terça-feira, novembro 01, 2016

A soberania da caridade

Maurício Mescheler, em “O dom de Pentecostes”.



Devemos entregar-nos ao exercício da Caridade. Por quê? Em primeiro lugar, porque nada há mais sublime e excelente do que ela, que é a mais nobre das virtudes. Como virtude teologal, excede todas as virtudes morais, e mesmo entre aquelas é a mais perfeita, porque supõe a Fé e a Esperança e adora a Deus mais perfeitamente. É a raiz, a alma, o fim e o complemento de todas as outras virtudes, visto que nos une a Deus como nosso soberano Bem, anima e dirige as outras virtudes e todos os seus atos a este mesmo fim.[1]  
Ela é suficiente para nos assegurar a felicidade eterna; contém em si todos os preceitos, aos quais satisfaz plenamente, tem por companheiras todas as virtudes, justifica-nos, fazendo-nos entrar na amizade de Deus, é a comunicação da Caridade divina, o paraíso na terra, atrai para Deus no gozo e na alegria, engrandece-se e dilata-se até ao Céu, onde permanece sem mudança alguma.
Uma só coisa pode ser melhor que ela — a luz da glória no Céu; e mesmo esta é o complemento da Caridade na outra vida pela posse da eterna felicidade. A caridade é verdadeiramente Rainha, Rainha nobilíssima, Rainha divina, Rainha por sua origem e pelo cortejo de virtudes que, como princesas, a acompanham, Rainha pela autoridade que exerce, pois tudo dirige ao fim supremo, Rainha pelo poder e glória, pois impera no Céu e na terra. A este propósito diz a Imitação de Cristo: “Grande coisa é o amor, e bem que excede toda ponderação”.[2] O amor é o tesouro de Deus e dos homens.
Segundo: Deus quer que tenhamos Caridade e impõe-nos isto como preceito. Ordena-nos que o amemos a Ele sobre todas as coisas. O preceito de amar a Deus é o principal do decálogo e estende-se a todas as faculdades e potências do homem. Devemos amar a Deus com todo o nosso coração, isto é, com toda a nossa vontade, entendimento e sensibilidade, com todas as forças de nosso corpo e nossa alma que estão sob a dependência do entendimento e vontade (Mc 12, 30). Este é o preceito do amor.
Poder-se-ia perguntar por que Deus quer O amemos deste modo. Certamente não porque tenha necessidade do nosso amor, mas porque é consequência necessária de sua sabedoria e santidade. Conhece-se a si mesmo e em si vê o supremo Bem, o Bem infinito, digno de todo o amor, e estes atributos exigem que todas as criaturas racionais O amem sobre todas as coisas, unicamente por ser Ele quem é. Mas será possível cumprir com perfeição o preceito do amor? É fora de toda dúvida que não podemos amar a Deus como Ele merece. Deus é infinitamente bom, infinitamente amável, e nós não somos capazes de ato de amor infinito. Só Ele pode amar-se como merece amado; nós devemos contentar-nos com amá-Lo quanto pudermos.
É certo que nesta vida não podemos pensar em Deus sem interrupção, nem produzir um contínuo ato de amor; isto só é possível no Céu. Todavia podemos oferecer a Deus nosso coração, por tal modo que não pensemos nem queiramos voluntariamente coisa alguma que seja oposta ao seu amor, bem como podemos, tanto quanto a nossa fraqueza o permita, afastar-nos das coisas da terra e dar-nos à oração e às coisas espirituais. A estes dois pontos se reduz a perfeição do amor a que podemos aspirar neste mundo.
Terceiro: É conveniente e justo amar a Deus, por Ele ser quem é, e amá-Lo mais que a todas as coisas, por ser infinitamente amável. Que é o que o homem ama? Seus semelhantes. E em seu semelhante que ama? A bondade, a beleza. Pois a bondade e beleza encontram-se em Deus de maneira perfeita. Pela fórmula do preceito, podemos formar ideia da beleza de Deus e de sua amabilidade, pois que nos manda que O amemos mais que todas as coisas, ainda mesmo aquelas que a nossa imaginação possa idear como as mais amáveis.
(...)
