segunda-feira, outubro 10, 2016

Crise existencial

Rafael Llano Cifuentes, “Serenidade e paz pela oração”, p. 22-26.


Falar de crise existencial parece que está na moda, no entanto a eclosão desse tipo de crise epidêmica tem algo mais de meio século. Guardo comigo, amarelado pelo tempo, um recorte do Jornal do Brasil com uma crônica de Paris enviada pelo conhecido jornalista José Carlos Oliveira. Refere-se nela, de uma maneira comovente, à sua crise existencial, às suas inquietudes e nostalgias:
“Estou em Paris, sentado ao meio-dia no jardim de Luxemburgo... meditando... Deveria ir a Lourdes, Chartres e Fátima, pois posso declarar sem pudor que ando à procura da minha fé perdida. A minha fé católica, uma graça de Nossa Senhora que acalentou a minha infância, me ajudou a sobreviver nas piores condições e para cuja destruição tive que inventar uma máquina, feita peça por peça, de conceitos filosóficos existencialistas. Após sofrer um trauma de grandeza trágica, isto no pórtico da juventude, triturei assim a minha fé e avancei revoltado, niilista, para dentro do mundo adulto. Cá estou agora, sentado no jardim de Luxemburgo, meditando...; meu coração alegre, mas a minha alma se alimentando de inquietude e nostalgia. Vivendo essa experiência na intensidade com que experimento e interrogo cada ondulação ou crispação do meu ser, posso dizer literalmente, dizê-lo autenticamente pela primeira vez desde que esta expressão popular foi pronunciada: ‘a minha alma come o pão que o diabo amassou’”[1].
Que triste uma vida alimentada com esse pão amassado de amargura e de angústia, que suspira nostalgicamente por uma fé perdida! Mas essa sensação de agonia, provocada por uma pausada meditação, pode ter sido para esse jornalista como uma janela aberta para Deus. E preciso que as pessoas saibam debruçar-se na janela que abre perspectivas eternas para ponderar, meditar, sentar-se num jardim de Luxemburgo qualquer, para reencontrar-se, porventura, o perderam – o destino extraviado da sua vida.

