quinta-feira, fevereiro 16, 2017

A humildade

Por Robert de Langeac, “Princípios de vida interior”, p. 45-51

 
A humildade e a obediência predispõem para a verdadeira contemplação, e a melhor preparação para a união, assim como a melhor prova da sua realidade, é precisamente o amor cada vez mais vivo destas virtudes. Tudo o que fizermos neste sentido aproximar-nos-á de Deus mais do que pensamos.
A perfeição obtém-se lentamente. Não devemos pensar numa perfeição acabada, recebida imediatamente e de uma vez para sempre. Sabermos suportar os nossos defeitos com paciência é meio caminho andado no sentido de os corrigirmos.
É preciso um exame sério para conhecermos os ídolos interiores. É o verdadeiro amor de Deus que nos torna humildes. Quando vivemos dele e para ele, deixamos de viver para nós. Nas tentações de vaidade, pensemos em Cristo. Devemos esforçar-nos por destruir o hábito de nos colocarmos sempre em primeiro plano, antes da graça, antes de Jesus.
Quanto mais eu permanecer em mim, menos claro verei: quanto mais subir para Deus e o contemplar, mais se hão de iluminar todas as coisas. Tudo se torna mais nítido quando só nos interessamos por Deus.

A simplicidade consiste em não termos senão um pensamento, um desejo, uma afeição: Jesus, e sempre Ele. A simplicidade só existe quando nos esquecemos constantemente de nós próprios; de outro modo, haverá sempre duplicidade.
Aceitemos as críticas, elas iluminam-nos e humilham-nos; são, portanto, preciosas. Respondamos amistosamente aos cumprimentos, mas sem acreditarmos neles. Imaginemos sempre o Senhor coroado de espinhos e escarnecido pelos soldados.
Quem não sabe resistir a um elogio, e se ensoberbece com ele, anda muito mal. O mesmo acontece a quem sofre por causa de uma repreensão: o nosso instinto aconselha-nos a repeli-la, a fugir-lhe.
Nunca devemos nos admirar da nossa fraqueza, mas nunca devemos transigir nesta matéria. Devemos antes endossar os louvores a Nosso Senhor por um ato interior; depois, continuar sem nos inquietarmos demasiado com quaisquer pensamentos de amor-próprio.
Deus pode melhorar a condição do pobre. É uma verdadeira graça ter a alegria de depender d’Ele, esperar d’Ele tudo o que é material. Que belo evangelho o do vigésimo quarto domingo depois de Pentecostes! Como eu queria compreendê-lo e vivê-lo. Sob o ponto de vista espiritual, acontece o mesmo.
É bom sentirmo-nos miseráveis, devermos-lhe tudo. Amemos a nossa impotência, aceitemos a pobreza. Não se trata de renunciar a isto ou àquilo, mas de deixar, com uma confiança filial, que Deus providencie.
Nada é tão bom como verificarmos a nossa fraqueza, desde que nos voltemos imediatamente para aquele em quem depositamos toda a nossa confiança. Por contraste, a sua adorável e infinita beleza aumenta aos nossos olhos quando a realidade nos obriga a tomar consciência das nossas enfermidades e da nossa fealdade.
De uma maneira geral, devemos esforçar-nos por passarmos despercebidos. Amando a Deus cada vez mais, devemos levar os outros a amá-lo também, e depois esquecer-nos de nós próprios ou, pelo menos, esforçar-nos por isso: será útil a Deus, ao próximo, a nós mesmos. Este apagamento ser-nos-á fértil em grandes graças e grandes alegrias. Mas leva tempo para conseguir.
Só voltando-nos para Cristo e contemplando-o acabaremos por nos esquecermos de nós próprios. Nada nos torna tão humildes como o conhecimento de Deus. De tanto contemplarmos a Beleza infinita, acabaremos por achar insuportável a menor consideração vaidosa acerca da nossa pessoa.
Podemos sofrer com a nossa inutilidade, até às lágrimas, mas permanecendo submissos à vontade de Deus, sem nenhuma consolação, exceto a alegria profunda que vem do amor que se sabe desinteressado. Ama nesciri[1]. É sobre a primeira palavra que convém insistir, isto é, sobre as disposições da vontade relativamente à estima, aos louvores e aos seus contrários. Adaptemos interiormente (no interior, tem-se campo livre) e mesmo exteriormente (dentro dos limites marcados pela prudência) uma atitude, e usemos expressões de harmonia com a ideia modesta que fazemos de nós próprios. É preciso que gostemos de ser tratados assim.
Falemos pouco de nós próprios, muito pouco, absolutamente nada, se for possível. Nada é tão bom como esquecermo-nos de nós próprios para melhor nos ocuparmos de Deus e dos outros por Deus. Quando for preciso falarmos de nós, façamo-lo com simplicidade, em termos sempre verdadeiros e discretos.
Devemos refletir antes de falar. O verdadeiro freio da língua é o sentimento vivo de que Deus está presente, escuta e julga. As nossas palavras pertencem-lhe. Os verdadeiros humildes falam instintivamente baixo.
A mansidão comanda os movimentos da nossa alma em relação ao próximo e a humildade em relação a Deus e ao que d’Ele há nos outros. A humildade torna o homem merecedor de Deus.
A segunda bem-aventurança, a dos mansos, harmoniza-se com o dom da piedade, porque os mansos comportam-se como filhos de Deus, e os outros irritam-se, no sentido próprio da palavra, porque não se elevam ao pensamento do que Deus quer ou do que concede para um bem maior.
