sexta-feira, dezembro 02, 2016

Como ramos na videira


Vicente Bernadot, “Da Eucaristia à Santíssima Trindade”, p. 8-14.


Deus comunica a vida Divina
à santa Humanidade de Jesus

Deus é o Oceano da vida. Esta vida que é Luz e Amor, tem ânsia de se espalhar e de se comunicar. Desde toda a eternidade, o Pai comunica-se ao Filho; e juntamente o Pai e o Filho se comunicam ao Espírito Santo, transmitindo-lhe a sua divindade una.
Desde toda a eternidade também, por sua inefável misericórdia, resolveu Deus comunicar a sua vida santa e beatífica à criatura, anunciar-lhe o seu Verbo, difundir-lhe o seu Espírito e torná-la participante de sua natureza, na Luz e no Amor.
Antes, porém, de se derramar sobre todas as criaturas, a vida divina começa por transfundir-se totalmente nAquele que é “o primogênito de toda criatura” (Col 1, 15), Cristo Jesus, cuja santa Humanidade, em virtude de sua união com a Pessoa do Verbo, participa dos bens infinitos, tanto quanto é possível a uma natureza criada. Toda a vida divina se expande nele. “Foi do agrado de Deus que residisse nele toda a plenitude da divindade...” (Col 1, 19). “Nós o vimos cheio de graça e de verdade” (Jo 1, 14). Elevado à culminância de tudo e incluído no seio da Santíssima Trindade, Jesus vive extraordinariamente a vida que inunda seu coração e sua alma, nela submerge todas as energias de inteligência e de ternura, de modo que, por sua vez, torna-se também Oceano da vida.

Jesus comunica-nos a vida divina

Se Jesus está acima de tudo, nem por isso está ele isolado. Deus, na magnificência de seu amor, predestinou-o “primogênito entre uma multidão de irmãos” (Rom 8, 29), e “cabeça de um corpo imenso, cujos membros somos nós”. “Ele é a cabeça e a Igreja é seu corpo” (Col 1, 18).

Mas eis que Jesus quer tornar “seus irmãos” participantes do que ele recebeu. A vida, que se derramou da Santíssima Trindade em sua santa Humanidade, derrama-se de novo e espalha-se e propaga-se. Inundando todas as potências da cabeça, Jesus, dele se difunde por todo o corpo formado pelos fiéis. E nós, por nossa vez, nos tornamos participantes da vida íntima das três Pessoas divinas, em sua Luz e em seu Amor.
É o admirável mistério da difusão da vida sobrenatural que, mais que qualquer outro, “faz brilhar a glória da graça” (Ef 1, 6), e provoca em S. Paulo comovidas ações de graças (Cf. Ef, Col, Filip.). É aquele que o grande Apóstolo não cessava de anunciar, chamando-lhe “o mistério do Cristo... o mistério escondido pelos séculos e gerações e, agora, revelado aos santos: que é Cristo em vós” (Col 1, 26; 2, 2).
É “o Cristo grandioso”, formado de Jesus e da Igreja; de Jesus completado pela Igreja, de Jesus tão intimamente unido a seus fiéis que forma com eles um só corpo animado da mesma vida que circula pela cabeça e pelos membros; porquanto Jesus, derramando sua vida divina em nós, a faz nossa.
“Eu sou a videira, vós os ramos” (Jo 15, 5). O tronco e os ramos constituem um mesmo ser, nutrindo-se e atuando conjuntamente, produzindo os mesmos frutos, visto serem alimentadas pela mesma seiva. É assim que Jesus e os fiéis estão unidos num mesmo corpo: Jesus, gozando plenamente da vida divina que constitui as delícias de sua Humanidade e é Luz que ilumina, e Amor que abrasa, a faz circular por seus membros: no-la infunde de modo que em nós, em sua alma e em nossa alma, em seu coração e no nosso, há uma só vida, uma só graça, uma só comunhão de amor para com o Pai na unidade do Espírito Santo.

Permanecer em Jesus

Compreende-se que a vida cristã na prática, assim como a santidade, consistem em nossa união intima com Jesus Cristo.
“Permanecei em mim, e eu permanecerei em vós. Como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira, assim também vós não podereis dar frutos, se não permanecerdes em mim. O que permanece em mim e eu nele, esse dá muito fruto; porque vós, sem mim, nada podeis fazer” (Jo 15, 4-5). Eis, portanto, o grande dever cristão: permanecer em Jesus.
Viver em Jesus resume tudo, facilita tudo, coloca o cristão em suas relações justas com Deus e facilita-lhe a realização de sua vocação, que se explica plenamente por estas poucas palavras: estabelecer relações de intimidade com Deus nosso Pai, por Jesus Cristo e em união com o Espírito Santo, que é o termo subsistente do eterno amor.

