sexta-feira, dezembro 16, 2016

A oração de um sacerdote

Leo Trese, “Diálogo sobe o sacerdócio”, p.17.



Meu Deus, Amo-Te

Qual é a nossa oração preferida, ao pé da cama, de manhã e à noite, no nosso genuflexório, no nosso escritório, durante os nossos trabalhos e ao volante do carro? É certamente aquela que, por ser pessoal, vem antes de todas as outras. Uma simples afirmação a exprime: «Meu Deus, amo-Te», dita com sinceridade, contém todas as outras, de menor importância. Foi a que Jesus fez constantemente, por palavras e por ações, durante o seu ministério entre os homens. No céu, é a aspiração eterna e recíproca do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
Não é fácil dizê-lo com toda a sinceridade. O amor exige muito do coração que ama. Quantas vezes, nos nossos sermões, não mostramos que ele não hesita em ir até ao extremo limite quando é verdadeiro. Pintamos o quadro da mãe que vela noites inteiras à cabeceira do filho doente. Prestamos homenagem ao trabalho dedicado do pai que ocorre às necessidades da família. Referimos tocantes histórias de crianças que esvaziam os mealheiros para comprar flores à mãe ou um cachimbo ao pai. Observamos aos nossos ouvintes que isso valia particularmente pelo amor de Deus. Avisamo-los de que não medissem o deles pelo sentimento. Expusemos-lhes que o amor de Deus é questão de vontade, não de emoção. Insistimos sobre a verdade de que a pedra de toque do nosso amor não é o sentimento mas o oferecimento que estamos prontos a fazer-lhe. A mensagem é sempre a mesma. Quem diz amor, diz sacrifício, sobretudo o mais dilacerante, o de nós mesmos, que a caridade fraterna exige tão amiúde de nós. Repetimos muitas vezes a palavra de S. João: «Aquele que não ama o seu irmão, que vê, como pode amar Deus, que não vê?» (1 Jo 4, 20).

Num intervalo do dia, lá exclamamos nós, levados por um impulso: «Meu Deus, amo-Te». Depois, um movimento da graça sugere-nos que experimentemos o valor do nosso grito interior. «Sim, está bem – dizemos para nós – mas é que eu amo efetivamente a Deus? Que fiz eu ontem para o mostrar? E hoje?». Não há dúvida que fiz pelo menos o mínimo, não cometendo pecado grave. A minha oração não é uma mentira flagrante. É um amor bem medíocre aquele que se contenta em ficar pelo mínimo! Não se imagina que um homem possa dizer à noiva ou um filho à mãe: «Irei até aí por ti, mas não mais longe».
Nesta ordem de ideias, que fiz eu por Deus ontem e hoje? Talvez possa dizer que neste período reprimi uma dúzia de vezes as palavras de impaciência ou de crítica que me vinham aos lábios. O senhor prior tratou-me bastante injustamente (ou aquele colega descurou o seu dever). A governante não tem desculpa; esqueceu-se de cuidar de mim. Um paroquiano abusou porque me tomou o tempo. As religiosas da escola gastaram a luz ou o aquecimento. Os meninos do coro chegaram atrasados e o vendedor de jornais não se dignou vir... É uma ladainha que varia segundo cada um de nós.
No entanto, se posso dizer que em determinada ocasião me mostrei paciente e amável, graças à minha oração jaculatória «Meu Deus, amo-Te», quer isso dizer que lhe dei verdadeiramente um sentido.
Pode ser que eu me tenha mesmo elevado heroicamente a outras alturas de amor. O bispo indeferiu o pedido bastante razoável que eu lhe dirigia e com uma brusquidão que tinha o seu quê de censura. Ou ainda, aconteceu-me que um paroquiano dava com a língua nos dentes a meu respeito e proferia acusações falsas. Ou ainda, um colega teve a ideia singular de me faltar ao respeito, de me criticar ou mesmo de roubar um dos meus melhores paroquianos. Fosse qual fosse a razão, o ressentimento e o rancor apoderaram-se de mim, como vagas amargas e sufocantes. Mostrei os dentes e pensei na melhor maneira de humilhar o meu «inimigo» e de o fazer em pedacinhos.
No meio do meu furor, o hábito readquiriu os seus direitos. Surpreendi-me a murmurar: «Meu Deus, amo-Te». Mas parecia que as palavras me ficavam na garganta. Ao pensar no que dizia, compreendi que se tratava de uma mentira. Fui prontamente à igreja e fiz a via sacra. «Senhor, que discípulo mais covarde eu sou – confessei eu, seguindo a via dolorosa. Pedi-Te tantas vezes que me deixasses partilhar a Tua cruz e estava tão seguro de mim que Te fiz imensas promessas. Quero aceitar e suportar por Ti as tribulações de toda a espécie que se abateram sobre mim, o sofrimento físico, os ultrajes, a desolação. E agora, meu querido Senhor e Mestre, onde estão as promessas que Te fiz? Onde estão a minha coragem fácil e as vitórias contadas antecipadamente?»
A luta foi dura, mas consegui vencer-me. O amor de Deus foi o poderoso dissolvente que fez desaparecer o ácido corrosivo do ódio incipiente que ameaçava invadir-me, ensombrar os meus dias e enchê-los de amargura. Ao pé do altar, consegui mesmo rezar pela administração episcopal que faz ouvidos de mercador, pelo meu paroquiano indiscreto e pelo meu confrade irrefletido. Deitei-me muito feliz nessa noite, repetindo: «Meu Deus, amo-Te».
A pequena oração tinha um gosto suave. Deus sabia quão penosa fora a luta que tinha travado, para que as palavras fossem sinceras. «Meu Deus, amo-Te». Contanto que se tenha uma pontinha de boa vontade, a oração opera o que diz. É como um giroscópio espiritual que corrige constantemente a minha tendência para me desviar. É o aguilhão divino que impede que eu me contente com a mediocridade e que estimula o meu desejo de obter de novo a vitória sobre mim mesmo. Nenhum homem normal é capaz da hipocrisia que haveria em recitar a oração sem procurar dar um sentido válido às palavras que pronuncia.
«Meu Deus, amo-Te». A piedosa afirmação é tão simples e tão fácil de repetir. Nunca a conseguiremos dizer bastantes vezes, se queremos agradar a Deus. Não há nenhuma outra que lhe seja tão agradável.