Devemos pedir para nós as virtudes do Coração de Jesus: a mansidão para com o próximo; a humildade: no último lugar, não se molesta ninguém; a paciência para aceitar todas as vontades do Senhor, mesmo quando parecem contradizer-se; a caridade: para levarmos os outros a amarem Deus pouco que seja, é preciso que o amemos muito.
Por vezes, quanto mais pedimos estas virtudes, menos parece que as alcançamos. É bom sinal; isto prova bem quanto temos necessidade delas, pois o demônio esforça-se por nos fazer desistir.
O grande inimigo é o orgulho. Combatamo-lo implacavelmente em todas as suas manifestações: juízos, palavras, atitudes, andar. Nunca será demasiado pedir a humildade. Quanto mais se ama a Deus, maior é a atração pela humilhação verdadeira e pelo sacrifício. A união com Cristo e o hábito da contemplação de Deus são os meios eficazes para vencer o orgulho.
Há temperamentos ressonantes: basta uma pequena ideia, aumentada, amplificada pela imaginação (oradores) e pensa-se logo que se possui uma grande virtude. Em outros, a vontade forte e real exprime-se dificilmente em obras. É pelos atos que se deve julgar: uns são propensos à presunção, outros ao desânimo.
Santo Agostinho tem belas reflexões sobre a presunção de São Pedro, que confundia os seus desejos com os reais meios de ação. É preciso renunciar à satisfação, mesmo inconsciente, que as imaginações forjadas pela vaidade nos proporcionam: histórias de que somos o centro, o herói, críticas sobre o que os outros pensam, etc. O orgulho é sempre causa de apreciações falsas: vivemos muito perto de nós mesmos e isso falseia a perspectiva.
Não devemos procurar saber o que os outros dizem de nós: se dizem mal, devemos pensar que merecemos muito mais; se dizem bem, pensemos que talvez tenham exagerado e que, de qualquer maneira, tudo vem de Deus. Todo o movimento voluntário de vaidade é um verdadeiro roubo.
Quando cometermos uma falta, humilhemo-nos primeiro interiormente: “Meu Deus, cometi uma falta, perdoa-me, dá-me mais amor”. Reconhecermos uma falta é um hábito precioso a adquirir.
Peçamos a humildade que torna feliz.
Não convém separar o autoconhecimento do conhecimento de Deus. Pouco a pouco, a alma acaba por se esquecer de si própria e desprezar-se, e por não desejar outra coisa senão a glória e a vontade de Deus.
Cultivemos a humildade; vejamos o que domina em nós: procura da estima dos outros ou apego à nossa própria estima, censuras, cumprimentos, trabalho não realizado. Contemplemos Jesus, doce e humilde. Esforcemo-nos por compreender que se esta virtude parece amarga é afinal doce e que a destruição que se opera é proveitosa.
Tenho sofrido muito com a visão indiscutível da minha impotência em incutir nos outros o amor de Deus. Não posso radicalmente nada. E então pedi a Deus que não destruísse, pela minha incapacidade, o bem que a doutrina pode fazer por si só, e disse-lhe: “Já que nada posso fazer por ti, vou empenhar-me em te amar! Reduzido a nada quanto à vida exterior, vou aplicar-me ao teu santo Amor, para que, em consideração deste desejo, atraias tu próprio essas almas.”
Tenhamos esta certeza: somos um mundo de pobreza, de pequenos trabalhadores, tão incapazes, tão miseráveis! Os desígnios do nosso espírito são absolutos e surgem-nos em um momento, mas a sua realização é longa, custosa, difícil; nunca se chega a atingir o ideal que se sonhou; a unidade só se fará na outra vida. Nos santos, este sofrimento é ainda mais forte, porque se sentem mais longe de Deus: quanto mais subimos, mais conscientes nos tornamos da distância que nos separa do cimo.
Mas este sofrimento é pacífico e explica os atos de humildade de um São Vicente de Paulo, de um Santo Cura d’Ars, de todos os santos, enfim.
As almas (não todas, mas a maioria) passam geralmente por três fases: período de ilusão, depois de irritação e, por fim, de resignação. É bom conhecermos os limites próprios, senti-los rapidamente atingidos, termos consciência da nossa dependência.
A mansidão é a virtude das virtudes, a flor das virtudes. É a união habitual com Deus que nos torna fortes, a mansidão é uma virtude forte. Para sermos sempre mansos, é preciso sermos fortes, da própria força de Deus. É muito difícil sofrer e ser manso.
Devemos assustar-nos quando não nos sentirmos na mão de Deus e não procurarmos regressar a ela. Que a alma procure sorrir sempre e aceitar humildemente a manifestação involuntária ou a repugnância produzida pela humilhação e pelo sacrifício quando houver consciência desta manifestação.
Para rematar com um sorriso o primeiro movimento de dor. É o dom da ciência que faz encontrar o tesouro escondido na humilhação, na pobreza, no sacrifício, na obediência, em tudo o que chamamos cruz. Os mundanos, todos os que não receberam este dom, não compreendem nada; tudo isto é tão contrário à natureza! Mas o Espírito Santo leva-nos a descobrir o valor da cruz, faz-nos sentir o seu gosto escondido no íntimo da alma; às vezes deixa que transpareça um pouco, muito pouco, no exterior.



[1]Gostai de ser ignorado [e contado como não valendo nada]” (Imit., I, cap. II).

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