quinta-feira, outubro 06, 2016

A juventude, uma qualidade da alma

Rafael Llano Cifuentes, “A força da juventude”.

Você é jovem ou velho?
Não seria mais lógico, contudo, perguntar: que idade você tem? A idade nos daria automaticamente a resposta.
A questão, no entanto, está sendo formulada dessa maneira propositadamente. Porque acredito que a juventude não é uma época da vida mas uma qualidade da alma.
Mas se é uma qualidade da alma, qual será a medida para avaliá-la? O tempo físico? O tempo biológico?
Não. Não me cabe na cabeça que uma qualidade do espírito esteja subordinada à sucessão dos dias e dos anos, que algo tão íntimo dependa das voltas que porventura possa dar a terra em torno do sol. Nem sequer posso admitir que esteja condicionada pelo estado biológico das células, glândulas e tecidos do meu organismo. O corpo doente, pesado, amarrado a uma cama, pode estar unido a uma alma tensa, desperta, juvenilmente vivaz.
Qual seria então o módulo para computar a juventude? Eu lhe responderia, sem duvidar: a esperança. A esperança é a quinta-essência da juventude.
É jovem aquele que tem muito futuro. Aquele em quem o futuro vive em forma de esperança; aquele que sabe rasgar em sua alma perspectivas e ideais; que sabe servir-se do passado e do presente como trampolim para o futuro.
É velho aquele a quem o passado pesa mais do que o futuro. É velho quem tem como horizonte vital as mesquinhas necessidades utilitárias do imediato. É velho um homem de futuro morto.
O jovem vive de esperanças.

O velho perde a vida nas lembranças.
A juventude é uma intensidade vital lançada para frente. Um desejo profundo de realização, criado e recriado cada dia. Uma tensão voltada à realização de um ideal que absorve todas as energias do coração. É como um vetor de força anímica.
A velhice é uma situação do espírito que deserta do futuro, um compromisso imobilizante com o passado, uma resignada aceitação do presente. Uma vocação humana malograda. Um ideal abortado.
A juventude se define pelo otimismo. O pessimismo configura a velhice.
Por isso bem podemos dar razão à frase daquele velho general da II Guerra Mundial: "os anos enrugam a pele, mas perder o ideal enruga a alma".
E também por isso poderemos dizer que o mundo está repleto de jovens sem juventude e de velhos que transbordam jovialidade.      
Você nunca reparou em não sei que sombra de tédio, de pessimismo, de precoce fim marchando atrás de um jovem de dezoito anos? Você nunca se defrontou com a surpresa esplêndida de um homem de oitenta anos em plena juventude de espírito: a alma tensa, a vista fitando o alto-mar das suas esperanças, as mãos ferrenhamente firmadas no leme da vida?
Agora cada um de nós já pode responder adequadamente àquela pergunta: eu sou jovem ou velho?
Qual é o panorama íntimo do meu coração?
Eu acredito no segredo de plenitude, de felicidade, de amor, ainda não desvendado que levo escondido no centro solene da minha alma?
Eu tenho fé na perfeição potencial que fervilha inquieta no âmago do meu ser?
Eu entendo aquelas palavras de Schiller que me dizem: "no fundo do teu peito levas as estrelas do teu destino"?
Eu creio firmemente na infinita bondade de Deus que ao me criar deu-me uma vocação de felicidade eterna e com ela não me deixa de dar os meios adequados para chegar a atingi-la? Compreendo que Deus não me criou para ser um homem frustrado?
Quando Deus me faz vislumbrar uma perspectiva nova, mais alta e perfeita, tenho a generosidade suficiente para me despender do lastro dos meus sonhos passados, talvez mais humanos e materialistas, para me aventurar em outro projeto que por ser divino é por isso mesmo grandioso?
Eu possuo um ideal? Um grande ideal, humano e divino?
Que resposta estamos dando a estas perguntas? Não viremos a página pensando: vou deixar para outro dia; não encolhamos os ombros com um gesto de indiferença; não nos conformemos com uma resposta ambígua ou imprecisa..., porque a atitude que tomarmos diante dessas questões determinará o grau da nossa vitalidade juvenil ou da nossa decadência senil.

COMO SE ENVELHECE?
COMO SE PERDE A JUVENTUDE?

Em primeiro lugar, envelhece-se quando decai a esperança. Se a juventude se define pela esperança, uma pessoa a perde quando o passado pesa mais do que o futuro, quando dá um valor excessivo às experiências negativas, quando só aprende a decepcionante lição dos fracassos.

