segunda-feira, setembro 12, 2016

O amor e o compromisso da liberdade

Karol Wojtyla, “Amor e responsabilidade”, p. 128-132.

 
Só o conhecimento da verdade sobre a pessoa torna possível o compromisso da liberdade a seu respeito. O amor consiste no compromisso da liberdade: é um dom de si mesmo, e “dar-se” significa precisamente “limitar a própria liberdade para vantagem de outro”. A limitação da liberdade poderia ser em si mesma qualquer coisa de negativo e de desagradável, mas o amor faz com que seja, pelo contrário, positiva, alegre e criadora. A liberdade está feita para o amor. Se o amor não a usa, se não a aproveita, torna-se precisamente algo negativo, dá ao homem a sensação de vazio. O amor compromete a liberdade e cumula-a de tudo o que por natureza atrai a vontade: o bem. A vontade tende para o bem e a liberdade é uma propriedade da vontade; eis porque dizíamos que a liberdade é feita para o amor: graças a ela, de fato, o homem participa do bem. Pela mesma razão, a liberdade ocupa um dos primeiros lugares na ordem moral, na hierarquia das virtudes, como os bons desejos e as boas aspirações do homem. O homem deseja o amor mais do que a liberdade: a liberdade é um meio, o amor é um fim. Mas deseja o amor verdadeiro, porque só sobre a base da verdade é possível um compromisso autêntico da liberdade. A vontade é livre, e ao mesmo tempo “deve” procurar o bem que corresponde à sua natureza; é livre na busca e na escolha, mas não é livre da necessidade de buscar e de escolher.
Todavia, a liberdade não admite que lhe seja imposto um objeto como um bem. Ela mesma quer escolhê-lo e afirmá-lo, porque a escolha é sempre afirmação do objeto escolhido. Assim, o homem que escolhe a mulher afirma com isso o valor dela, mas é importante que seja o valor da pessoa e não só o seu valor sexual. Aliás, este último impõe-se por si mesmo, ao passo que o valor da pessoa permanece na expectativa da afirmação e da escolha. Por isso, na vontade de um homem que ainda não cedeu às paixões, mas conservou intacta a sua interior limpidez e frescura, geralmente se desenvolve uma luta entre a tendência sexual e a liberdade. A tendência tenta impor o próprio objeto e o próprio fim, procura criar um fato consumado interior. Não usamos aqui o termo “tendência sexual” na sua plena acepção, como a definimos no capítulo anterior; aqui esta palavra quer apenas significar certas manifestações dessa tendência, graças às quais os valores sexuais sujeitam a sensualidade e a afetividade do homem, e por aí dominam a vontade. Quando a vontade cede à atração sensual, nasce a concupiscência. O afeto livra-o do seu caráter carnal e “consumidor”, conferindo-lhe o de um desejo da pessoa de sexo diferente. Contudo, enquanto a vontade ceder só ao que atrai os sentidos e os sentimentos, a sua própria contribuição criadora no amor não poderá evidenciar-se.

