quinta-feira, novembro 10, 2016

A admirável virtude da humildade

Por Leo Trese, “Dizer sim a Deus, não à mediocridade”, p. 15-18.



Se queremos ser santos, devemos ser humildes... Mas temos de esclarecer o significado da humildade. Talvez não haja outra virtude tão mal compreendida. Para muitas pessoas, o adjetivo «humilde» evoca a imagem dum indivíduo modestamente vestido, que se apaga e se deprecia, que admite não ter qualquer capacidade, que fala sempre em último lugar e que faz de si mesmo um capacho para qualquer outra pessoa; no entanto, não se trata duma imagem exata do ser verdadeiramente humilde.
Humildade é a virtude pela qual conseguimos ter um sentido da realidade e das devidas proporções. É a virtude pela qual nos vemos por meio dos olhos de Deus e nos consideramos apenas aquilo que Deus nos fez. Este «apenas» é uma noção muito importante, porque Deus fez de nós qualquer coisa realmente grande. A característica essencial da humildade é vermos a nós mesmos como algo verdadeiramente admirável: seres imortais, divinizados pela graça e destinados a uma permanência eterna junto de Deus; no entanto, devemos contrabalançar esta noção com a vívida compreensão de que foi Deus que nos fez aquilo que somos e de que não devemos envaidecer-nos nem pelo menor desses atributos.
Podemos esclarecer um pouco a virtude da humildade se procurarmos corrigir algumas concepções erradas que lhe dizem respeito. Por exemplo, o modo de vestir desleixado não é sinal essencial de humildade. A propósito, lembro-me duma observação, feita por uma jovem que trabalha como voluntária nos bairros pobres duma grande cidade: «Andamos sempre bem arranjadas e procuramos nos vestir de maneira atraente. Devemo-lo ao pobre, como reconhecimento da sua dignidade como pessoa. Sentimos que o merece». Esta jovem e as suas colegas não deixam de ser humildes, certamente.

O fato de uma pessoa pretender passar despercebida também não é sinal de humildade, sobretudo se o faz realmente com o intuito de ser notada. A pequena parábola de Cristo, a ilustrar o princípio de que «Aquele que se exalta será humilhado, e o que se humilhar será exaltado», é frequentemente mal interpretada. Jesus fazia algumas observações aos fariseus, que eram hipócritas e dominadores, mas não pretendia que a sua explicação fosse tomada à letra. Se assim fosse, estaria dizendo que tomássemos o último lugar precisamente para podermos ser exaltados e receber honrarias públicas... o que com certeza não queria significar. Na prática, o homem realmente humilde deixar-se-ia cair na primeira cadeira que lhe aparecesse. Não se poria a pensar em termos de superior ou inferior, porque o seu pensamento não se concentraria nele mesmo.
Continuando nesta ordem de ideias: certa vez li a respeito dum santo que, se lhe servissem comida saborosa, espalhava cinzas sobre ela para não se deliciar com aquele sabor. Sentindo-me um pouco culpado por não apreciar devidamente tal prática, fiquei aliviado ao ler a respeito de outro santo cujo espírito estava tão ocupado com Deus que nunca podia dizer, depois duma refeição, o que tinha comido; nem sequer reparava na comida. É injusto comparar santos, mas eu seria pelo segundo.
Se o querer apagar-se não é sinal de humildade, também não o é a autodepreciação. Não é humildade depreciarmo-nos hipocritamente. Deus quer que nos sintamos satisfeitos conosco conforme somos, porque somos obra sua. Quer que pensemos: «Estou contente por ser quem sou e não outro qualquer».
Como já dissemos, esta satisfação equilibrada é também uma boa indicação de saúde mental. Uma pessoa que realmente sente que não é boa é doente. Quem pretende que não é bom desonra Deus, que o fez tal como é.
Negar as capacidades que Deus nos concedeu não é, portanto, uma prova de humildade. Se possuímos dons especiais, Deus espera que nos lembremos sempre da sua origem; mas espera também que usemos esses dons, quanto pudermos, em benefício dos outros. É a mais enganosa espécie de humildade dizer, por exemplo: «Não me peçam para cantar; bem sabem que não sei cantar», se realmente sabemos cantar; ou dizer «Não me peçam para chefiar a comissão; sabem que não sou bom organizador», quando de fato somos. A falsidade desse tipo de autodepreciação é bastante evidente. Alguém a designou por «humildade com anzol»... uma maneira de «pescar» elogios.
Quanto a ser um capacho para os outros, pode ser um ato de virtude, já que renunciamos aos nossos direitos pessoais e retraimo-nos, no interesse da paz e da caridade fraterna.
No entanto, neste nosso mundo interdependente, os nossos próprios direitos estão ligados, muitas vezes, aos direitos dos outros... e, algumas vezes, aos direitos de Deus. Se renunciar à nossa parte significa que o bem-estar alheio pode ser comprometido ou a honra de Deus ser aviltada, então bem pode ser que tenhamos a obrigação de brandir os punhos (falamos em sentido figurado, naturalmente).
Se procuras uma pessoa humilde, não procures um caráter mesquinho. Procura uma pessoa que se sinta bem com Deus, consigo mesma e com o próximo, respeitando-se a si mesma como obra de Deus; que não adule servilmente os ricos e os famosos. Que respeite os outros como obra de Deus, não é soberbo com os humildes. Que tenha o sentido do humor, pois será capaz de se rir de si mesma.
O verdadeiro humilde é paciente com os ignorantes e os estúpidos, porque sabe qual a origem do seu próprio cérebro. É generoso com o seu tempo, capacidade e dinheiro, porque sabe que tem de responder perante Deus pelo uso dos dons de Deus. É compassiva para com os pecadores, porque se sente envergonhada por ter recebido muito mais graça divina do que eles... e por tê-la usado tão pobremente. As suas orações são fervorosas (embora isso não o possas ver), porque sabe quanto deve depender de Deus.
A virtude da humildade não se restringe a determinada esfera da vida. Um homem pode ser administrador duma empresa e, no entanto, ser humilde; pode ser um lavador de carros e, no entanto, ser orgulhoso. Uma mulher pode ser uma grande atriz e, contudo, ser humilde; pode ser criada e, contudo, ser orgulhosa.

É tudo uma questão de se ter o sentido das realidades e das proporções. Trata-se de dar crédito a quem esse crédito é devido: a Deus, que fez cada um de nós, amorosamente, tal como somos. Ele ainda não acabou o seu trabalho. Facilitando-Lhe a incessante ação da sua graça é que conseguiremos ser plenamente aquilo que Ele quer que sejamos.

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