quinta-feira, outubro 13, 2016

A criança e a religião

Por Dalmazio Mongillo, prefácio de “O potencial religioso da criança”,
de Sofia Cavalletti.


   O homem que vive em comunhão com Jesus Cristo reconstrói a própria vida, começa a ouvir e saborear a palavra que lhe fala sobre Jesus e que foi por ele pronunciada; sente-se chamado, empenhado, de maneira pessoal, a assumir a responsabilidade, juntamente com os outros, sair do estreito círculo da preocupação de si alargar os horizontes da solidariedade, inventar iniciativas para que os homens se transformem em “novas” criaturas, descobrindo a alegria de crescerem como família de Deus (cf. Ef 2,20).
   O amor dos homens em Jesus Cristo, quando secundado e não sufocado (cf. Mt 25,25), dilata os horizontes do espírito, estimula, conscientiza, responsabiliza, empenha, induz a “perder” (cf. Lc 9,24; 17,33; Mt 10,39), isto é, a doar, transmitir a vida na qual nos descobrimos transformados; contrasta estilos de dominação e de marginalização, esvazia ambições de poder, leva ao crescimento da família, ao bem dos homens.
   Em Jesus Cristo, o homem percebe que nem sempre qualquer estilo de existir é vida; o é, na verdade, aquele no qual as criaturas começam a amar como ele amou (cf. Jo 13, 23). A vida cresce quando se torna dom; desenvolve-se quando é compartilhada. Há um único caminho para penetrá-la e é vivendo nele o mistério de sua existência; viver como ele viveu sem opor resistência ao fato de ele nos alimentar como galhos de sua videira (cf. Jo 15, lss.), ovelhas de seu rebanho (id. 10, lss.). A vida só pode ser conhecida se for vivida e a única maneira de vivê-la é compartilhá-la.

   Aqueles que não dificultam este impulso conseguem discernir o caminho para secundá-lo e concorrem para induzir outros a conviver a própria feliz experiência (cf. 1 Jo 1, 1-5).
Ficar, ser cristão significa viver em Jesus Cristo a vida de Deus e convivê-la, compartilhá-la com todos os filhos de Deus. Viver como cristãos e viver em koinonia são sinônimos. Não se pode ficar cristão sozinho, prescindindo de Jesus Cristo e da família daqueles que vivem nele e dele. A vida cristã é caminho de comunhão entre os homens em Jesus Cristo. Nasce em comunhão com outros crentes, cresce e se desenvolve com o crescimento da comuhão entre os crentes, entra em crise quando esta enfraquece e se torna asfixiante; ela não pode ser obtida por geração espontânea”, nem tampouco pode ser cultivada “in vitro”.
   Quando medito sobre este problema me lembro da articulação dos elementos com que Jesus qualificava a si mesmo “eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6): é o caminho para a “vida”, a verdade sobre a vida e sobre o caminho; a vida que sustenta no caminho para a verdade plena (cf. Jo 16,13). Ele não apenas vivifica: transforma-se em nascente de vida (cf. Jo 7,38), leva a reconhecer e fortalecer os vínculos de comuhão com aqueles que nele vivem, fortalece para ultrapassar os conflitos que atrasam ou comprometem o crescimento da vida, o conhecimento da verdade, o discernimento do caminho. Aqueles que compartilham da esperança na qual são salvos caminham juntos, reconhecem-se vivificados na própria nascente, chamados a compartilhar a mesma beatitude.
   Nesta perspectiva penso a catequese: ela nada mais é que aprender a viver na família de Deus, crescer junto, compartilhando a mesma vida e reconhecendo com viva gratidão o Amor no qual se é amado. Significa permitir que nos amem e salvem; alimentar o desejo do Pastor, permanecer em seu Amor, redescobrir as condições e as exigências da vida em comunhão, apoiando-se na procura do caminho para realizá-la. Desenvolve-se continuamente com a experiência descrita em 1 Jo 1,1-5. Eu a qualificaria como a concelebração em que uma parte do povo de Deus em Jesus Cristo, reconhece o Pai, descobre-se amada e inserida no caminho da vida que leva cada um a se tornar, juntamente com os outros, sujeito de iniciativa, capaz de acolher e doar, consciente das próprias responsabilidades, conhecido, chamado, acolhido, rei, profeta, sacerdote (cf. Tb 2, 5ss.) que ouve, fala, coopera na construção da família em profunda união de vida com o Pai.
