quinta-feira, fevereiro 23, 2017

A oração e o efeito da graça

Por M.J. Scheeben, “As maravilhas da graça divina”, p. 37-44.

 
1. O homem é, pela graça, elevado acima da natureza criada.
Ainda mais, torna-se participante da natureza incriada de Deus. Ou, melhor, ergue-se a tanto pelo influxo desta união tão íntima e desta participação dos privilégios divinos. Quanto mais se aproxima do fogo um corpo, tanto mais luz e calor receberá ele.
Escreve S. Pedro: as promessas, grandes e preciosas, que Deus nos fizera em Jesus Cristo, devem tornar-nos participantes da natureza divina[1]; isto é, os privilégios divinos vêm na medida do possível a ser participados por nossa natureza. Fundados no mencionado texto, ensinam-nos unanimemente os Padres esta união com Deus.
Sentiam-se os Santos incapazes de expressar, como quereriam, a grandeza deste dom. S. Dionísio escreve: “A santidade ou a graça santificante é um bem divino, uma inefável imitação da divindade e da bondade[2], em razão da qual, por um sobre-humano nascimento, ocupamos uma ordem divina”[3]. Diz S. Máximo Mártir: “Dá-se-nos a divindade quando penetra a graça à nossa natureza com sua luz celestial, e quando, pela glória, esta mesma graça nos eleva acima de si própria”[4]. Ensinam-nos estes teólogos e a maioria dos outros Padres, com S. Tomás[5], que a graça, por assim dizer, nos diviniza. Tal o sentido que atribuem a estas palavras do Salvador; disse: “sois deuses e filhos do Altíssimo”[6]. Em uma palavra, transporta-nos a graça até ao trono que somente Deus ocupa por sua natureza.
2. Quando nos detemos por entre a variedade das criaturas, vemos diferenciar-se cada qual por sua natureza: mais perfeitas umas que as outras, formam todas em conjunto uma escala harmonicamente graduada, em cujo termo somente Deus ocupa um lugar transcendente. Há corpos que existem, mas que não possuem vida: são as pedras e os metais; outros há que têm certa vida: são as plantas, desenvolvendo-se por si mesmas graças a suas raízes, e produzindo flores e frutos; os animais gozam, além disto, de sensibilidade e movimento; e finalmente o homem, dotado de razão; mediante ela, pode ele conhecer e amar seres destituídos de corpo. Acima do homem encontra-se a série incontável dos puros espíritos, invisíveis ao nosso olhar, possuindo cada um deles sua própria perfeição. Em um ponto infinitamente mais elevado, coloca-se a natureza divina; criatura alguma se lhe assemelha em espiritualidade; nenhuma delas dispõe, em si, de capacidade para contemplar a Deus tal qual é, nem de nele submergir-se pelo amor. Comparadas com o sol divino não passam de trevas as outras naturezas, incapazes mesmo de refletir naturalmente a perfeição divina. Esta natureza divina, pelo infinito poder de sua caridade, atrai a nossa, adota-a em seu seio, pela graça, submergindo-a em si, como no forno submerge o ferro. Pertencemos, então, à raça de Deus, como a palmeira ao reino vegetal e o leão ao animal.

