sexta-feira, dezembro 30, 2016

Seguir o chamado à Cruz

Raul Plus, “A reparação – crucificados com Cristo”, p. 61-65.


Existem no mundo certas estradas cujo nome nunca se esquece.
Uma delas era chamada a Rainha das Estradas, Regina Viarum. Através de Capua, Benevente e Brindisi e pelo Mar Jônio, punha Roma em comunicação com a Grécia e servia de laço entre os dois polos do mundo. Era o caminho dos artistas e dos poetas.
Outra chama-se a Via Sagrada. Seguia pela orla do Palatino e, atravessando o Forum, subia ao capitólio. Era o caminho dos triunfadores.
Há uma terceira estrada: a Via Dolorosa. Começa na cidadela Antônia, residência de Pilatos em Jerusalém, e conduz, passando pela casa de Anás e pela de Caifás, ao alto do Calvário. Foi e é ainda por esse caminho que enveredam todos os dias os seus discípulos ávidos de porem os pés nas pegadas do Crucificado... a Via Dolorosa, ou, como diz a Imitação, a Estrada Real, a Estrada Real de Santa Cruz.
Porventura o fundo de toda e qualquer vocação não consiste num chamamento à alma para que se una a Jesus de uma maneira especial? Pela graça santificante, já Deus nos permite uma intimidade maravilhosa com ele. Mas, se convém a Deus o título de esposo quando vive em qualquer alma batizada, com maior propriedade se poderá empregar essa expressão quando se trata, não de uma alma que apenas segue o caminho dos mandamentos, mas daquela que Deus escolheu desde toda a eternidade para o seu serviço particular, que distinguiu desde o princípio dos tempos, que elegeu, atraiu e consagrou!
A aliança está posta no dedo, os compromissos estão firmados. Ora, a regra é que a esposa deve compartilhar tudo com o esposo, alegrias e sofrimentos, inquietações, dores, perplexidades, angústias, desejos. Aqueles dois corações formam um só coração.
Se a alma for sincera, dirá a Nosso Senhor: “Amor por amor, vida por vida, sangue por sangue, hóstia por hóstia; tudo é uma só coisa entre nós.

