sexta-feira, setembro 09, 2016

O que é a vida interior?

Robert de Langeac, “Princípios de vida interior”


A vida interior é uma comunhão consciente e constante com o ato pelo qual Deus se conhece e se ama. É uma participação na própria felicidade de Deus, da qual nos dá como um reflexo, quer em todas as faculdades, quer apenas nas faculdades superiores, quer mesmo, unicamente, nas maiores alturas da alma.
Meu Deus, tu estás no fundo da minha alma. Se eu soubesse ir até esse ponto, encontrar-te-ia. Quando será isso? No fundo de mim, estás tu. Liberta-me, recolhe-me, isola-me, atrai-me, transforma-me, toma-me. Faz-me entrar em ti; faz-me ver com os teus olhos; ver-te; amar com o teu amor; amar-te; sentir a tua felicidade; saborear-te; permanecer em ti, para te ver, amar, bendizer e louvar para sempre.
A vida interior é um movimento contínuo e consciente da alma que se volta para Deus presente nela por Jesus Cristo Nosso Senhor, e se esforça por se unir a Ele, possuí-lo e alegrar-se n'Ele.
Consiste em sermos conduzidos pelo interior, em sermos alimentados de Deus pelo próprio Deus e sempre no mais íntimo da alma. Mas também é preciso, na medida do possível, deixarmo-nos conduzir e alimentar pelo exterior.
Tender para a união divina, sem aspirar a ela.

Permanecer dócil nas mãos de Deus, não se prender a nada. Absolutamente a nada, que não seja Ele. Não nos ocuparmos senão das coisas com as quais Ele quer que nos ocupemos e na medida em que Ele o quiser. Procurar o que mais lhe agrada, seja onde for, sempre e prontamente. É a verdadeira liberdade e é, também, a alegria e a paz. É, ainda e sobretudo, o verdadeiro amor. Pode-se chegar a atingir esta união. Santa Teresa definiu-a: “uma disposição pura e desprendida de todas as coisas da terra, em que já não existe nenhuma tendência contrária à vontade de Deus, em que o espírito e o coração estão conformes a esta divina vontade, libertos de tudo, totalmente ocupados em Deus. Em que não há o menor traço de amor-próprio, nem de nenhuma coisa criada”. Que programa! Por que não o adaptar? Por que não tentar humilde, mas resolutamente, realizá-lo? É verdade que é superior às nossas forças, mas Deus é bom e terá piedade da nossa fraqueza, ficará comovido com os nossos esforço e estender-nos-á a mão. Adveniat regnum tuum[1]. A vida interior propriamente dita pode considerar-se como uma verdadeira penetração, cada dia mais perfeita e mais consciente, da alma por Deus e de Deus pela alma. Deus no mais íntimo da alma, a alma no mais íntimo de Deus. Deus e a alma conhecendo-se mutuamente, até ao âmago. Deus e a alma amando-se profundamente, dizendo-o sem cessar, de mil maneiras, e, ao mesmo tempo, provando-o. Deus e a alma, sem nunca se separarem e ocupando-se um com o outro, Deus e a alma possuindo-se plenamente, saboreando-se de uma maneira inefável, a alma tornando-se o paraíso de Deus, Deus fazendo-se, já neste mundo, o paraíso da alma, e, tudo isso, ainda, aumentando dia a dia, desmedidamente. É a verdadeira vida interior. Si scires donum Dei...[2] (...)
A humanidade santa do Senhor, que nunca se deve separar da sua divindade, é o caminho. Tentemos atingi-la através da Santíssima Virgem: quando a alma não consegue manter-se ao nível da divindade, devemos descer à santa humanidade e à Santíssima Virgem e recomeçar novamente. (...)
A vida interior tem as suas alegrias legítimas, que são uma participação nas próprias alegrias de Deus. Em geral (salvo nas horas de abandono aparente), quanto mais desprendidos, mais desinteressados formos, quanto mais intimamente estivermos unidos a Deus e ocupados só com ele, mais as saborearemos. Não é necessário procurar estas alegrias de maneira explícita, basta procurar Deus, já que a verdadeira alegria, a alegria espiritual, sobrenatural, não é outra coisa senão a consequência normal da posse do Bem de Deus. É o repouso no bem possuído, mas agora com uma espécie de conhecimento desta mesma posse. (...)
Uma alma generosa deve estar na disposição de não saborear Deus, se Ele assim o quiser, desde que, bem entendido, ela o possua! É talvez o mais heroico dos sacrifícios, quando é sincero. A separação depende só de Deus, e creio que é rara. Deus quer fazer-nos felizes, e o mais cedo possível.




[1] “Venha o vosso reino.”
[2] “Se conhecêsseis o dom de Deus.” (Jo 4,10)

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