Se dentre todos os homens e todos os anjos, escolhesse Deus uma só alma para comunicar-lhe o esplendor de tão inesperada dignidade, faria esta alma empalidecer a formosura do sol, da natureza inteira e de todos os espíritos puros; deixaria estupefatos não só os mortais, mas ainda os mesmos anjos, que se sentiriam quase tentados de adorá-la, como se fora Deus em pessoa. Como é possível fazermos tão pouco caso deste bem, a nós com tanta prodigalidade dispensado? Será porque nossa ingratidão aumenta na medida mesma em que deseja Deus ser generoso para conosco?
Por amor-próprio não poupamos dinheiro nem fadigas para nos aproximarmos dos grandes. E desprezamos a intimidade de Deus! Nem consideramos, sem dúvida, dolorosa perda e incurável ferida o vermo-nos privados, pelo pecado mortal, da companhia de Deus, e, mais ainda, o não pertencermos à sua raça, expulsos de sua família! Na verdade, Deus mesmo despreza aquele que despreza a união com sua bondade, com sua divindade; semelhante homem torna-se inimigo de sua honra, de sua razão, de si próprio e de Deus.
3. De outro lado, as honras baseiam-se mais na opinião dos homens do que nas qualidades intrínsecas. Pode a vontade de um rei fazer ocupar alguém o mais ambicionado posto, sem que tenha, para isto, aptidão ou dignidade. Quando a graça nos comunica a dignidade divina, não somente nos confere o nome, mas também a perfeição divina, pois, conforme os teólogos, faz ele sobrenaturalmente parecer-se nossa alma com Deus. Segundo S. Cirilo de Alexandria: “Somos participantes da natureza divina, pela união com o Filho e o Espírito Santo; não de nome, mas na realidade, quantos temos crido somos semelhantes a Deus, pois fomos revestidos de uma beleza que sobrepuja a de qualquer criatura. Cristo formou-se em nós de um modo inefável, não como uma criatura em outra, mas como Deus em a natureza criada, transformando pelo Espírito a criação, – isto é, a nós mesmos – em sua imagem, elevando-a a uma dignidade sobrenatural”[7]. “O que em Deus é essencial e substancial”, observa S. Tomás, “torna-se na alma que, pela graça, participa da caridade divina, uma como qualidade acrescentada à sua natureza”[8].
Os Padres aplicam a este mistério diversas imagens. S. Atanásio[9] compara a divindade com o âmbar[10] ou bálsamo, que comunica sua suavidade aos objetos por ele tocados, ou ainda com o selo que na cera mole deixa gravada sua imagem.
Diz S. Gregório Nazianzeno que nossa natureza se acha intimamente unida a Deus pela graça e participa de suas propriedades, como uma gota de água, lançada em um vaso de vinho e por ele absorvida, toma sua cor, seu cheiro e sabor. S. Tomás, seguindo S. Basílio, evoca-nos a imagem do ferro; rígido, frio e informe, torna-se ardente, luminoso, flexível quando colocado junto ao fogo e por ele penetrado; note-se, porém, que nem por isto perde sua essência. Aquele que sabe ser Deus a mais pura luz e o fogo do amor eterno, compreenderá facilmente como, ao abaixar-se com toda a sua glória até a criatura e ao admiti-la em seu seio sem aniquilá-la, pode penetrá-la com sua luz e seu ardor, a ponto de fazer desaparecer sua natural pequenez e fraqueza, de modo a parecer completamente absorvida em Deus.
4. Se pudéssemos adquirir a sutileza dos anjos com a mesma facilidade com que podemos aumentar em nós a graça, ninguém perderia semelhante ocasião. A sutileza dos anjos? Que digo? Invejamos até a agilidade dos seres inferiores. Por certo imediatamente nos apossaríamos – se de nós dependesse – da vergonha! Ao nosso alcance se acham os esplendores da natureza divina; enobrecem-nos, elevam-nos a uma infinita altura. E, não obstante, tudo isto consegue, apenas, realizemos um pequenino esforço! Que é feito de nossa razão? Onde está nossa fé?
Suponhamos que Deus reúna em um só homem todas as maravilhas da criação, seja ele mais forte que o leão, mais belo que a aurora e as flores do campo, mais refulgente que o sol, mais radiante que os querubins. Suponhamos também que este homem aventure todos estes bens num lance de dados. Quem contemplaria, sem estremecer, tamanha loucura, semelhante ingratidão? Assombra-nos a força de Sansão. Muito mais, porém, ainda, assombra-nos ter ele cedido esta força loucamente às falazes lágrimas de uma mulher. E nós! Vendemos nossa intimidade com Deus, vendemos o esplendor do sol divino, a força das virtudes divinas à carne miserável, filha da corrupção, irmã e mãe de vermes! Que pensar diante de fato tão desolador, desgraçadamente repetido cada dia! Chorai, anjos de paz, chorai se puderdes; chorai a inconcebível loucura de vossos irmãos da terra, que se perdem a si próprios. Chorai a profanação de tantos tesouros!
Aqueles, entretanto, que têm os olhos puros e a alma sã, guardem com honra sua dignidade; estão na obrigação de amar, com todas as fibras do coração, a seu Pai, o Pai das luzes. Se pudessem os planetas conhecer sua beleza, mostrar-se-iam, por certo, sumamente agradecidos ao sol, pois, graças à luz dele recebida, se converteram em sua resplandecente imagem. Um príncipe confessa amor a seus antepassados, um filho a seu pai, cada qual a seu semelhante. Não seria já para elevar-nos da terra a Deus o sentimento de parentesco e semelhança que descrevemos? Não se concebe que possamos nós, cristãos, ter de nossa dignidade menor apreço do que o tiveram os filósofos pagãos, esclarecidos pela razão, da simples dignidade humana.
Para eles, constituía o homem uma maravilha, a medula, o coração do mundo, o rei da criação. Se à luz da razão aparecia tão grande o homem, que dizer, à luz da fé? Abramos os olhos de nossa alma e sigamos o aviso de S. João Crisóstomo: “Rogo-vos e suplico que não permitais que os mais belos dons do céu (os que recebemos pela graça de Cristo) aumentem, em razão de sua mesma grandeza, o pecado de nossa negligência”.



[1] 2Pd 1,4.
[2] Dionísio Areopagita, Epist. 2 ad Caium. MPG 3, 1067.
[3] Id. Eccles. hier., c. 2, § 1 e 3. MPG 3, 394.
[4] Capita ducenta ad theol. spect., 2, 76. MPG 90, 1159.
[5] S. Theol., l-II, q. 110, a. 3, 4; q. 114. a. 3; III, q. 3, a. 4 ad 3.
[6] Jo 10,34 (Sl 82(81),6).
[7] De Trin. 1, 4. MPG 75, 659.
[8] S. Theol. I-II, q. 110, a. 2 ad 2
[9] Lib. ad Serap. 1, 23; MPG 26, 584 s.
[10] Substância fina e aromática, usada no Oriente.

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