Deus me Ama

Aprendemos a amar pelo fato de nos vermos rodeados de afeto. Trata-se de uma verdade que é corroborada pela vida das crianças privadas da generosa solicitude a que têm normalmente direito da parte de seus pais. Se se veem escorraçadas, avançam em idade sem serem capazes de se dar, mesmo no casamento e perante o encargo da paternidade, com a quente generosidade que é caracterizada pelo amor. Como não o receberam durante os anos de formação, não têm a faculdade de o sentir na idade madura.
A natureza reflete a graça. Aprendemos a amar a Deus na medida em que temos o sentimento de sermos amados por Ele. Não basta saber teoricamente que Deus me ama. É uma verdade de fé que aceitamos sem a pôr em causa. É preciso além disso que eu tenha uma grande consciência do amor de Deus por mim, que ele seja uma realidade no meu espírito e que eu seja penetrado por ele até à medula dos ossos. Sem esta profunda convicção, as minhas próprias relações com Deus limitar-se-ão, quando muito, à obediência dócil. Tudo leva a crer que a minha vida espiritual será então triste e medíocre. O temor do Senhor é apenas o começo da sabedoria. Não é ele que me conduzirá aos cimos da felicidade e da generosidade.
Por isso é que é essencial meditar amiúde na bondade que Deus nos testemunha. Cometemos por vezes o erro de pensar que temos sempre de ser ativos nas nossas devoções. Recitamos as nossas orações preferidas antes e depois da missa. Noutros momentos, rezamos o terço, fazemos a via sacra, abrimos um livro de espiritualidade e temos maior ou menor cuidado, mesmo que nos custe, de nos compararmos com o ideal que nos é proposto. Tudo isso é bom e altamente desejável.
No entanto há um perigo. Podemo-nos deixar absorver de tal maneira pela ação, que Deus mal encontre a possibilidade de colocar uma palavra à margem. Faríamos bem se nos recolhêssemos mais vezes, para que Ele possa agir. A nossa «hora santa» privada fornece-nos a ocasião ideal. A melhor maneira de lhe dar início é dizer simplesmente: «Meu Deus, lembra-Te de novo quanto me amas». Depois pomo-nos à escuta no meio da maior quietude, mas com grande atenção.
De início, será preciso talvez qualquer preparação ativa da minha parte. Terei, sem dúvida, necessidade de me lembrar que desde toda a eternidade Deus teve uma predileção especial por mim. Havia – quem sabe? – miríades de outros seres possíveis que podia ter criado em vez de mim. Por alguma razão insondável e escondida nas profundezas do seu pensamento divino, amou a minha imagem, tal como a levava em si através dos espaços infinitos da eternidade, à semelhança do pai que conserva no coração a imagem do filho. Fui eu que ele quis que nascesse. Nenhum outro entre os inumeráveis milhares podia ocupar o meu lugar. E por isso, criou-me. Espera agora, com uma impaciência divina, o momento supremo em que possa fazer-me sentir a força do seu amor que há de agitar a minha alma. Nessa altura, o meu tempo de laboriosa aprendizagem terá passado; o amor divino e o meu poderão fundir-se sem obstáculo nem intermediário.
É uma realidade bem assente, não poesia nem imaginação, mas sim verdade teológica. Há uma outra que constitui um mistério assombroso. Deus pensa que eu sou capaz de bastar ao seu amor eterno (evidentemente, não aquele, essencial, que tem por si mesmo). Se não houvesse anjos, santos nem outras criaturas humanas que não eu, e se eu fosse o único espírito vivo da criação, não poderia amar-me mais. Ficaria satisfeito; só eu lhe bastaria.
