Pernoitar numa gruta desse gênero, ou mesmo estacionar nela algum tempo, ninguém o estranha no oriente. Mas nas presentes circunstâncias, tamanho desamparo, era de tocar o coração! Maria e José descendiam da mais ilustre família de Belém. Tinham por si a santidade, a glória de serem os pais do Messias. E eis que o Messias, que vinha salvar Israel e o mundo, tinha que nascer desconhecido e irreconhecido, num recanto ignorado, como um estranho entre os seus!
Entretanto, veio a noite. E, nas sombras dessa noite augusta, aquele que é a Luz eterna fez a sua entrada neste mundo. Maria, cujo coração transbordava de ânsias e amor, deu à luz seu filho primogênito, seu filho único. Arroubada de admiração, contemplava aquela pobre e frágil criança; adorava-a; envolvia-a em panos e depositava-a docemente na palha do presépio.
Após se desempenhar desses desvelos maternos, chamou José, que se havia retirado. Este, então, contemplou pela primeira vez o semblante daquele, cuja visão constitui a bem-aventurança dos espíritos celestes. A luz sobrenatural revelou-lhe naquele Menino a beleza e a excelência da sua natureza humana e divina. Com Maria, ele se prostrou de joelhos e, antes de mandar como pai, adorou o seu Deus com toda a fé e todo o amor de que transbordava seu coração. Sua alma, por assim dizer, se desmanchava em alegria e gratidão para com Deus. Todo sofrimento estava esquecido quando ele tomou nos braços o Menino-Deus, de quem deveria ser, neste mundo, o pai e a providência. Que gratidão para com Deus, para com Maria, que lhe davam essa ventura! E essa ventura lhe aumentava ainda mais a veneração e o amor para com aquela de quem ele era o esposo.
Um único pensamento fazia-o sofrer: a pobreza da gruta, onde seu Deus acabava de entrar neste mundo, e o fato de nada lhe poder oferecer além do seu amor e do seu coração. A indigência da família real de Davi atingira o ínfimo grau. José compreendeu, nesse momento, toda a grandeza da sua missão junto àquele Menino, e imolou-se-lhe sem reserva. Seria o auxiliar de Maria nos cuidados de que ela cercaria a infância e a juventude de Jesus. Mais tarde, outro José (de Arimateia) estava junto de Maria, ao despregar-se da cruz o corpo exânime do Redentor ao ser depositado no túmulo. Os panos e o presépio já prenunciavam o sudário e o sepulcro.
Jesus via e conhecia os sentimentos de seu pai na terra. Abençoava-o, vertia-lhe na alma a plenitude das graças que lhe permitiam cumprir a sua missão. O primeiro olhar, a primeira carícia do Menino-Deus, revestiram José de uma maravilhosa santidade, de uma admirável pureza de coração.
Essa noite ditosa trouxe outra surpresa e alegria a Maria e José. Apenas prestaram ao Salvador a homenagem da sua fé e do seu amor, vozes fizeram-se ouvir à entrada da gruta. Eram os pastores, chamados pelos anjos a contemplar e adorar o Menino. Eles contaram a José como, enquanto velavam pelos rebanhos, lhes haviam aparecido anjos do céu, anunciando o nascimento do Salvador. Introduzidos para junto do Menino e de sua mãe, reconheceram a verdade das palavras dos mensageiros celestes. Depois de adorarem o Messias, “voltaram glorificando e louvando a Deus por todas as coisas que tinham ouvido e visto, conforme lhes fora dito” (Lc 2,20), e publicando por toda a parte o advento do Redentor.
Para José era essa visita dos pastores, acompanhada de tantas circunstâncias maravilhosas, fonte de grande alegria. Era uma homenagem prestada ao Menino-Deus e a Maria. Ele via a sua fé confirmada por esse testemunho inesperado. Para ele, os pastores eram mensageiros de Deus. Um raio da glória do Verbo encarnado havia-os iluminado. Eles tinham tido a honra e o consolo de ouvir as palavras e o canto dos anjos.