Sim, já o dizíamos, fala-se hoje muito de crise existencial. Esta, contudo, frequentemente pode ser uma tomada de consciência da realidade, o pressuposto de uma conversão à verdade: uma suspeita fundada de que a vida não está solidamente alicerçada, de que talvez seja necessário desmontar toda sua estrutura e edificá-la em outras bases. A sensação de vazio e inquietação pode representar um clarão revelador. Num momento de depressão se pensa: que estranho me senti hoje! Parece como se tudo o que antes julgava importante deixasse subitamente de sê-lo. Parece como se uma inversão na escala de valores se estivesse operando dentro de mim: como se o que estava lá em cima viesse a colocar-se lá embaixo... Não se adverte, todavia, que precisamente nesse momento aconteceu uma coisa muito significativa: por um instante levantou-se o véu da costumeira mentira cotidiana e se chegou a vislumbrar um pouco da realidade de si mesmo e de Deus.
Depois de ter escrito isto, impressionou-me encontrar uma experiência semelhante numa página do escritor alemão Thomas Mann –prêmio Nobel de Literatura –, através do sentimento íntimo da personagem central do seu célebre livro “Os Buddenbrook”: Buddenbrook, empresário inteligente e culto, homem de extraordinária projeção social, milionário, encontra-se na sua rica biblioteca... num momento de meditação e de silêncio, e olhando para aquelas magníficas estantes de mogno, repletas de sabedoria, teve um momento de comoção, de perplexidade: não entendia o significado da sua vida: “A minha vida... As minhas posses...A minha cultura...tudo isso diante do meu olhar baço, sem brilho, não era nada. Não era isso o que procurava. Não era isso o que queria. Comecei a sentir-me insatisfeito comigo mesmo. Rico, prestigioso... esposa bonita, filhos inteligentes... poderia dizer-se que tinha tudo o que um homem sensato podia desejar... e, no entanto, sentia-me insatisfeito... como se um amor mais alto... um sentimento mais profundo da existência lançasse para mim um apelo... senti como se estivesse oco, vazio... lembrei-me então daquele sentimento que me comovia no cimo dos grandes cumes, na beira do mar, ou quando a minha mãe me falava de Deus... Será que estou sentindo nostalgia de Deus? Será que esta sensação que experimento agora representará um simples parêntese na minha vida ou será que é agora quando inicia a dissipar-se a névoa da superficialidade e começo a enxergar a profunda realidade da minha existência”?[2]
Estas sensações, recolhidas por Thomas Mann — tão parecidas às de José Carlos Oliveira na sua meditação parisiense — estiveram, talvez, de alguma maneira presentes em muitos de nós ao longo de nossas vidas, coincidindo com momentos especialmente sensíveis...Por qualquer circunstância, porque uma melodia despertou a nossa sensibilidade; porque uma festa familiar evocou a figura dos nossos pais, ou um dia visitando os lugares que povoaram a nossa infância nos sentimos outra vez crianças; porque nos comoveram as palavras e o exemplo de um amigo ou um gesto de ternura; porque uma doença deteve os nossos passos na necessária quietude do leito; porque uma dor inesperada, uma contrariedade nos obrigou a concentrar-nos em nós mesmos, porque sentimos a imensa separação de um ser querido, ou por qualquer outra circunstância semelhante, viemos a compreender que entre o que nós éramos e o que ansiávamos ter lugar havia um abismo; que entre a nossa alma e Deus — para o qual fomos criados e sem sabê-lo por Ele suspirávamos — levantavam-se as paredes do túnel por onde a nossa existência escuramente resvalava... Então é quando pensamos; entrei em crise. E julgamos necessário ir ao analista.
Porém, lá dentro de nós, algo nos dizia que o que se sentia não era uma doença psicológica que reclamava o médico, mas uma realidade bem diferente: como se estivessem começando a desmoronar os muros do túnel onde obscuramente a nossa vida ia-se deslocando... como se pela primeira vez nós estivéssemos perguntando a sério, em profundidade: qual é o sentido da minha vida?
É por isso que Viktor Frankl acertadamente disse que “cuidar de averiguar qual é o sentido da existência não é nem uma situação doentia, nem um fenômeno patológico, antes, pelo contrário, devemos guardar-nos muito de pensar tal coisa... Pois o cuidar-se de averiguar o sentido de sua existência é o que caracteriza justamente o homem enquanto tal – não se pode imaginar um animal que esteja submetido a tal preocupação — e não nos é lícito degradar esta realidade que vemos no homem (mais ainda, sendo isto o mais humano no homem) a algo demasiadamente “humano”, a uma espécie de fraqueza, de doença... de complexo. Melhor se poderia dizer que é exatamente o contrário”[3].
Em seguida, o mesmo autor nos diz que o anormal não é perder a paz preocupando-se pelo sentido transcendental da vida, mas precisamente o inverso: viver como um “homúnculo”, sem verticalidade, aletargado pelo trabalho, pelas incidências da vida, pelas diversões, sem uma explicação última da própria existência. E fala, de forma extremamente significativa, de doentes psicóticos que somente nos intervalos de normalidade era quando experimentavam preocupações sobre o sentido de sua vida![4]
Por isso, muitas vezes, se denomina crise o que é um despertar, um abrir os olhos à realidade e sentir essa tremenda saudade que traz consigo a ausência de Deus...
É nesses momentos delicados que se torna indispensável concentrar-se, ir ao centro, meditar, viajar para dentro para encontrar lá o núcleo central da nossa personalidade, o sentido da nossa vida.
Então aparece de uma maneira muito clara o pensamento de Deus: se Deus deu a cada estrela a sua órbita e a cada pássaro o seu canto, deu-me a mim, sem dúvida, um sentido, uma missão a cumprir.
É interessante como os ‘‘pensadores” de todos os tempos, ao questionar os últimos “porquês” das coisas e dos acontecimentos, quando indagavam sobre o sentido da vida, também ao mesmo tempo pediam a Deus a claridade necessária para encontrar a paz, faziam oração. Assim, Platão perguntava-se: “de onde venho, para onde vou...” e depois, uma prece pungente: “Oh, Ser Desconhecido, tem compaixão de mim!”.
A busca do sentido da vida traz consigo, necessariamente, a oração.
Chamaram-me a atenção, a esse respeito, umas palavras do Papa Pio XII, dirigidas a um grupo de oficiais da marinha brasileira em Castelgandolfo, residência de verão do Sumo Pontífice. Aludindo à vida do mar, aos desafios constantes das longas travessias marítimas, às muitas viagens e paradas em variados portos, Pio XII deixou-lhes este magnífico recado: “Lembrai-vos de fazer escala, frequentemente, no porto do silêncio interior onde podeis encontrar a resposta a todas as vossas aspirações mais íntimas: Deus. Este é o caminho da paz, da alegria, da felicidade; ancorar nossa fragilidade humana na força de Deus... Fazer repousar o barco da existência, assiduamente, no misterioso e pacífico porto da vida interior e da oração: aí encontrareis a força para continuar navegando e também o próprio rumo da navegação”.
Que paz, que tranquilidade dá saber que estamos navegando para o porto da nossa realização eterna! Mas para conseguir essa paz, necessitamos olhar para a bússola da nossa consciência, meditar com calma, mergulhar no fundo do nosso ser e encontrar o rumo. 




[1] - Oliveira, J. C. Jornal do Brasil. 21-03-79, Caderno B, p. 4.
[2] - Cfr. Mann, T, “Os Buddenbrook”, Edit. Cedibra, São Paulo, 1975, p. 347.
[3] - Frankl, V., “La idea psicológica del hombre", Madrid, 1965, pp. 58-59.
[4] - Ibidem.

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