   A “celebração da catequese’’ é crescimento na fé operante na caridade (cf. Gl 5, 6); participa dela quem a acolhe e a vive na escuta, na adesão, que introduz no circuito vital da comunicação do Ágape.
  A experiência descrita por Sofia Cavalletti confirma, sem nenhuma possibilidade de equívocos, esta simultaneidade de dar e receber, de escuta e de anúncio, que se vive na comunidade que está unida no Pastor. Os seus dados mais surpreendentes referem-se à criança, que, na realidade, quando se sente acolhida por pessoas que vivem no Ágape, se abre e se expande em liberdade, deixa-se envolver, abandona as resistências e as defesas, participa com espontaneidade da obra do Mestre. A sua situação originária é a que terá de cultivar e na qual deverá ser encontrada para ser acolhida como filha do Reino (cf. Mt 18, 3).
   A catequese é tanto mais autêntica quanto mais aqueles que a vivem e dela participam fazem a experiência, cada um na própria condição, da alegria de se reconhecerem unidos na mesma vida, encaminhados no conhecimento amoroso da mesma verdade. Neste itinerário, cada um, com deveres diferenciados, louva o Pai, ouve e contempla o seu mistério, manifesta e compartilha tudo aquilo que experimenta em si, acolhe a chamada para transformar a vida para que seja digna do homem. Nela certamente o concelebrante mais amado é a criança. Contrariamente a tudo o que se pensa, a criança tem o dom de insuspeitas capacidades de koinonia; tem uma específica “receptividade”, uma co-naturalidade simples, clara, com o amor de Deus em Jesus Cristo.
   O catequista deve reconhecer esta atração que o Pai exerce sobre a criança (cf. Jo 6,44), cultivar suas sementes e, nesta delicada atenção, ele mesmo crescer em humanidade redimida. O reconhecimento do Pai em Jesus será tanto mais intenso quanto mais viva for a comunhão na qual a pequena família, no respeito do caminho de cada um, se acolhe, se reconhece, se constrói Igreja; vive reunida no nome do Senhor (cf. Mt 18,20), abre-se à solicitude com relação à realidade na qual está inserida. Na família de Deus, as pessoas crescem quando não opõem resistência à obra do Pai, aprendem a conhecê-lo, distinguem sua voz, apoiam a sua obra, participam do bem, no respeito dos tempos de crescimento e na salvaguarda das prerrogativas de cada um.
   O anúncio cristão não se dá onde as verdades são proclamadas verbalmente, mas lá onde é vivido por pessoas unidas na mesma comunhão (cf. 1 Jo 1, 1-5). A validade da experiência que Sofia Cavalletti apresenta parece-me fundamentar-se nesta osmose vital que une e transforma a pequena comunidade na qual o anúncio se verifica, é acolhido, vivido, comunicado. Ela evidencia como as condições do anúncio cristão correspondentes à estrutura da criança satisfazem suas exigências de espontaneidade, naturalidade, partilha.        Não se trata de uma nova metodologia, em substituição a outras; a sua “novidade” está na inspiração de onde trai sua origem e na qual devem ser lidas as iniciativas que ela traduz e exprime.
   Quem fosse tentado a repor sua eficácia no fato de ter proferido a “parábola” certa deveria lembrar o que já afirmaram Agostinho e Tomás: até mesmo o conteúdo do Evangelho seria mortífero se o Espírito não falasse ao coração. Quem julgasse que estamos nos centralizando sobre o espaço reservado à “criatividade” da criança, deveria verificar que o fruto melhor deste “caminho” não é uma mais intensa inventiva, mas a paz, a alegria profunda do encontro com Jesus, o abrir-se da criança à escuta, a delicadeza da relação que ela consegue instaurar com o Pai, a capacidade de amar. Não quero desvalorizar nem tampouco minimizar os elementos metodológicos, mas tenho certeza que a nascente de tudo deve ser procurada na sintonia profunda, na atmosfera de mistério, que se libertam na koinonia entre as crianças que vivem na atração do Pai e quem a reconhece, a apóia, porque ele também se deixa contagiar e compartilha dela. A Igreja se constrói e cresce na acolhida da atração do Pai que provoca a dócil, espontânea receptividade da criança e a discreta, delicada intervenção do catequista.