A FALTA DE ESPERANÇA

Poderíamos apresentar muitos exemplos.
Um rapaz não foi bem sucedido no vestibular e tira a conclusão de que não tem capacidade para fazer um curso universitário.
Uma pessoa sofreu uma falta séria de lealdade e deduz por isso que nas relações sociais não vale a pena fazer amigos.
Uma moça teve vários insucessos na vida sentimental, sofreu um desengano amoroso ou foi objeto de algum comentário pejorativo sobre sua aparência, e deduz que não será amada por mais ninguém, que não poderá contrair matrimônio.
Uma outra vez um encontro espiritual tentou uma briosa renovação interior; fez propósitos concretos... e poucas semanas depois reparou que voltava a cair na mesma situação em que se achava antes do encontro. E desanimou. Pensou que o ideal cristão é válido na teoria, "mas na prática a teoria é outra".
Que aconteceu em todas estas circunstâncias?
Aconteceu que a pessoa em cada caso se tornou um pouco mais velha. Velha numa determinada dimensão: a profissional, a social e afetiva, a religiosa...
Tornou-se mais velha porque perdeu a esperança, porque desesperou antes do tempo, porque diminuiu a coragem na luta e deixou de pôr em prática o que com perseverança teria redundado provavelmente em um feliz sucesso; porque alguma fibra do seu coração morreu para o futuro.
E se esse fenômeno se repete sucessivamente numa mesma pessoa, comprometendo diferentes núcleos de sua personalidade, o seu espírito vai, pouco a pouco, se anquilosando; vai sofrendo um endurecimento progressivo. As fibras da alma, uma a uma, — a intelectual, a afetiva, a profissional, a social, a religiosa... — vão ficando paulatinamente esclerosadas... e por dentro nos deparamos — ainda que só tenha dezoito anos — com a alma de um homem velho. A alma enrugada, murcha e passada de um velho caduco.
Cada vez em que uma pessoa aninhasse no seu coração um sentimento de derrotismo, de incapacidade, de pessimismo, deveria escutar uma voz íntima que lhe dissesse, num murmúrio de confidências: estás ficando velho!; cada vez que abrigasse e assimilasse um pensamento de autocompaixão, um complexo de inferioridade, um triste saudosismo, deveria voltar a escutar a mesma frase: estás ficando velho!
Cada lamentação, cada mágoa, cada rancor, cada queixa que incorporamos negativamente à nossa personalidade é como um centímetro a mais que faz crescer a nossa corcunda de velhos. Uma corcunda que nos pesa nas costas do passado e que nos impede de correr para os projetos do futuro.
Li, há tempos, uma interessante crônica na "Folha de São Paulo". Numa cidadezinha do interior uma professora estadual enviuvou de um conhecido vereador chamado Tobias, a quem amava muito. Os amigos do vereador fizeram uma "vaquinha" e deram de presente à viúva um austero busto de madeira com a figura de Tobias, que foi colocado solenemente na sala. Todos os dias a moça podia ser vista depositando flores na tumba do seu amado Tobias. E eis que começou a aparecer no cemitério um outro viúvo, triste e enlutado, que perto da professorinha chorava também o seu amor perdido. As coincidências se repetiram. Fizeram amizade. A professorinha um belo dia foi seguida pelo seu triste companheiro de aflições até a casa onde ela morava. Foi convidado a tomar um cafezinho. Na sala encontrou o visitante o rosto de Tobias que o fuzilava com o seu olhar. As visitas se reiteravam. A amizade crescia. Mas entre os dois havia algo que os distanciava: era o olhar severo de Tobias. Um dia Maria — a empregada — disse que não podia fazer o café porque faltava lenha (a cozinha naquela casa antiga do interior evidentemente tinha fogão a lenha). Faltando lenha não haveria café; faltando café a conversa não se justificava... de repente a empregada ouviu uma voz cava que saía do fundo da garganta da professorinha:
"Maria, racha o Tobias"!
Que disse à senhora? Que faça lenha com o busto de Tobias?
"Isso mesmo!", repetiu de forma incrivelmente decidida a professorinha: "Racha o Tobias!"
A partir daquele momento a sombra agourenta de Tobias desapareceu... A amizade virou namoro... e o namoro, casamento.
Hoje se pode ver nessa cidadezinha do interior um casal muito feliz que todos os dias à tardinha dá um passeio à beira do rio, acompanhado de uma criança, o seu filhinho, que alegremente corre por todas aquelas campinas.
Essa história ficou para mim como um símbolo.
Poderíamos perguntar: qual é o seu "Tobias"?; qual é a sombra que paira na sua vida?; que mágoa, que decepção, que medo, que derrota o prende ao passado?; que complexo, que nostalgia, que rancor, que frustração o impede de correr agilmente para o futuro?
Racha o "Tobias!", deveríamos ouvir gritar a nossa consciência.
Se queremos ser jovens não podemos carregar os mortos do passado. Jesus nos diz no Evangelho: "deixa que os mortos enterrem aos seus mortos; vem e segue-me" (Mt 8,22).
Seguir o Senhor, livres dos mortos do passado — liberados do peso da nossa corcunda — ligeiros como os atletas, correndo livremente para o ideal do nosso futuro.
Racha o "Tobias"!, o "Tobias" que o está tornando um velho decrépito, e passa a viver livre dos fantasmas do passado.

Mas para viver assim é preciso aprender a se renovar, ou melhor, aprender a tirar das quedas impulso e dos fracassos experiências.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...