sábado, novembro 26, 2016

A oração dos corações retos

José Schrijvers, “A boa vontade”, p. 26-31.


O que é a oração? A oração é o movimento de um coração amante para seu Deus. Esta oração pode revestir-se de uma forma geral e de forma mais precisa. A forma geral é o voltar-se para Deus por um simples e amoroso olhar.
A alma de boa vontade está apta para esta oração? Certamente que sim; mesmo porque, não faz outra coisa senão unir-se desta maneira a Deus, durante todo o decurso do dia.
O que é uma alma de boa vontade? É aquela que por amor se entrega a Deus cada vez que nEle pensa. E este pensamento apresenta-se frequentemente, porque o coração amante inclina o espírito para o objeto amado. O coração reto, que se deu por completo a Deus, tende instintivamente para seu centro. Ele faz oração quase sem o notar, por um simples movimento para seu amado Senhor. O filho que quer bem a seu pai e a sua mãe gosta de morar com eles no seio da família. Este filho une-se de coração a seu pais, associa-se às suas alegrias e tristezas, volta-se sem cessar para eles, tanto nos trabalhos como nos sofrimentos.
Como se faz, pois, esta oração da simples presença de Deus? Ela se faz por um olhar amoroso para Ele. Este olhar é um ato da inteligência e da vontade. A ação recíproca destas duas faculdades combina-se tão bem e une-se tão estreitamente, que se parece fundir em uma só. A inteligência considera Deus presente e a vontade dirige-se afetuosamente para Ele.