Os artistas cristãos não deixaram de reproduzir as diversas cenas da noite de Natal e os sentimentos que animaram o coração de São José. Fiel às tradições que faziam buscar a objetividade e a calma clássicas, a arte antiga contenta-se com mostrar José ao lado de Maria ou junto ao presépio: o santo tem na mão o bordão de viajante, ou o machado de carpinteiro. Isso equivale, de algum modo, a designá-lo oficialmente como protetor e pai nutrício daquele Menino-Deus que quis nascer na pobreza. Na Idade Média, como que para frisar que José não é o pai natural do Menino, representam-no imerso na oração ou na leitura, ou retirado, à parte e dormindo[2]. No fim do século XII, e sobretudo nos séculos XIV e XV, o papel do santo patriarca junto de Maria e de Jesus torna-se mais nítido: José mostra aos pastores o Menino que eles adoram (Saint-Benoit-sur-Loire); apoiado num bordão, em pé junto do presépio, Ele contempla Jesus com amor e no recolhimento da fé; ou então, revelando pelos atos a sua solicitude paterna, ajoelha-se com Maria diante do presépio, adora o Menino-Deus e toma-o ternamente nos braços. A escola moderna, em geral, permaneceu fiel à esta última ideia. Poder-se-ia mesmo dizer que a arte soube tanto melhor traduzir os sentimentos do coração de São José quanto mais bem conhecido e mais honrado, passou a ser o próprio santo.
É possível que, depois do nascimento do Salvador, São José tenha procurado em Belém uma casa mais conveniente, e que a Sagrada Família nela tenha ficado. Oito dias mais tarde, São José foi chamado a uma nova honra e recebeu, então, misteriosos ensinamentos. O Menino teve de ser circuncidado (Lc 2,21). A circuncisão era uma lei ritual do Antigo Testamento. Por ela, a criança era incorporada à religião judaica, contraía a obrigação de submeter-se às leis desta, partilhava das promessas que a ela estavam ligadas. Simultaneamente, recebia um nome. Tornava-se membro da sociedade religiosa e civil. Enquanto a circuncisão po dia ser feita ou pelo próprio pai ou por um sacerdote, só ao pai competia impor um nome ao filho.
Embora a tal não estivesse obrigado, o Salvador quis submeter-se a essa lei, para confirmá-la, aperfeiçoá-la e tomar sobre si as penas que merecemos transgredindo a lei divina. E o que significa o sangue do Redentor derramado pela primeira vez nesse dia: era o penhor de que, mais tarde, na cruz, Ele derramaria pela salvação do mundo até a última gota desse sangue precioso.
Quais não devem ter sido então os sentimentos de Maria e José! Sem dúvida, eles viram nisso a aurora ameaçadora, prelúdio das tempestades que se abateriam sobre a vida mortal do Redentor.
O santo nome de Jesus significa: Deus e Salvador. Designa, pois, não somente a pessoa do Homem-Deus, sua natureza divina e humana, mas ainda a sua missão e os efeitos dessa missão sobre as nossas almas. É um novo penhor da nossa redenção, do perdão dos nossos pecados; da promessa de que nossas preces serão atendidas, de que temos um mediador de quem nos vêm toda graça, em quem acharemos sempre força e consolação na vida e na morte. Para o próprio Salvador, esse nome é o penhor da sua futura glorificação, o prenúncio de que a esse nome todo joelho se dobrará no céu e na terra (Fl 2,10). Tudo o que Jesus é para nós, sê-lo-á se invocarmos esse Nome com fé e amor. Pois bem, esse Nome bendito foi São José quem, por ordem do Pai Celeste, o deu ao Salvador com toda a autoridade paterna (Mt 1,21). Não é de justiça lembrarmo-nos disto e testemunharmos a São José a nossa gratidão e o nosso amor por haver imposto esse nome a Jesus e nos ter aberto, assim essa fonte de salvação? 



[1] Cf. 1Re 4. Flávio Josefo situa Etã a 13-16 km de Jerusalém e afirma, Salomão costumava andar em seu carro por seus jardins. (N. R.)
[2] Refere-se à Urna de Aix-la-Chapelle, em Aachen (Alemanha). (N. R.)

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