sábado, janeiro 28, 2017

O dom de si

Por Joseph Schrijvers, “O dom de si”, p. 17-20.

 
Deus ocupa-se pessoalmente de santificar
a alma que se lhe entrega

Dar-se a Deus é entregar-lhe o próprio ser num ardente ato de amor, e depois esquecer-se, despreocupar-se inteiramente de si, encarregando-o de prover a tudo. É um completo abandono em Deus.
Bem sei que a sabedoria humana repudia essa palavra: abandono. Gosta de pôr reservas, exigir garantias, impor condições a Deus. Será que o trabalho de santificação não passa de um negócio a ser combinado entre Deus e a alma, um contrato bilateral, em que as partes contratantes procuram assegurar, antes de tudo, os seus interesses pessoais?
Longe de nós estas mesquinhas concepções. É a prudência da carne que as inspira.
E que importa a Deus esta máquina do mundo, por mais aperfeiçoada que seja? Ele pode construir sem fadiga mil outras, mais poderosas e mais belas. É com as almas que o seu pensamento se ocupa.
Os acontecimentos que absorvem a atenção dos homens, as revoluções, os abalos sociais, a sucessão dos impérios, são para Deus jogos infantis.
A inocência, guardada ou recobrada, um ato de caridade, uma resolução de pertencer-lhe, um suspiro dirigido ao seu Coração, uma oração, é isso que põe em movimento o Céu. Jesus disse a uma Santa: “Eu estou disposto a sofrer todos os suplícios da minha Paixão, tantas vezes quantas as almas perdidas, mas, ai de mim! Elas tornam-se incapazes da redenção”. E tu, minha alma, que te entregas a Jesus, num transporte de amor, terás receio?

A mãe que ampara os primeiros passos de seu filho, deixa-lo-á cair no pó do caminho? E tu que andas pela mão de Jesus, temerias que Ele te abandonasse no meio do caminho!
Deus quer santificar as almas. É por causa delas que deixa subsistir a sociedade, apesar dos seus vícios, é por causa delas que tolera os blasfemadores do seu Santo Nome, os que negam a sua Providência, os provocadores da sua divina Justiça. É preciso que, ao arrancar o joio, não se prejudique o trigo.
É pensando na santificação das almas que Deus governa o mundo, que regula a sucessão das estações, que deixa cair a chuva tanto no campo do justo como no campo do pecador.
O Senhor é grande e digno de todo o louvor (Sl 47,2). Em todo o universo, não criou nenhuma criatura, não permitiu nenhum acontecimento nem tolerou nenhum mal que não pudesse contribuir de algum modo para o bem das almas.
Por que então a fraqueza? Devo confiar em Deus, fechar os olhos e abandonar-me em seus braços. Jesus disse: Ninguém arrancará da minha mão aqueles que meu Pai me deu (Jo 10,29). Que eu ame o meu Deus, que atue sempre por amor, que receba tudo das suas mãos, e depois prossiga sem temor, e assim alcançarei com certeza a santidade.

Deus põe a sua sabedoria e o seu poder
a serviço da alma que se lhe abandona

Deus quer a minha santificação. Mas porventura não ignorará Ele o que me convém? Não será acaso preciso que lhe empreste o concurso das minhas luzes?
Abandonemos essas vãs preocupações. Se nem sabemos de onde viemos e ignoramos para onde vamos! Quando a Sabedoria divina compunha o Universo, quando traçava o caminho dos astros e dizia às aguas do mar: “Não passareis daqui”, onde estávamos? Quando criava as almas imortais com um sopro da sua boca e as cunhava com a sua efígie, por acaso chamou-nos para o seu Conselho? (cf. Is 40,13).
Formar uma alma à semelhança de Deus é uma obra que excede as luzes criadas. Só Deus pode fazê-lo. A nossa alma é uma obra-prima de perfeição e beleza. O sentimento, a razão, a vontade, a graça, as virtudes, as aptidões, as inspirações, tudo nela se encontra admiravelmente composto.
Uma partícula de pó pode prejudicar a marcha desta maravilhosa máquina. Quereremos meter-nos a dar conselhos Aquele que a construiu tão delicada? Somos cegos e queremos dirigir-nos! Fiscalizamos com ansiedade o proceder divino na nossa alma, pomos reparos ao movimento que nos imprime ou ao repouso em que nos deixa. Mas se nunca vimos sequer a alma que queremos governar!
Abandonemos a Deus este cuidado difícil. Ele prescreveu-nos uma coisa fácil, uma só: amá-Lo. A dificuldade da tarefa, reserva-a para si. Contentemo-nos com a nossa parte, que Deus fará o resto.
Não lhe falta sabedoria nem poder. A sua ação estende-se de uma extremidade à outra do mundo, penetra todas as criaturas até a medula, até a essência, pois é ela que as cria, sustém e move; é ela que sustenta o Universo. É verdade que é misteriosa e oculta, é verdade também que só a fé a descobre, mas será por isso menos real e eficaz?
O que a Bondade divina decretou em relação à santificação das almas, o que a sua Sabedoria ordenou para fazê-las alcançar este ideal, a sua Onipotência o executa.
Deus está ocupado com a nossa santificação. O seu Poder exerce-se neste mesmo momento. Estamos sob a sua ação poderosa. Todos os acontecimentos, em nós e fora de nós, transformam-se em buris para nos burilar, em pincéis para nos embelezar. As nossas alegrias e pesares, êxitos e reveses, consolações e aridezes, esperanças e temores, tudo se transforma em instrumento nas mãos deste hábil Obreiro.
Ele mesmo escolheu os meios para esta obra divina. Se uma alma necessita de determinado conselheiro para dizer-lhe a palavra necessária, Deus o fará vir dos confins do universo.
Aplainará diante dele as montanhas, acalmará as ondas do mar e, se for preciso, transportá-lo-á como outrora transportou Habacuc e o depôs perto do fosso dos leões. A alma que necessitar desse socorro não será desiludida, nem que seja preciso revolver o universo.
A ação de Deus na santificação das almas de boa vontade não conhece limites. Não há criatura capaz de impedi-la ou sequer retardá-la: despreza as dificuldades, contorna os obstáculos ou quebra-os, e força os seus inimigos a servir-lhe de instrumentos. A violência esgota-se perante a paciência de uma alma que se entregou a Deus, a astúcia embaraça-se nos seus próprios laços perante a sua simplicidade, e a mentira perturba-se perante a sua limpidez.
O que parecia ser a ruína de uma alma simples torna-se a sua salvação; o que fora tramado com a maior astúcia para pôr à prova a sua virtude, fortalece-a no bem. Diante dela, as barreiras cedem, as montanhas nivelam-se, enchem-se os fossos e os precipícios transformam-se em campo largo e plano.

Não há meio de fazer mal a uma alma dedicada a Deus, de fazer tropeçar quem caminha apoiado no braço de Cristo. Que eu me entregue a Deus, que o ame sem restrições, que me esqueça de mim mesmo. Deus é bom, sábio, poderoso. Entrega a Deus os teus cuidados e Ele te sustentará (Sl 54,23).

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