O seu amor rodeia-me e envolve-me dia e noite. Como um vaso frágil bem protegido durante uma viagem longínqua, caminho na vida, docemente levado pelo amor inefável. Está sempre presente, precede-me, segue-me e mantém-se ao meu lado. Eu afadigo-me, multiplico esforços, atormento-me e esgoto-me, sem talvez observar uma só vez por dia ou por semana qualquer ação sensível do amor divino. E no entanto atua centenas e milhares de vezes todos os dias. Armadilhas e pedras de escândalo invisíveis foram subitamente tiradas do meu caminho, inimigos desconhecidos viram-se afastados, transmitiram-se inspirações ao meu espírito, dispuseram-se acontecimentos de acordo com o meu interesse; os corações das minhas ovelhas foram preparados para aceitar a minha palavra e os meus serviços. Só no céu poderei conhecer e contar as inumeráveis ocasiões em que o amor de Deus me tocou.
Volto o meu olhar para os anos passados e lembro-me das provas mais visíveis da sua bondade. Para mim, a maravilha de amor começou desde a minha concepção, pela criação da minha alma. Segundo todas as leis da minha lógica humana, teria sido preferível não criar esta alma, no que diz respeito à vantagem que daí advém a Deus. No entanto, fez-me e dirigiu-me para o céu, como um foguetão instalado na sua rampa de lançamento. Muniu-se de um poderoso foguetão, que foram os meus pais cheios de bondade e de afeto. Tiveram o cuidado de me levar às fontes batismais e de me dar as primeiras lições, as mais duradouras, de amor de Deus. Quis que houvesse outras pessoas boas na minha vida, os meus irmãos e irmãs, os meus parentes, amigos, sacerdotes, professores, a fim de reforçar com os seus encorajamentos e os seus exemplos o alimento espiritual que os meus pais me davam.
Isso devia bastar. Deus podia perfeitamente ter dito: «Aí estás tu colocado na tua órbita; voa com as tuas próprias asas». Mas achou que isso não era bastante para mim, como se via.
Dons menores podiam ter conduzido, sem incidentes, almas mais fortes que a minha ao céu. Deus decretou que eu seria guardado bem junto d’Ele, Deu-me a graça da vocação. O seu apelo implicava todos os meios necessários para chegar ao seu altar, apesar de todos os obstáculos aparentes e invisíveis e sem que haja méritos da minha parte.
A vigilância do seu amor nunca abrandou. Ao considerar o passado, lembro-me das circunstâncias em que me encontrava à beira da ruína e em que corria o louco risco de perder os tesouros espirituais acumulados durante anos. Vejo agora que o paciente amor de Deus me salvou muitas vezes da derrocada, da minha loucura, do meu orgulho e do meu amor próprio.
Visto na devida perspectiva, o tempo passado mostra-se também que todas as decepções, penas e dores da minha vida foram um fator necessário no meu progresso. De todas elas resultou algum bem. Quando chegaram as cruzes, atirei as culpas para a minha pouca sorte. Agora consigo reconhecer o amor ilimitado de Deus, porque adaptou com cuidado às minhas necessidades e às minhas forças de momento as provações que escolheu para mim.
Os minutos passam. Falta o tempo para pensar em todas as provas de amor que Deus me dá, mesmo naquelas que consigo ver. Comparadas com as que não distingo, são bastante pouco numerosas. Sei que a viagem ainda não está no fim. Falta percorrer uma certa distância e tenho em mim a possibilidade de me erguer contra o amor que me instiga a avançar. Posso resistir-lhe e repeli-lo. Desde há muito tempo que o tomo levianamente e a convicção de que Deus me ama fica no plano teórico. Já é tempo e bem tempo de tomar consciência da sua benevolência incomensurável. Durante esta vida, nunca compreenderei as suas dimensões, mas nem por isso é menos preciso que eu me deixe penetrar e impregnar da sua realidade.
Sensível ao seu amor por mim, avançarei naquele que tenho por Ele. Estarei assim tanto mais seguro de vir por fim a possuir completamente Aquele que me ama tanto.

Aprendamos a amar sendo amados. Vou deixar repousar a minha memória, reprimir a minha imaginação e fazer calar a razão. Levanto a cabeça que tinha inclinada para o peito e contemplo o tabernáculo. A minha oração será simples mas fervorosa: «Meu Deus, lembra-Te como me amas». Depois ficarei à escuta...

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