“Já não podeis sofrer, mas confiastes a mim a vossa missão, e a ela hei de dedicar-me sem reserva. Para vos indenizar e para salvar convosco os pecadores pelos quais vos entregastes à morte, quero sofrer pelos que gozam, quero amar pelos que blasfemam, quero humilhar-me pelos que se exaltam, quero chorar pelos que riem, quero dar-vos todo o meu coração para morada pelos que vos rejeitam, pecando.
“Ouço vosso queixa: — O meu amor perseguido, que os homens não querem reconhecer, procura um lugar para descansar, e escolhi o teu coração... E quero, como a vossa Carmelita, Soror Isabel da Trindade, ‘oferecer-vos morada e abrigo na minha alma e fazer-vos ali esquecer, à força de amor, todas as abominações dos maus’. Compreendo que é dentro de mim, neste ‘templo’ onde habitais pela graça santificante, que quereis ver erguido o altar do sacrifício em que se hão de operar as substituições divinas. Eu fornecerei a matéria do holocausto, e vós a transformareis, tornando-a divina pela vossa presença e pela vossa ação. Vós, Senhor, sois o sacerdote que em mim há de oferecer o sacrifício ao Pai; e haveis de oferecer tudo, sem nada deixar de lado. Não façais caso das minhas resistências nem das repugnâncias que eu sentir. Cortai sem piedade o que puder ser obstáculo aos vossos projetos. Eu devo ser “consumada em unidade a fim de poder trabalhar de modo eficaz para que “todos sejam uma mesma coisa”. Se não estiverdes plenamente em mim, como poderei alcançar que sejais tudo em todos?”
“Ó meu Divino Mestre, vós já estais em mim pela vossa graça que recebi no batismo; daqui em diante, pelos meus votos, mais se intensificará essa presença. Neste lugar escolhido para o sacrifício haveis de destruir tudo o que não for vós. A vós sujeito todas as minhas potências. E o meu destino para o futuro é bem claro. Não terei outro fim que não seja o de reparar os ultrajes que vos dirigem tantos ingratos, e, pobre enfermeira inábil, mas que quer ser dedicada, pobre Verônica que tem só a sua toalha e o seu coração, passarei a vida a consolar a vossa tristeza e tratar as vossas feridas. Tomo com ambas as mãos o crucifixo dos meus votos, dos nossos compromissos recíprocos, e atrevo-me, já que mo consentis, a pousar os lábios nas vossas divinas chagas. Beijo as chagas das mãos, a fim de reparar pelos que praticaram o mal; beijo a fronte traspassada de espinhos a fim de reparar por aqueles que não pensam em vós, ou que só pensam em vós para vos insultar; beijo a chaga do coração a fim de reparar pelos que não amam e pelos que amam mal. E queria ir mais longe, já que os verdadeiramente dedicados não são os que dizem: ‘Senhor, Senhor’! Queria provar-vos a minha generosidade pelas minhas ações e imprimir na minha vida, senão no meu corpo, os sagrados estigmas da vossa Paixão.
“Decerto vos parece mesquinha a oferta que vos peço que aceiteis, mas consola-me a ideia de que, para fazer uma hóstia, basta um pouco de trigo, sim, um pouco de trigo moído... Da hóstia quero imitar tudo: a pequenez — e a minha divisa será, na prática de uma vida pobre e humilde, ‘diminuir eu para que Ele cresça’; a brancura, — o meu ideal será a pureza dos anjos; a imobilidade — a hóstia deixa-se levar para onde querem, eu obedecerei sem resistência”.
Há almas que querem especializar-se mais, e, fora ou além dos votos de religião — que já supõem o oferecimento dessas almas a uma vida crucificada — elegem para pensamento dominante de cada uma das suas ações o sacrifício sem tréguas e na mais alta dose, a imolação constante, radical, perpétua, com Cristo, pelas almas.
Tivemos ocasião de descrever a história destas doações em que se pede a Deus o favor de participar da imolação redentora, não com uma aproximação mais ou menos rigorosa, mas à letra e o mais que for possível, seja no fundo de um claustro, seja no meio do mundo.
Deixemos, porém, esses chamamentos especiais. Estamos tratando da vocação em geral, e dizemos: toda vocação pode e deve ser uma vocação reparadora. De si mesma ela o é, embora se pense nisso mais ou menos explicitamente.
Diante das ruínas que se amontoam e da necessidade de obreiros para restaurar, restabelecer, “reparar tudo o que se desmorona”, há muitos que murmuram: “Sim, alguém deveria fazer esse trabalho, mas por que hei de ser eu?” Outros, alguns, poucos, humilde mas resolutamente declaram: “Alguém deveria fazer este trabalho, por que não hei de ser eu?” E lá vão elas. É a vocação inspirada pelo desejo da reparação.
Almas enérgicas, lá vão elas apesar dos obstáculos. “O mestre está aí. Ele te chama”. Partem. É preciso quebrar laços muito queridos. Que importa? Podemos quebrá-los com o auxílio de Deus. “Ainda que tivesse cem pais e cem mães, dizia Joana d’Arc, teria partido”. Há mais gente que diz a mesma coisa. Cem mães! ... Já é tão cruel naqueles momentos ter uma! Partem, a despeito de tudo; mas a firmeza não suprime o sofrimento. “Que levas para entrar para o convento?” — “Nada. Ah! sim, levo... levo doze lenços para chorar à vontade.” Os menores “nadas” prendem nessas ocasiões.40 Partem mesmo assim. — “É preciso que eu vá ter com o Rei”. Tal é a última palavra de todas as almas que ouviram o chamamento: — Vai, filha de Deus, vai, vai! — e às quais Deus dá coragem para lhe obedecer.
O mundo não compreende; nada compreende. Ao ver este espetáculo, qualifica-o de loucura, se é que se digna dar-lhe atenção.
Loucura? Pois bem, aceitamos a expressão. Um dia, na Câmara francesa, o Pe. Gayraud, deputado pelo Finistère, para defender as Congregações a quem queriam expulsar, exaltava a grandeza das almas de eleição que se separam do mundo e lhe servem de para-raios, vivendo crucificadas com Jesus Cristo.
E o orador falava dos Irmãos de São João de Deus, que consagram a vida ao serviço dos alienados, das Irmãzinhas dos Pobres, que têm por sustento as sobras das refeições dos “velhos”, e vivem, assim como os asilos, de esmolas que mendigam... “Essa gente é louca!”, gritou alguém da extrema esquerda. — “Sim, retorquiu o Pe. Gayraud, empertigando-se para medir melhor a pequenez moral de quem o tinha interrompido, “sim, essa gente é louca! Sofre de uma loucura que está classificada há muito tempo; chamava-lhe S. Paulo: a loucura da Cruz”!
Quando a lógica da razão e a da fé, confundindo-se com a lógica do coração, chega aos últimos limites, o mundo a chama loucura! A loucura existe, de fato, mas não está do lado que ele julga.

A loucura da Cruz!

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