Como aos unirmos a Jesus
e permanecermos nele?

É o Batismo que primeiramente nos une a Cristo. “O batismo incorpora-nos a Cristo”, diz S. Tomás. Segue-se, pois, que a plenitude de vida, de graça e de virtudes que há em Cristo, nos invade: é de regra que a vida da cabeça se comunique aos membros. “Todos nós participamos da sua plenitude” (Jo 1, 16).
A confirmação consolida, desenvolve e aperfeiçoa a união sobrenatural já estabelecida pelo sacramento da regeneração. Fazendo-nos “beber do espírito de Cristo” (1 Cor 12, 13), ela encaminha o nosso desenvolvimento espiritual para a sua perfeição e torna-nos aptos para agir virilmente na ordem sobrenatural, manifestar e defender corajosamente a fé recebida no Batismo. “Este sacramento, ensina Sto. Tomás, aumenta e aperfeiçoa a nossa vida espiritual em tudo o que diz respeito às lutas externas contra os inimigos de Cristo. O seu aumento e aperfeiçoamento, porém, para que o homem se torne perfeito pessoalmente, por sua união íntima com Deus, depende do influxo da Eucaristia” (Sum. Theol. 111, 79, I ad 1).
A nossa união com Cristo, iniciada no batismo e aperfeiçoada na confirmação, fica consumada no momento da comunhão. É preciso notar ainda que recebemos o Batismo e a Confirmação apenas uma vez, e que, infelizmente, podemos perder a vida com que eles nos enriqueceram. De fato, esta vida está sujeita a enfraquecimentos, e é mesmo inteiramente certo que ela sofrerá frequentes abalos, motivados por nossas fraquezas cotidianas. Acabará ela por morrer em nós, devido a esses enfraquecimentos de cada dia? Não. O Senhor, para restaurá-la, instituiu o sacramento do Altar, de todos o mais admirável e no qual todos os outros recebem a sua consumação e aperfeiçoamento.
O seu duplo fim é conservar nossa união com Cristo e encaminhá-la para a sua maior perfeição. Mais que os outros, este é o sacramento da vida, porque é alimento que podemos tomar cada dia, é “pão vivo” (Jo 6, 51), expressamente instituído para nos comunicar a vida eterna, a própria vida de Deus. Os mesmos efeitos que o pão material tem para a vida do corpo, este pão vivo tem para a vida sobrenatural: reforma, conserva, faz crescer, renova, consola.
Em definitivo, pois, todo o mistério de Cristo culmina, pela Encarnação e Redenção, na Comunhão. Das sublimidades da Trindade Santíssima baixa o Verbo encarnado ao homem, na Eucaristia, a fim de que, pela comunhão, este se eleve até ao seu fim último, a Trindade adorável. “Da Santíssima Trindade à Comunhão”: tal é o caminho que Cristo percorre para efetuar a obra da difusão da vida divina; caminho descendente do amor divino até o homem que Ele quer salvar.
“Da Comunhão à Santíssima Trindade”: tal é o caminho que o homem purificado e reconfortado deve percorrer, com o auxílio de Cristo feito seu companheiro de viagem, para participar dos bens infinitos: caminho ascendente do amor humano até Deus que o atrai à inesgotável felicidade da visão beatífica.

*

“Demos graças a Deus Pai, que nos tornou dignos de participar da sorte dos santos na luz, livrando-nos do poder das trevas para nos transferir para o reino de seu Filho muito amado... Este é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda criatura: porque por Ele foram criadas todas as coisas nos céus e na terra, visíveis e invisíveis... Tudo foi criado por Ele e para Ele. Ele existe antes de tudo e todas as coisas subsistem por Ele.
Ele é a cabeça do corpo da Igreja, é o princípio, o primogênito dentre os mortos, de maneira que tem a primazia em todas as coisas. Porque aprouve ao Pai que nele habitasse toda a plenitude, e reconciliar consigo, por Ele, todos os seres, purificando-os pelo sangue da sua cruz, tanto os da terra como os do céu.

E a vós, que outrora éreis estrangeiros e inimigos de coração, pelas más obras, agora, por certo, vos reconciliou pela morte de seu Filho para vos apresentar santos, imaculados e irrepreensíveis diante dEle, contanto que permaneçais alicerçados na fé e inabaláveis na esperança” (Col 1, 12-23).

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