terça-feira, outubro 25, 2016

A Presunção e o Desânimo

Por F. W. Faber, “Progresso na vida espiritual”.

O desânimo é a tendência para desistirmos de toda tentativa na vida devota, tanto pelas dificuldades que a cercam, como pelas nossas já numerosas falhas em praticá-la. Falta-nos coragem, e, em parte por mau humor, em parte por desconfiar da nossa habilidade em perseverar, tornamo-nos primeiro queixosos de Deus e aborrecidos com ele, para depois relaxarmos nos esforços em relação à mortificação e a tudo que fazemos para agradar-lhe. É como o pecado de desespero, ainda que na realidade não seja pecado algum. É uma espécie de sombra de desespero que há de induzir-nos a cometer inúmeros pecados veniais desde o momento em que lhe cedemos. Prova que contávamos demais com a nossa própria força e tínhamos, de nós mesmos, uma opinião por demais alta e injustificável. Fôssemos verdadeiramente humildes, e ficaríamos admirados de não ter procedido pior, em vez de ficarmos desapontados de não ter procedido melhor. Muitas almas são chamadas à perfeição e falham, unicamente pelo mal imenso que lhes causa o desânimo.
As pessoas que almejam a espiritualidade são, entretanto, especialmente sujeitas ao desânimo, por causa da grande sensibilidade que têm. Sua atenção firma-se, como nunca até então se firmara, em dois pontos: pequenas regras e obrigações, e motivos interiores, duas coisas que as tornam excessivamente sensíveis. A consciência, sob a ação do Espírito Santo, torna-se tão fina e delicada que sente o choque de leves enfermidades, que antigamente não tinha em conta de tais. E não somente a percepção do pecado se aviva, como também a sensibilidade da dor que o pecado inflige é mais sutil. A obra difícil e o trabalho penoso em que estão empenhadas aumenta-lhes a sensibilidade, sobretudo porque ainda estão longe de receber auxílio visível dos que as cercam e que, pelo contrário, são taxadas de entusiastas e indiscretas, de singulares e afetadas, mesmo por pessoas boas, mas que têm a incalculável má-sorte de serem boas a seu modo e não ao modo de Deus.

