sexta-feira, dezembro 23, 2016

Para voar como as águias

Robert de Langeac, “A vida oculta em Deus”, p. 13-19.

 
Deus está presente no fundo da alma, mas de um modo oculto. A vida interior é uma espécie de eclosão de Deus na alma. Conservemo-nos no centro dela, no ponto preciso de onde possamos vigiar, suster ou dirigir, conforme os casos, todos os impulsos. Vivamos ou de Deus ou para Deus, na certeza, porém, de que só agimos para Ele quando nada fazemos para nós próprios. Atuamos, então, porque Deus quer, quando e como Ele quer, sempre em união profunda com Aquele de quem se é apenas o feliz instrumento.
São necessárias duas coisas para alcançar a perfeição e a união íntima com Deus: tempo e paz.
O valor dos atos conscientes do homem mede-se pelo grau de união com Deus pela caridade. Quanto mais profunda for a intimidade, mais valor de eternidade têm os frutos.
Uma alma cujo olhar interior, afetuoso e humilde, esteja sempre posto em Deus, obtém dele tudo o que deseja.
Entre uma alma recolhida, despojada de tudo, e Deus, nada se interpõe. A união é imediata, realiza-se por si mesma.
O tempo passa; e nós amamos a Deus pouco e tarde.
Como o Senhor é delicado nas suas afeições! Nunca deixa de tomar em linha de conta a personalidade do homem, e trata a sua alma como se, no mundo, só existissem ela e Ele.
Crer é comungar da ciência de Deus: Ele vê; nós acreditamos no seu testemunho.
Deus fala-nos pela fé; ajuda-nos pela esperança; dá-se e cumula o homem de graças pela caridade.
Sobe incessantemente para Deus. Deixa a terra à terra. Vive pouco nos outros, vive menos em ti e o mais possível em Deus, ou pelo menos perto dele.
Quando ressoarem duas vozes contraditórias no fundo da alma, o cristão deve atender à que fala mais baixo. E, de qualquer modo, à que lhe pede mais sacrifícios. O sofrimento bem compre­endido é precioso. Afasta-nos do mundo e aproxima-nos de Deus.

A desordem e a luta


(...) Nunca devemos descer à estrebaria sob o pretexto de as domar à chicotada, porque não o conseguiríamos. É melhor fechar o alçapão e subir até Deus. Como? É um segredo. O Espírito Santo no-lo revelará.
Além disso, o inimigo ronda sempre à volta das nossas al­mas. Odeia particularmente as que se lhe escapam, esforçando­-se por servir o Senhor. Emprega toda a sua astúcia para as per­turbar. Quer impedi-las de darem o seu fruto. Para isso, atira-se às flores ainda em botão: a flor que cai antes do tempo é um fruto perdido para a colheita. Todo o bom pensamento ceifado pelo medo, todo o bom desejo asfixiado pelo receio, é uma flor estéril. E o demônio sabe-o. Eis porque suscita na alma impulsos importunos e perturbadores de vaidade estúpida, de suscetibilidade exagerada, de impaciência violenta, de gula ca­prichosa, que inquietam, paralisam, intimidam e dividem, ao mesmo tempo, a atenção do espirito e a aplicação da vontade.
Deus nunca se encontra no barulho ou na inquietação. O barulho e a inquietação são o sinal de que não é Ele que age. O demônio é perito em perturbar as almas interiores.

Renunciar à imaginação

É preciso insistir sempre e cada vez mais na educação da imaginação.
A imaginação é a encruzilhada das faculdades superiores e inferiores. Por isso, é da maior importância saber dominá-la. E não o conseguimos facilmente... É preciso tempo e paciência.
É que nós não temos sobre a imaginação um poder despótico, mas uma espécie de poder político. Só a podemos dominar pela habilidade, apresentando-lhe imagens boas e sãs; ou ocupando-a intensamente. Quando as outras faculdades forem conquistadas por Deus, ela há de integrar-se lentamente no seu conjunto.
A regra geral é o Age quod agis dos antigos: cortar pela raiz todas as evocações inúteis de atos passados e todas as preocupações respeitantes a atos futuros. Acima de tudo, é necessário vigiar a imagem que se encontra sempre no início e no termo da ação, e fixar-se na imagem do ato que se está praticando, sem, no entanto, a focar mais do que o estritamente necessário. Entretanto, unir suavemente a alma a Deus. Este ponto é muito importante.
(...)
Não escutes os ruídos que se produzem dentro da tua alma, porque, quando menos, estás a perder tempo. Deixa correr as coisas. Tenta viver um pouco à maneira das almas eleitas: a união das profundezas da alma com o Senhor. Não esperes mais para interromper de uma vez todas as tuas construções. Fá-lo já, agora mesmo.
Vigia atentamente os teus princípios, os teus pontos de partida, como se vigia um cruzamento de linhas ou as fundações de um edifício. Se não o fizeres, acabarás por construir sobre areia. Sabes o que depois acontece. A não ser que as con­clusões a que chegares te advirtam elas mesmas de que escolheste um caminho falso.
Se estás descansando, afasta impiedosamente do espírito todo o sonho logo que caias em ti. Se fores tão fiel a Deus que te ocupes só d’Ele, Ele há de dar-te a graça necessária para fazeres o que for mais conveniente e para resolveres os problemas pendentes.
Há períodos em que o traquete do moinho custa mais a parar: precisamos saber suportar as importunidades da imagi­nação. Neste caso, não corras atrás delas; volta antes as faculdades superiores para Deus, que é mais seguro e mais fácil. Vigiar a saúde, a moderação no trabalho, etc., ajuda muito. Tudo se enreda na pobre máquina humana. (...)

Mortificação do coração

Dá cada vez mais o teu coração a Cristo. Não esperes para quando fores perfeito. Não, dá-o agora. Não procures voluntariamente nenhuma consolação. Deus, que nos conhe­ce e vela por nós, há de dar-nos as que nos forem necessárias in tempore oportuno.
Deus não quer que desejemos e saibamos que somos amados. Pode conceder-nos esta graça por acréscimo, mas só quando o não desejarmos. Entretanto, quer que o procuremos somente a Ele, sempre, por toda a parte, em tudo, especialmente na humilhação.
Não procures nunca as coisas sensíveis, que não são só­lidas. O homem compõe-se de uma parte espiritual e de uma parte sensível; mas o que se passa na segunda é de ordem com­pletamente inferior, e, praticamente, não deve contar. Deus é espírito. Só o espiritual é importante. Se o que dizes a Deus nada significa para ti, pouco importa; persevera, desde que Ele esteja contente.
É preciso, antes de mais, temer as emoções sensíveis na vida espiritual, porque conduzem a caminho errado. Julgamos estar no caminho da virtude, e, porque as emoções são agradá­veis, prendemo-nos a elas. Não devemos pedi-las ou desejá­-las. Não nos devemos apegar a elas. O amor sensível provém do conhecimento sensível. Se nós pudéssemos compreender a diferença que existe entre o amor natural, mesmo por Cristo, e o amor sobrenatural, o verdadeiro amor da caridade! Imagi­nemos uma alma que, sem ter recebido a graça, amou Cristo na terra unicamente porque era bom e belo... É completamente diferente. O elemento sensível deve ser eliminado, para dar lu­gar ao espiritual. São João da Cruz, por exemplo, não só quer que se renuncie ao sensível, como até à alegria que deriva das afeições espirituais. Na terra, não há proporção entre o conhe­cimento e o amor, e, portanto, é possível amar mais do que co­nhecer. É suficiente sabermos que Deus é infinitamente amável e que se ama a Deus cumprindo a sua vontade.

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