sexta-feira, setembro 23, 2016

Onde um gato é um gato

Gustavo Corção, “A descoberta do outro”, p. 54-59.


Este capítulo dá uma ideia da insanidade a que chegamos num mundo de ilusionismo e prestígio. Se um indivíduo anunciasse que ia fazer uma série de conferências, com documentações e projeções, para demonstrar como achara o endereço de sua própria casa ou recuperara a lembrança do nome de sua mãe, é pouco provável que tivesse sala. No contrário talvez achassem algum encanto; seria considerada interessante a narração acidentada do extravio e das curiosas consequências da desmemorização. Os romances que giram em torno da vida fracassada têm esse atrativo que ninguém mais encontra no Romance da vida recuperada.
A prestidigitação também se baseia no mesmo fenômeno. O teatro se enche para ver o mágico tirar ovos dos narizes porque todo o mundo sabe pertinazmente que um ovo é maior que uma fossa nasal. A ciência e a técnica são outras tantas prestidigitações, e é nesse sabor equívoco de mentira e trapaça que as plateias se deliciam quando o físico escamoteia um piano inteiro e apresenta em seu lugar um enxame de elétrons ou um sistema de equações diferenciais. Todos sorriem com alta finura diante de tal comunicado, justamente porque sabem que piano é piano.
Ora, este capítulo encerra uma história simples dentro da qual um gato é um gato. À primeira vista isto parece um dado imediato do senso comum, e de fato o é; mas no meu caso foi uma recuperação, um encontro com o nome das coisas, através dos filandrosos meandros do critério científico. Como foi um pouco súbito, poderei ser acusado de estar fazendo também a minha mágica. Num certo sentido foi mágica: no sentido que tinham as coisas na primeira infância, quando tudo era mágica. Mas minha prestidigitação consistirá em buscar os ovos debaixo da galinha.