Este olhar é muito simples. Exclui o raciocínio, a reflexão e o estudo. É muito espiritual. Os sentidos e a imaginação não têm nele parte alguma. O sentimento pode acompanhá-lo, mas não acrescenta nem diminui nada a seu valor.
Este olhar afetuoso faz-se sem esforço de memória, sem nenhum constrangimento. Deus não quer o constrangimento da alma. Um simples movimento para Ele entrega o coração por completo.
A alma pode, assim, comunicar-se com Deus o dia todo. Ao despertar, seu primeiro ato é um olhar amoroso para Deus, o qual se esforçará por repeti-lo ao longo do dia, algumas vezes mais explicitamente. A refeição e os momentos de descanso não devem interromper a doce comunicação da alma com Deus. Assim ela fica exposta aos olhares do Mestre durante todo o dia. Recebe, a cada momento, os raios benéficos deste Sol divino e acumula tesouros de amor.
Sem dúvida, as ocupações virão distraí-la de Deus: o trabalho é absorvente, porém, a alma de boa vontade não desanima. Entrega-se às suas ocupações com toda a liberdade de espírito. Se, para cumprir bem o seu dever, ela deve perder Deus de vista, o Mestre a compensará mais tarde: esperará que ela esteja mais livre e mais desimpedida para se apossar dela com mais amor.
E então, virá um tempo em que o trabalho não será mais um impedimento à união contínua com Deus. Isto, porém, não depende da alma, e ela sabe-o. Deus reserva para si operar nela esta grande mudança no momento que fixou, e ela espera com paciência.
As distrações, a que a alma se vê sujeita, não a perturbam mais: elas são inerentes à natureza humana. A inteligência não está sempre na dependência da alma; a imaginação, muito menos. Disso ela tira a sua posição: não é preciso querer o impossível.
Ao menos o corpo, com suas exigências e enfermidades, poderá impedir o anelo da alma para Deus? Absolutamente não. O corpo pertence à terra: é de se admirar que se incline sem cessar para a terra? A alma rodeia-o de cuidados razoáveis. Assim, retira dele todos os serviços que tem direito de esperar.
Além disto, ela se apoia na vontade. Ora, a vontade não pertence por completo ao homem?
Assim, nada é obstáculo à alma bem disposta. Em tudo encontra a Deus, em tudo O abraça. Está ligada à presença de Deus não por alguma forma especial, ao contrário, encontra-O na contemplação da natureza, sabe que Sua imensidade enche o universo. Gosta de penetrar no seu próprio interior e viver aí no seio das três Pessoas divinas. Expande sua alma na de Jesus, seu prisioneiro de amor no santo Tabernáculo, e na sua Mãe Maria, ao lado de quem passa horas deliciosas.
Por que procuraria ela seu Deus? Sente-se envolvida por Seu paternal olhar. Este Deus invade-a e empenha em conduzi-la e rodeá-la. Por que hesitar? Lancemo-nos nEle: está em toda parte, realmente, verdadeiramente, como está no céu. Amemo-Lo, abracemo-Lo pela nossa ardente afeição, prendamo-Lo pela pureza de nosso olhar. Entreguemo-nos a Ele como a nosso pai, deixemo-nos invadir pela Sua divina caridade, mergulhemos nEle como num oceano de luz.
Se faltar um só elemento para nossa vida espiritual, o Mestre terá o cuidado de remediar a tempo. Pede de nós apenas a boa vontade. Ele próprio nos conduz por seus atrativos, e estes adapta-os às nossas necessidades. Em certo momento de nossa vida espiritual, nos fará encontrar alegrias na contemplação da natureza; em outro, nos atrairá vivamente para seu Tabernáculo. Ora nos fará descobri-lo no nosso próprio interior, ora se manifestará em suas obras.
Hoje, a amável Pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo nos cativará; amanhã seremos esclarecidos, por uma viva luz, sobre a Santíssima Trindade. Se Jesus for o objeto principal de nossa piedade, sentir-nos-emos atraídos para Ele, ora no mistério de sua Paixão, de sua Eucaristia, ora na sua própria Pessoa, no seu Sagrado Coração, no seu caráter de chefe do Corpo Místico, na sua qualidade de Esposo e de Irmão de nossa alma.
Deixemos a Deus o cuidado de variar seus atrativos e aceitemos tudo de sua mão. Não Lhe prescrevamos nem forma, nem método. Não é Ele nosso Pai muito amado? Não sabe Ele o que melhor convém a seus filhos?
As almas ocupam-se em demasia com o exterior da piedade, com a aparência da vida espiritual. Entretanto, o seu dever é somente amar a Deus, voltar-se sincera e constantemente para Ele e fazer a sua divina vontade. “Que é a perfeição, dizia Santo Afonso (e, antes dele, Santa Teresa), senão a união da nossa vontade com a vontade de Deus?”[1].
Esta oração da simples presença de Deus é, pois, muito fácil: consiste na aspiração de um coração amante por seu bom Mestre, que entrega a alma por completo, a cada instante atinge a perfeição. Este olhar simples para Deus é, pois, um ato perfeitíssimo de caridade. É também um ato de confiança heroica, pois que a alma se esquece de si própria e cegamente se lança em Deus.
É um ato de fé muito intenso, porque supõe que a alma creia na infinita bondade, no inefável amor de um Deus por ela. É um ato de total abnegação, pois que a alma renuncia a toda ideia própria, a toda satisfação que Deus reprova, a toda inquietação, mesmo aquela que diz respeito à sua própria perfeição.
É um ato de abandono perfeito, porque entrega a alma, sem reservas, a todos os desígnios de Deus sobre ela, a todas às operações que Lhe agradar fazer nela. “Este ato de abandono, diz Bossuet[2], entrega o homem por completo a Deus: sua alma, seu corpo – em geral e em particular – todos os seus pensamentos, sentimentos, desejos, todos os seus membros, todos os seus nervos, até às menores fibras, todos os seus ossos, até à medula, todas as suas entranhas, todo o interior e o exterior. Tudo Vos está entregue, ó Senhor, fazei o que quiserdes”.
Quanta perfeição se realiza a cada instante pela fidelidade em andar na divina presença! Como a santidade é coisa simples aos olhos de Deus, quando não a complicamos pelas nossas ideias pessoais! Basta voltar-se simplesmente para Deus como um filho se volta para seu pai, por um afetuoso olhar que entrega a alma sem reservas, que a faz consumir-se em Deus, seu princípio e seu fim.




[1] A Conformidade com a Vontade de Deus, §1.
[2] Sermão sobre o ato de abandono à divina Providência.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...