Tudo isto pode ser motivo para amar a Deus; para aprender, porém, a O amar com todo o nosso coração, para adiantar na ciência dos Santos, devemos entrar na escola do Espírito Santo. É o melhor Mestre nesta ciência, porque é o mesmo Autor. E como é que nos instrui e forma neste amor? Primeiramente, pela oração. Orar é conversar com Deus, é o caminho para aprender a conhecê-Lo em seus magníficos atributos, em suas maravilhosas obras, nos inumeráveis benefícios da criação, conservação, santificação e perfeição, e na Igreja por Jesus Cristo.
Lembrar-nos viva e frequentemente dos benefícios de Deus é um dos meios recomendados para excitar o nosso amor. Mas esta lembrança não despertará também a lembrança de nós mesmos? O amor de reconhecimento não é amor de concupiscência? No benefício devemos considerar não só a dádiva que recebemos, mas também a bondade daquele de quem procede. Este amor é atributo divino que nos mostra a bondade de Deus, e o amor desta bondade é um amor puro.
O amor em grande parte depende do grau de conhecimento do objeto amado; mas o que impressiona nossos sentidos atrai mais viva e profundamente. Por isso, os benefícios de Deus possuem força particular para excitar o amor nos corações. A bondade de Deus apresenta-se a nossos olhos de modo iniludível; quase a tocamos com as mãos.
Finalmente, na oração, Deus opera por meio de sua graça, a qual é para o amor, como para todas a virtudes sobrenaturais, luz e calor. A este mesmo fim estão ordenados os Sacramentos, por meio dos quais o Espírito Santo nos faz avançar na Caridade. Todos os Sacramentos produzem a Caridade ou a desenvolvem; o efeito de alguns, como a Sagrada Comunhão, consiste especialmente em aumentar esta virtude.
Depois, o Espírito Santo forma-nos para o amor pela abnegação de nós mesmos. O amor de Deus não pode desenvolver-se em nós, enquanto estivermos possuídos de amor próprio. Estes dois amores lutam em nosso coração; quanto mais mortos estivermos para o amor das criaturas e para o prazer que nos elas podem proporcionar, quanto mais mortos estivermos para nós mesmos, tanto mais crescerá o amor de Deus em nosso coração. Toda a ação do Espírito Santo tende a este fim: morrermos para criaturas e para nós mesmos. Para alcançar e progredir na Caridade são também — e digamo-lo de passagem — meios eficacíssimos a castidade e a virgindade.
Por último, o Espírito Santo faz servir também a este fim os sofrimentos e as contradições. Para nos inspirar o desgosto do mundo, purificar nosso coração, elevá-lo para Deus e infundir-lhe o amor das coisas celestiais, nada há mais útil que a cruz e a adversidade; estas são o crisol da caridade, cuja máxima perfeição consiste em buscar a cruz e desejá-la. O amor à cruz forma o admirável distintivo da santidade e de sua origem divina.
Finalmente, o Espírito Santo nos ensina o amor, fazendo-nos amar. A ler e escrever aprende-se lendo e escrevendo: do mesmo modo a amar aprende-se, amando. Devemos, pois, excitar-nos todos os dias em atos de amor.
Eis alguns atos: propormo-nos sofrer tudo, sacrificar tudo, antes que perder a amizade de Deus, antes que desagradar-Lhe; lembrarmo-nos frequentemente de sua beleza e de seu amor e deixar que a alma se absorva nestes pensamentos; elevarmo-nos até Ele pela contemplação das coisas terrenas. Regozijarmo-nos na excelência dos atributos divinos, desejarmos dar a Deus a maior honra e glória, fazer todas as nossas ações por amor, entregarmo-nos como filhos à sua vontade, afligirmo-nos por tudo o que se oponha à sua glória e, ao contrário, alegrarmo-nos na medida de nossas forças em propagar a sua glória e dilatar o seu Reino. Unirmo-nos em intenção a todos quantos trabalham e sofrem por este fim, a todos os atos de amor que se oferecem à sua divina Majestade no Céu e na terra, particularmente aos oferecidos por intermédio dos sacratíssimos Corações de Jesus e Maria; finalmente, oferecer-Lhe o amor com que Ele se ama desde toda a eternidade. 




[1] Veja-se o que diz São Paulo acerca da caridade, 1Cor 13. Poder-se-ia julgar que todas as outras virtudes não são para ele mais que simples atributos da caridade. (Cf. 1Tm 1, 5; Rm 13, 10).
[2] Livro III, cap. 5.

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