Além disso, a piedade nova nunca é criteriosa. E como havia de ser, se unicamente a experiência pode dar-lhe critério? O mundo queixa-se dos erros dos principiantes na piedade, não percebendo que erram tão somente porque ainda não estão tão desapegados do mundo e anti-mundanos quanto, praza a Deus, serão mais tarde. Um desses erros é exagerar as próprias faltas; e isso leva-nos logo ao desânimo. Além disso, aspiram a elevados modelos — Jesus e os santos; e quando já fizeram tudo quanto puderam, o que para eles já é muito, continuam tão abaixo do que almejavam que ficam desapontados. Pois, haverá algo de mais penoso para o espírito e o caráter do que invariavelmente perder no jogo? Poderá, porém, esperar outra coisa quem resolveu assemelhar-se ao Crucificado?
Mas o resultado desse desânimo é tornar-nos lânguidos e tristes, e nada nos poderia acontecer de pior porque impossibilita qualquer heroísmo. Se, num exercício de luta, quem estiver subjugando o adversário, de repente se entrega à moleza, perde a partida, pois a vitória dependia do jogo dos músculos e da firmeza do gesto. Um exército vitorioso pode derrotar um vencido, muito superior em número, porque a alegria da vitória constitui grande força moral. Assim, a languidez e a tristeza, sobretudo no começo da jornada, são-nos fatais. Nestas duas coisas é que aparece o veneno do desânimo.
Quanto à presunção, creio que é muito menos comum que o desânimo. Só um tolo pode ser presunçoso em religião. Acontece, todavia, que mais tolos somos quando menos o esperamos. Diz santa Teresa que a humildade é o primeiro requisito para os que desejam levar uma vida regularmente boa, mas que a coragem é o primeiro requisito para os que aspiram a qualquer grau de perfeição. Ora, a presunção não se afasta muito da coragem; e daí se segue que devemos defender-nos dela. Podemos cair na presunção por diversos modos.
Mencionarei alguns. Diz o provérbio que o primeiro golpe é a metade da batalha. Acho que não é exato em matéria espiritual; e a razão por que assim penso é que há tantas pessoas chamadas à devoção e à vida interior, que, não obstante, caem e desistem. A culpa não estava no primeiro golpe. Foi forte, amoroso e humilde. A culpa veio mais tarde. Elas ou se cansaram da mortificação, ou caíram numa superstição comum a respeito da graça, e, quando se viram enganadas, desgostaram-se. Essa superstição consiste em imaginar que a graça deve agir como por encanto, quase sem o auxílio da nossa vontade.
Por exemplo, tal pessoa não se levanta de manhã, à hora certa. Alega que não pode, o que é um absurdo, pois nenhum poder físico a retém na cama. A verdade é que não se levanta porque não quer, e porque a virtude ou a obediência não lhe merecem um esforço. Alega ainda que, ao deitar, resolveu levantar-se cedo e pediu às almas do purgatório que a ajudassem. Chega a manhã; o ar está frio, a meditação é pouco interessante, o sono tão agradável... Nenhuma alma do purgatório vem arrancá-la da cama, correr as cortinas, acender o fogo... O mais, portanto, não é de sua conta. Fez a sua parte, e deixou-a acabada na véspera à noite; mas a graça não agiu. Que fazer então? E, como este, mil e um casos...
Inúmeras pessoas, que poderiam ser quase santas, permanecem quase pecadoras por causa dessa singular superstição a respeito da graça. Nesses casos não precisamos da graça, mas da vontade. As graças recebidas excedem de muito as graças correspondidas. Deus nunca as deixa faltar do seu lado. A nós é que faltam persistência varonil e perseverança.
Mas voltemos ao assunto. O primeiro golpe não é a metade da batalha na vida devota, embora julgamos que seja. Tornamo-nos impacientes ante a extrema e misteriosa lentidão dos movimentos de Deus, e acreditamos que a obra começada vale a obra acabada; e sabendo o muito que fizeram os santos, quando, após longas austeridades, consumaram a união com Deus, tanto quanto na terra é possível, ousamos imitá-los ao pé da letra, sem discernir-lhes o espírito, ou então tomamos o vigor da graça pela fortaleza da própria vontade, voltando assim contra Deus o excesso da força sobrenatural que ele, na sua compaixão, nos dera. A experiência ainda não nos mostrou que cada vitória na vida espiritual é ganha a custo de muitas derrotas. Mais tarde descobriremos que isso constitui grande fonte de humildade.
Além disso, há um prazer especial, um sentimento animador de força que acompanham por muito tempo, e de modo sensível, a cooperação com a graça. Trazemo-los conosco nos primeiros fervores, e não passam de todo com eles. Confundimos esses sentimentos com os hábitos adquiridos na prática da sólida virtude, ou consideramos complacentemente as nossas boas obras e forma-se então uma neblina, através da qual as vemos alteradas, ou ainda amigos indiscretos louvam-nos e notam quão piedosos estamos ultimamente e, julgando fazer-nos uma gentileza, desfazem a obra de Deus em nossas almas.
Tudo isso nos leva à presunção e a presunção conduz-nos a excessos indiscretos, que por sua vez geram confiança em nós mesmos; e a confiança em nossas próprias forças produz uma inevitável reação contra toda a vida interior. Nem nos devemos esquecer de notar (ainda que isto pertença mais propriamente ao tratado sobre os Princípios da Vida Espiritual) que, nas primeiras fases do percurso, e especialmente nos últimos dias dos primeiros fervores, há algumas coisas que muito se assemelham ao que lemos sobre santos já adiantados.

O fato é que estamos apenas nos estabelecendo no estado normal. Até então Deus fez muito mais do que tencionava fazer em seguida. Nossos primeiros passos são às vezes quase tão sobrenaturais quanto, talvez, venham a ser os últimos. Não podemos esperar que o longo trajeto entre os dois também o seja. Devemos separar-nos agora de muita doçura sensível, de muita manifestação secreta de Deus e de fervorosas aspirações que, possivelmente, nos tenham levado a pensar que em breve seríamos santos. 

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