quinta-feira, fevereiro 02, 2017

Cartas de Columba Marmion

Columba Marmion, “A união com Deus em Cristo” – cartas compiladas e selecionadas por Dom Raimundo Thibaut, OSB. 



Em “A união com Deus em Cristo”, vemos a doutrina espiritual de Dom Columba Marmion traduzida em conselhos para seus filhos espirituais. Selecionamos alguns trechos das cartas escritas por ele. 

“Deixai-vos conduzir pela mão de Deus, sem reparar demasiado para onde vos leva, contanto que vos conserveis inteiramente submissa e entre as suas mãos. Vivemos mil vezes mais unidos a Deus no meio duma multidão em que nos encontramos por obediência, do que no recanto de uma cela onde nos tivéssemos encerrado por vontade própria.”[1]

Fonte de fecundidade sobrenatural, esta união com a vontade divina é também princípio de profunda paz. O trecho seguinte é tirado de uma das mais antigas cartas de Dom Marmion (21 de Maio de 1895). Aqui O encontramos já tal qual é, inteiramente sobrenatural e profundamente humano:

“O meu grande desejo é que possais conseguir a calma e a paz; e é, sem dúvida, uma inspiração do Espírito Santo que vos impele nesse sentido. Tende cuidado, no entanto, em o fazer devagarinho, e não fiqueis demasiado aflita se o não conseguirdes logo à primeira. O melhor meio de adquirir esta calma é uma resignação absoluta à santíssima vontade de Deus: é essa a região da paz e...[2] Esforçai-vos por nada desejar, por não prender o coração a coisa alguma sem a terdes antes apresentado a Deus e depositado no sagrado Coração de Jesus, de modo a querê-la n’Ele e com Ele.

Uma das razões principais por que perdemos a paz da alma e desejarmos uma coisa, prendermos o coração a qualquer objeto, sem sabermos se Deus o quer ou não; e então, quando se opõe aos nossos desejos algum obstáculo, perturbamo-nos, desviamo-nos da conformidade com a santíssima vontade de Deus e perdemos a paz.

No entanto — acrescenta com a sua habitual discrição —, sabei que a graça não destrói a natureza, mas a santifica, e que deve cada qual contar com o seu próprio temperamento. Portanto, fazendo por evitar a precipitação, conservai-vos num meio termo; pois, com esse vosso temperamento vivo, agir com excessiva morosidade seria afetação, o que é meu desejo eviteis a todo o custo.”

(...)

O princípio da união com Deus não se encontra senão no amor. E aqui tocamos um dos pontos característicos da doutrina[3] de Dom Marmion. Desde 1897 que ele está de posse desta doutrina, de que havia de fazer, no decorrer da sua existência, forte e agradável experiência. É de notar a continuidade do seu pensamento sobre este ponto. Este pensamento reveste nele todas as formas; a todos o repete, qualquer que seja o estado particular de vida em que se encontrem, pois o preceito da caridade é universal; e, se não o escreve sempre, como S. Francisco de Sales, “com letras maiúsculas”[4], sublinha-o frequentemente.

A uma moça que vive no mundo escreve:

“Procurai fazer tudo por amor de Jesus. Ele é tão bom que aceita a mais pequenina coisa, contanto que se faça por amor.”[5]

E ainda, uns dez anos mais tarde:

“Procurai, querida filha, fazer tudo por amor. Deus é o Amor e aceita as mais pequeninas coisas feitas por amor. O amor é como a pedra filosofal, que transforma em ouro tudo quanto for tocado por ela.”[6]

(...)

“Tendo deixado tudo por amor, toda a vossa vida é uma oração; pois, desde que permaneçamos, fielmente, dentro do caminho traçado pela vontade divina, oramos, sem dar por isso, no íntimo da nossa alma. Fazei por multiplicar os atos de amor, sem cansar a cabeça; esses atos elevam toda a nossa vida e conferem-lhe novo valor. É esse o verdadeiro caminho para adquirir as verdadeiras virtudes cristãs. Podemos, pela nossa própria indústria, exames, etc., adquirir as virtudes naturais; mas as virtudes cristãs, que são uma emanação da virtus Christi, só d’Ele nos veem: Et de plenitudine ejas nos omnes accepimus.”[7]

E ainda estas linhas que, exprimindo um pensamento idêntico, são ao mesmo tempo um eco dos seus próprios sentimentos poucos meses antes da sua morte:

“Sinto-me tão feliz por ver que ides para Deus pelos seus caminhos, quer dizer:

“Por um perfeito abandono de vós mesma e de todos os vossos interesses ao seu amor;
“Pelo cumprimento consciencioso do dever, por seu amor;
“Pela paciência e pelo silêncio.”[8]

Encontramos em muitas das suas cartas felizes e sugestivos desenvolvimentos desta doutrina. Eis em que termos, tão cheios de simplicidade, Dom Marmion a explica a uma simpática menina de menos de quinze anos:

“Sabeis que, quando estamos em estado de graça, Jesus habita sempre no nosso coração. O seu grande desejo é ser todo para nós. Parece um sonho — lindo demais para ser verdadeiro — Jesus, tão bom, tão poderoso, tão terno, querer ser nosso irmão. E, no entanto, é Ele próprio quem no-lo afirma: ‘Todo aquele que fizer a vontade do meu Pai que está no céu será meu irmão, minha irmã, minha mãe’[9]. São, tal qual, palavras de Jesus, Por conseguinte, para chegarmos à felicidade de ter a Jesus por irmão, pelo mais íntimo dos amigos, temos de fazer a vontade do seu Pai. Ora bem; e qual é esta vontade?

“Primeiramente, evitar o pecado e se, por fraqueza, cairmos nele, pedir logo perdão.
“Depois, fazer todas as nossas ações por amor d’Ele. É tão bom, que aceita até as mais pequeninas ações, feitas por amor. Para vós isto é fácil. Tendes o vosso ‘horário’ marcado; sabeis quais são os vossos deveres; resta apenas santificá-los, consagrando-os a Deus.”[10] 

_________________________________________

[1] 23 de abril de 1913.
[2] Palavra ilegível.
[3] Un Maître de la Vie Spirituelle, pág. 66 seg. e 106 seg.
[4] “Eis a regra geral da nossa obediência, escrita com letras maiúsculas: é preciso fazer tudo por amor e nada à força”. 14 de Outubro de 1604. Obras, ed. de Annecy, t. XII, pág. 352.
[5] 3 de Abril de 1903. “É preciso confessar a verdade, escrevia São Francisco de Sales a M.lle de Soufour: somos uns pobrezinhos que não podemos fazer grande coisa de bem; mas Deus, que é infinitamente bom, contenta-se com os nossos pequeninos trabalhos”. 22 de Julho de 1603. Obras, ed de Annecy, t III, pág. 202.
[6] 21 de janeiro de 1913.
[7] “E da sua plenitude todos nós recebemos” (Jo 1,16). — 30 de novembro de 1920.
[8] 18 de setembro de 1922.
[9] Mt 12,50.
[10] Inútil será dizer que, para Dom Marmion como para todos os moralistas, a primeira fonte de moralidade é a bondade da ação em si mesma, considerada quanto à sua conformidade com a lei divina. Mas, falando a almas que procuram a Deus e cujas ações possuem, de ordinário, esta bondade essencial, Dom Marmion tinha de insistir naturalmente na pureza dos motivos da ação.

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