O leitor talvez se tenha esquecido de Fred. Na dispersão de meus amigos comunistas ou nietzschistas ficara-me Fred, um aferrado materialista que praticava a biologia. Convicto de que à ciência caberia a última palavra, ele dizia sempre, em matéria de política ou religião, que qualquer conclusão era prematura. Recomendava-me a espera de uns cinquenta e poucos séculos para decidir se eu tinha uma alma. Não me recordo exatamente do número de séculos, mas era suficientemente dilatado para me deixar melancólico. Meu amigo, entretanto, não podia transigir: — Nós somos os peregrinos da ignorância...
Às vezes animava-me mostrando a aceleração vertiginosa dos últimos tempos. Visse eu os progressos na genética, considerasse os últimos trabalhos em endocrinologia, pensasse um pouco no microscópio eletrônico. Era evidente que estávamos entrando num trecho íngreme da curva do progresso e seria possível, talvez, poupar uns cinco ou seis séculos na decisão dos chamados problemas espirituais. Os estados, se compreendessem melhor o problema do mundo, abririam verbas maiores para os laboratórios, em vez de perderem tempo em intrigas internacionais.
Fred não era tão simples que acreditasse numa era de absoluto sob o controle da ciência, mas afirmava uma era do erro sob aquele controle. Em outras palavras, ele guardava a mentalidade que eu mesmo trazia para o mundo quando levantei os olhos do galvanômetro e tinha do erro um conceito anti-trágico subordinado ao probabilismo e às fórmulas de Gauss. O mais era má vontade e trapaça.
O principal agora, nesta idade de trevas — dizia o meu amigo — era que o deixássemos trabalhar sem fazer barulho cá fora, nos corredores da política e da religião.
Era um apóstolo do critério científico. Onde esse critério se aplicasse havia uma parcela, uma cintilação de verdade; onde não se aplicasse havia somente essa coisa grossa de que é feita a vida caseira. Fred já tinha em esboço algumas teorias, que apresentava com reservas, mas que já indicavam soluções para os problemas graves do sexo. Tirara-as da biologia, é claro, e depurava-as de todos os elementos convencionais da moral transitória. Nessas teorias via-se uma enorme diferença entre o caso do homem e o da mulher. O primeiro representava a prodigalidade na natureza, o segundo a sua- avareza. Em todo o cosmos era nítido esse dualismo tremendo: de um lado a exuberância, do outro a economia. Existem astros de mais, mas cada um segue órbitas de uma absoluta poupança de energia. Daí meu amigo concluía que o Cosmos era um imenso par acoplado num ato de geração e que tudo na natureza girava em torno desses dois princípios, um solar e outro telúrico.
O homem era o macho solar, semeador cósmico, dispersador magnânimo, carvalho altivo a sacudir sementes; e seria insensatez prender essa imensa potencialidade à avareza de um útero. Biologicamente, o homem está não somente dispensado da fidelidade, mas obrigado à poligamia. Tudo lhe é permitido. E é por isso que não exige de mais no tipo e na beleza, contentando-se com um certo nível. Acima desse nível serve qualquer uma. “Questa o quella.”
Já na mulher seria tudo diferente. Ela é o princípio telúrico. É avara; foi feita para guardar, para agasalhar e nutrir. Leva um mês a preparar o seu pé de meia hormonal e por isso, biologicamente, seria indigno que o fosse esbanjar pelas ruas. Ninguém gasta razoavelmente o salário de um mês numa gravata. Por isso, a mulher está obrigada à fidelidade e também por isso ela é exigente, tem ressonâncias delicadas, exige um certo tipo e deve ter um homem só. A sociedade burguesa, com suas convenções e com a dependência econômica da mulher, estabelece a mentira na base do problema porque a decência exige que se atribua ao homem a escolha enquanto a mulher fica parada e passiva. Desforra-se então com a astúcia para procurar, além do casamento burguês, um adultério libertador...
A teoria de Fred ia longe em consequências práticas, como se depreende desta pequena amostra que reproduzo de memória, mas devo declarar que na continuação das aplicações não deu bom resultado. Sua mulher não compreendeu a extensão científica e não se convenceu das vantagens da doutrina, resultando tudo numa separação dilacerante com o cortejo de misérias que se lê nos jornais todos os dias. A mim também, devo confessar sinceramente, não me agradava em demasia, apesar de estar do lado vantajoso: aquele solarismo parecia-me fatigante, uma vez que devesse observar escrupulosamente os seus corolários.
Mas o caso que desejo agora contar não tem relação com a vida privada de meu amigo, prende-se somente à ideia que ele tinha do critério científico.
Um dia, por motivos que me levariam por caminhos alheios à economia desta história, tive de aprender a técnica de descerebrar um bicho para poder atingir uma ponta de nervo. Fui procurar Fred em seu laboratório e pedi-lhe que me mostrasse a operação praticamente. Ele começou por uma série de explicações preliminares no fim das quais, virando-se vivamente para o servente, como é seu modo, disse:
João, traga-me um gato.
Poucos minutos depois o servente voltou com o gato e meu amigo pôs-se a riscar com o dedo a cabeça do bicho antes de anestesiá-lo, para me mostrar os primeiros elementos da técnica. Ora, nesse momento fiz uma descoberta tão portentosa, e tão alvoroçado fiquei, que mal aprendi o resto. Até hoje não sei descerebrar um gato, mas em compensação sei melhor.
Tive a alegria do sujeito que descobre de repente o truque do mágico, o fio oculto, e que se convence que as coisas afinal de contas são o que são. Naquele momento exato em que Fred tomou o gato e desvencilhou as unhas que o bicho cravava em seu avental, eu vi uma linha divisória entre a sua vida e a sua obra, entre o que ele vivia e o que ele dizia, entre a sua ciência e uma sabedoria antiga. Tudo isso aconteceu porque me achei formulando a mais simples das perguntas:
Como sabe ele que aquilo é um gato?
Veja bem, leitor. Ele tomara o bicho, com um gesto perfeitamente normal, caseiro, nada biológico, um gesto de receber, de se servir, semelhante ao que fazemos a cada instante, tirando um livro da estante ou cortando um pedaço de pão.
— Mas como sabia ele que aquele animal era um gato? Onde estaria o critério científico de sua convicção?
Ora, meu caro leitor, ele o sabia do mesmo modo que você sabe, que nós sabemos; do modo como ficamos sabendo em pequenino quando um dia nosso pai apontou um bicho de pelo lustroso, cauda longa e olhar semicerrado, e deu-lhe o nome de gato. Sabia que o gato era gato por tradição. E aceitava esse modo, esse gato, essa garantia de seu pai, de seu tempo de menino, para então, a partir de toda essa enormidade, iniciar sua minudência técnica. Recebia de outras mãos um gato inteiro, pronto, total; começava por confiar no servente, que por sua vez também aprendera a distinguir os gatos na mesma escola antiga e passiva.
Naquele momento preciso, Fred passava da sabedoria a respeito de gatos para a ciência a respeito do córtex dos gatos. O critério científico só aparecia depois de um imenso depoimento familiar, era um trabalho de buril na ponta de um obelisco. Nem isso; a imagem foi mal escolhida porque dá ideia de uma desproporção apenas, e deixa sempre a esperança de ser possível burilar o obelisco em alguns séculos. Na verdade, quem precisasse de um critério rigorosamente científico para reconhecer cada coisa, acabaria precisando de um também para dar bom-dia à sua mãe, e é fácil imaginar a extremidade a que seria conduzido esse indivíduo.

Alguém poderá objetar, dizendo que há reconhecimentos mais científicos do que esse que tomei para exemplo. Um gato é por demais caseiro, rondou qualquer infância com sua asma e sua astúcia; qualquer criança sabe que não deve puxar o rabo do gato. Suponhamos então que nossa experiência em vez de gato precisasse de um ornitorrinco. O animal é mais preciso, mais raro e não se aninhou no colo de nossa mãe. Mas o naturalista reconheceria o ornitorrinco por ter visto sua imagem num livro de figuras. Por mais evoluído que seja, o zoólogo não se livra de sua infância representada na lembrança de um bicho de verdade ou numa estampa; e não importa muito se esta foi vista aos quatro ou quarenta anos porque uma estampa é sempre vista com olhos de criança.

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