sexta-feira, dezembro 09, 2016

A morte, fonte da vida

Eugene Boylan, “O corpo místico”, p. 23-33.


O plano de Deus para restabelecer todas as coisas em Cristo caminha em estreito paralelismo com o curso da ruína do homem. Cristo é o novo Adão, e da mesma forma que recebemos de Adão a nossa vida humana natural e a mancha do pecado original; através de Cristo devemos receber o “restabelecimento” destas duas coisas: vida sobrenatural e redenção. A metáfora da Videira está magistralmente calculada para demonstrar a primeira; a segunda se vê mais facilmente sob a luz da comparação com o corpo humano, embora existam ainda muitas dificuldades para formar uma ideia exata sobre ela. Há uma íntima conexão entre nossa revivificação e nossa redenção, mas, neste momento, consideraremos a Redenção.
Pelo pecado de Adão, cada membro do gênero humano se viu privado daquela vida sobrenatural e amizade com Deus, que deveria receber junto com a vida natural. Cada um de nós nasce, portanto, com a mancha do pecado original. Ainda que esse pecado não implique culpa alguma por parte dos descendentes de Adão, denota, contudo, um “estado” de aversão a Deus e a falta de amor sobrenatural por Ele, que torna os homens desagradáveis aos seus olhos, de maneira que nascem “filhos da ira”[1]. A esse pecado original – cuja maldade está além da nossa compreensão – devem-se acrescentar os pecados atuais, que todo homem comete ao longo de sua vida. Sendo o pecado uma ofensa e uma rebelião contra um Deus infinito, sua malícia é também infinita. Para uma criatura finita é impossível reparar o pecado e a ofensa cometidos contra a justiça de Deus; somente uma pessoa Divina poderia oferecer a infinita satisfação necessária para reparar plenamente a justiça de Deus.