   Para não descaracterizar a obra-prima de Deus e não criar uma desilusão a mais, é necessário destacar, claramente, que a catequese da criança é “contemplação alegre” da obra do Espírito no coração dos pequenos que ele ama, e, portanto, é respeitosa atenção aos caminhos que apoiam seu crescimento para não perturbar o diálogo entre o Espírito e a Esposa.
   Não se trata de estar atentos, mas de participar, de compartilhar: o anúncio, a escuta, a oração, o estímulo para personalizar, são insubstituíveis. É respeitosa atenção que leva a ficar à margem no momento oportuno, para deixar espaço ao diálogo com o Mestre interior e não perturbar o seu desenvolvimento.
Tampouco se trata de acostumar as crianças a fazerem gestos, a dizerem palavras, mas sim de levá-las a fazerem a experiência “tátil”, “vivida”, da relação com o Pastor, consigo, com as outras ovelhas, com o rebanho; de apoiá-las quando se conscientizam da existência das ovelhas perdidas e dos mercenários e, portanto, da conflitualidade e da fraqueza. “Tocar” o Pastor, as ovelhas, o rebanho é a experiência da sacramentalidade da fé. Nasce e cresce quando o homem, na comunidade que acredita, entra em relação com o Pastor que salva; experimenta a delicadeza de sua mão que toca e acaricia; acolhe o seu estímulo para transmitir o dom do amor. Na fé, também, o homem conhece a realidade que ele toca, com a qual se familiariza. Com o Pastor que nutre na Eucaristia, fala na Escritura, apóia no caminho da justiça e da comunhão, os medos se atenuam, as responsabilidades se esclarecem, o homem realiza a verdade toda luz. E o Pastor não é objeto de estudo ou de pesquisas, é amor que deve ser amado, alimento que deve ser ingerido, sangue que deve ser acolhido na circulação da própria existência, é beleza a ser contemplada, palavra a ser ouvida, vida a ser compartilhada, corpo que deve ser levado a crescer (cf. 1 Jo 1, 1-5).
   Nos sinais através dos quais entra em contato conosco, nos transforma, nos torna Igreja, “sacramento” capaz de cultivar, favorecer a koinonia misteriosa, que faz da criatura um filho na casa do Pai. A fé é vida e a vida se gera, transmite-se na família que vive dela. O anúncio nos torna ouvintes; dá ouvidos e olhos para ouvir e ver; nasce e cresce em Jesus Cristo “autor e consumidor da fé” (Hb 12,2) que, através da comunidade dos Apóstolos (cf. 1 Cor 4, 15: “Sou eu quem vos gerou em Cristo Jesus através do Evangelho”), vive nas famílias reunidas em seu nome, nas pequenas porções de sua Igreja.
   O anúncio que alimenta a fé não é fato verbal, é continuidade da obra do Senhor que quis as coisas, mencionou-as, chamou-as, e elas existiram, foram (cf. Gn 1, 1-21); é fruto de amor que gera quando é doado, quando é expresso, dado, com as palavras e os gestos que o veiculam, que o extravasam de um coração que se doa na iniciativa de deixar-se envolver.
   Uma indefinida variedade de álibis perturba o avançar deste “caminho”; aprisiona-se nas areias movediças de cerebralismos que atrasam a entrega ao Amor. Ajudar-se a revelá-los, a dissipá-los, é responsabilidade de todos. A experiência de Sofia Cavalletti, colhida em sua inspiração profunda e atuada nas formas em que se exprime, ajudará a percorrer muito caminho no amadurecimento de um estilo de catequese que faz avançar no “caminho de Deus”. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...