 Sendo Deus tão infinitamente justo como infinitamente misericordioso, decidiu exigir do gênero humano satisfação completa, mas ao mesmo tempo se dignou dar à humanidade um ser infinito que pudesse dar-lhe essa satisfação. A Segunda Pessoa da Santíssima Trindade se fez Homem, sofrendo e morrendo pela justificação plena dos pecados de seu povo.  O seu próprio nome, designado por Deus antes do seu nascimento, mostra a natureza da sua missão: “Tu o chamarás com o nome de Jesus, pois ele salvará o seu povo dos seus pecados” (Mt 1, 21).
Embora cada simples ato da vida de Nosso Senhor tivesse um valor infinito, a vontade de Deus quis que a Redenção fosse efetuada por sua Paixão e Morte na Cruz. A morte na Cruz foi um sacrifício ritual – o único sacrifício perfeito, do qual os demais sacrifícios (exceto a Missa) são meras sombras e símbolos; um sacrifício que dá a Deus honra e glória infinita, louvor e gratidão infinitos, reparação e satisfação infinita; um sacrifício que tem mérito infinito e é uma oração perfeita.
O sacrifício é a oração em ação. É um movimento, um gesto, um oferecimento, pelo qual os homens manifestam sua adoração, amor, dependência, desejo, submissão e gratidão a Deus. Se suas relações com Deus são ofendidas pelo pecado, o sacrifício terá um novo sentido de reparação e expiação, de pacificação e súplica por clemência.  O primeiro mandamento de Deus é que os homens o adorem, já que dependem completamente Dele em todos os aspectos. Ele é seu Criador, Legislador, seu Juiz e sua Felicidade eterna. Sem Ele não existiriam e não poderiam continuar existindo. Nele vivem, movem-se e têm o ser, não podendo executar nenhuma ação sem Ele. O reconhecimento livre e voluntário de todas essas relações do homem com Deus constitui a adoração. Santo Tomás resume nossa dependência nestas palavras: “Deus não é somente causa e origem de todo o nosso ser, mas também todo o nosso ser está em seu poder e lhe devemos tudo o que está em nós”. A mais perfeita expressão pública de toda essa verdade é o ato supremo de adoração chamado sacrifício.
Não cabe neste momento discutir a história e a origem do sacrifício. No Antigo Testamento, Deus já havia indicado as formas de sacrifício que aceitaria, e em todas elas predizia e preparava as mentes dos homens para o sacrifício da Cruz. O ritual, geralmente oferecido por um sacerdote competente, consistia em algo relacionado aos homens – algo que significava vida: animais vivos, alimento ou bebida, por exemplo –, que frequentemente era destruído ou consumido, para expressar a completa sujeição do homem a Deus.
O sacrifício material em si mesmo não tinha valor para Deus. O sacrifício externo era a expressão do interno, e seria genuíno e adequado somente se as disposições interiores exigidas fossem sinceras e completas. Esse sacrifício interno pode ser definido como um reconhecimento amoroso e voluntário de que Deus é nosso Princípio e nosso Fim, e por meio dele oferecemos com adoração e amor todo o nosso ser, tudo o que somos e temos, ou podemos ser ou ter no futuro.[2]
Sem tais disposições interiores, o sacrifício seria uma “fórmula vazia”, uma mentira manifesta. O Dr. Leen resume o sacrifício interior como “uma conformidade filial e prazerosa com a vontade divina, como uma aspiração por uma união cada vez mais perfeita com Ele, e um agradecimento pelas graças já concedidas como sinal desta união”[3].
Quando se trata do sacrifício de um pecador, deve-se acrescentar a estas condições uma intenção de propiciação e expiação. Quanto mais estes sentimentos governarem nossa vida, mais verdadeiro e aceitável a Deus será o sacrifício.
Todas estas disposições – inclusive a propiciação e expiação pelos pecados dos homens – estão presentes em todos os momentos da vida de Nosso Senhor, tanto em seu coração como em suas ações. E é em seu sacrifício, no qual Ele mesmo é a Vítima em quem se resumem todas as coisas, que elas estão mais perfeitamente expressadas. Não foi, portanto, mera coincidência que sua primeira palavra na encarnação estivesse relacionada com a ideia de sacrifício[4]. E como evidência das disposições do nosso Salvador naquele momento, temos a citação do profeta Davi feita por São Paulo, quando declarou inadequados os sacrifícios da Lei antiga: “Por isso, ao entrar no mundo, ele afirmou: tu não quiseste sacrifício e oferenda. Tu, porém, formaste-me um corpo. Holocaustos e sacrifícios pelo pecado não foram do teu agrado. Por isso eu digo: Eis-me aqui, - no rolo do livro está escrito a meu respeito – eu vim, ó Deus, para fazer a tua vontade”. (Hb 10, 5-7). E o inspirado escritor acrescenta estas palavras de significado extraordinário: “E graças a esta vontade é que somos santificados pela oferenda do corpo de Jesus Cristo, realizada uma vez por todas”. (Hb 10,10).
Estas disposições, portanto, podem ser resumidas como “dar glória a Deus fazendo sua vontade”. Toda a vida de Cristo foi vivida e determinada por este propósito. Todas as ações e eventos de sua vida são como um arco-íris de muitas cores, formado pelas minúsculas gotas de água que separam a branca e brilhante luz do sol, com o mesmo zelo e amor que Cristo tem pela glória de seu Pai, demonstrado pela submissão à sua vontade. Estas disposições, que são o núcleo e a substância de toda sua vida, estão resumidas e magnificamente expressadas no sacrifício da Cruz.
 (...) Diante do fato de que sua morte foi o sacrifício que resumiu perfeitamente toda a sua vida e disposições, é muito significativo que nosso batismo, que é o resumo da vida que temos que levar, tenha sido associado por São Paulo (Rm 6, 3) àquele momento particular de sua vida. Na Última Ceia, Cristo havia instituído o sacramento da Eucaristia para que fosse guardado como relíquia, e para dar aos seus membros, não somente a si mesmo, mas também o seu sacrifício para sempre. Mas o sacramento do Batismo em particular, pelo qual nos tornamos seus membros e capazes de participar da Eucaristia, se refere ao momento de sua morte.
Esse momento é o centro de toda a história; é o foco e o centro de toda a vida cristã. Em certo sentido está justaposto a cada momento da história e a cada evento da vida de todo homem. Imaginemos um mapa-mundi desenhado sobre uma superfície plana, de modo que o Polo Norte, estendido em uma linha, seja o verdadeiro norte de todos os pontos da superfície do globo. Do mesmo modo, o processo sacramental tem esse mesmo poder de “estender” seu polo ou centro: ele “estende” Cristo e o seu sacrifício de maneira que fica em contato com todos os pontos do espaço e do tempo. Já citamos Santo Agostinho em relação à ideia de um Cristo místico que se estende através de todo o espaço e tempo: “Há um só homem que alcança o fim do tempo”[5].
(...) Ali éramos um com Ele. Ali Ele viu cada um de nós e cada simples ato de nossas vidas. Ali conheceu cada simples pecado de nossas vidas e expiou por ele, de maneira que não existe pecado que não possa ser esquecido. Este ponto é de suma importância. Nós nunca poderemos esgotar o tesouro da reparação do Nosso Senhor, nem chegar ao fim de sua misericórdia. Não se trata meramente de uma provisão geral para o que possa acontecer. Ele satisfez de maneira atual por qualquer simples pecado que nós cometeríamos.
Nisso está contido um profundo mistério. De certo modo, ao menos pelo seu conhecimento, estávamos presentes e unidos a Ele no Calvário, na sua Morte e Ressurreição. No mínimo, estávamos realmente presentes Nele e participávamos de suas ações tal como estávamos presentes em Adão e participávamos de sua culpa. Mas isso é tudo? São Paulo escreve: “Ou não sabeis que todos os que fomos batizados em Cristo Jesus, é na sua morte que fomos batizados? Portanto pelo batismo nós fomos sepultados com ele na morte para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também nós vivamos vida nova” (Rm 6, 3-4).
Talvez compreendamos toda a realidade se interpretarmos literalmente a referência de São Paulo à “Cruz do Nosso Senhor Jesus Cristo, por quem o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo” (Gl 6,14).




[1] Cf. Ef 2, 3. (N. T.)
[2] Cf. Summa, II-II, 85, 2.
[3] E. Lenn, C. S. Sp.: The True Vine and its Branches. B. O. W.
[4]  Em Lc 2, 49, Jesus disse: “não sabeis que devo cuidar das coisas de meu pai?”. Esta foi a primeira vez que o Evangelho fala de algo dito por Jesus. (N. T.)
[5] Aug. In Ps., 85.

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