O amor de vontade aparece só no momento em que o homem compromete conscientemente a sua liberdade com respeito a outro ser humano enquanto pessoa, pessoa cujo valor reconhece e afirma plenamente. Um tal compromisso não consiste sobretudo em desejar com ânsia. A vontade é uma potência criadora, capaz de extrair de si mesma o bem para dá-lo e não só de assimilar um bem já existente. O amor de vontade exprime-se sobretudo no desejo de bem para a pessoa amada. O fato de desejar a pessoa para si não revela ainda a potencialidade criadora da vontade, e nem sequer constitui o amor no sentido positivo do termo. Por natureza, a vontade quer o bem, o bem infinito, isto é, a felicidade. Tendendo para ele, procura uma pessoa e deseja-a para si enquanto bem concreto, capaz de trazer-lhe a felicidade. O homem e a mulher desejam-se reciprocamente com ânsia e nisto consiste precisamente o amor de concupiscência. Contribuem para isso os sentidos e os sentimentos. Mas o amor, que eles ajudam assim a formar, dá uma ocasião imediata à vontade, orientada por natureza para o bem infinito, isto é, para a felicidade, de querer aquele bem não só para si mesma, mas também para outra pessoa, sobretudo aquela que, graças aos sentidos e aos sentimentos, é o objeto da concupiscência. Aqui é onde se evidencia uma tensão entre o dinamismo da tendência e o dinamismo típico da vontade. A tendência faz com que a vontade anseie e deseje uma pessoa por causa dos seus valores sexuais, mas a vontade não se contenta com isto. É livre, e, portanto, capaz de tudo desejar em relação com o bem absoluto, infinito, com a felicidade. É precisamente esta faculdade, esta potencialidade natural e nobre, que ela compromete com respeito à outra pessoa. Deseja para ela o bem absoluto, infinito, a felicidade, e com isto compensa interiormente o fato de desejar para si uma pessoa de outro sexo, paga o seu resgate. É evidente que entendemos a palavra “tendência” sempre na sua acepção parcial. Mas a vontade faz mais do que lutar contra a tendência; encarrega-se, ao mesmo tempo, no amor esponsal, daquilo que constitui o seu fim natural. Sabemos que o seu fim é a existência da humanidade, em concreto a existência de uma nova pessoa, do bebê, fruto do amor do homem e da mulher unidos em matrimônio. A vontade dirige-se para esse objetivo, e, procurando alcançá-lo, procura ampliar também a sua tendência criadora.
Deste modo, o verdadeiro amor, aproveitando o dinamismo natural da vontade, esforça-se por introduzir nas relações entre o homem e a mulher uma nota de desinteresse radical, a fim de libertar o seu amor da atitude de gozo (nas duas acepções do termo). Nisto consiste também aquilo a que chamamos a “luta entre o amor e a tendência”. A tendência quer sobretudo tomar, servir-se de outra pessoa; o amor, pelo contrário, quer dar, criar o bem, tornar feliz. Bem se vê, de novo, quanto o amor esponsal deve estar impregnado daquilo que constitui a essência da amizade. No desejo do bem infinito para o outro “eu” está o germe de todo o ímpeto criador do verdadeiro amor, ímpeto para o dom do bem às pessoas amadas para torná-las felizes.
É o aspecto “divino” do amor. Com efeito, quando uma pessoa quer para outra o bem infinito, quer para ela Deus, porque só Ele é a plenitude objetiva do bem e só Ele pode satisfazer o homem com essa plenitude. Pela sua relação com a felicidade, isto é, com a plenitude do bem, o amor humano toca em certo sentido a Deus. É verdade que “plenitude do bem” e “felicidade” muitas vezes não são entendidas explicitamente assim. “Eu quero a tua felicidade” significa para muitos: “Quero aquilo que te tornará feliz, mas não me preocupa agora o que é a felicidade”. Só as pessoas de fé profunda dizem uma à outra explicitamente: “A felicidade que te desejo é Deus”. Os outros não concluem o seu pensamento, como se deixassem neste caso a escolha à pessoa amada: “O que te tornará feliz, é o que tu mesmo desejas, aquilo em que tu vês a plenitude do teu bem”. Contudo, toda a energia do amor se concentra ao exclamar: “Sou eu que quero isso para ti”.

A grande força moral do amor verdadeiro consiste precisamente neste desejo da felicidade, do verdadeiro bem para outra pessoa. É essa força que faz com que o homem renasça graças ao amor, que lhe dá um sentimento de riqueza, de fecundidade e de produtividade interiores. Sou capaz de desejar o bem para outra pessoa, portanto sou capaz de desejar o bem. O amor verdadeiro faz-me crer nas minhas próprias forças morais. Ainda que eu seja “mau”, o amor verdadeiro, à medida que desperta em mim, obriga-me a procurar o bem verdadeiro para a pessoa à qual é dirigido. Assim, à afirmação do valor de outra pessoa corresponde a do valor próprio do sujeito, graças ao qual, e não unicamente por causa dos valores sexuais, nasce nele uma necessidade de desejar o bem para outro “eu”. Quando o amor alcança a sua verdadeira grandeza, confere às relações entre o homem e a mulher, não só um clima específico, mas também uma consciência de absoluto. O amor é realmente o mais alto valor moral. Mas é necessário saber transferir as suas dimensões para a vida cotidiana. Aqui surge exatamente o problema da educação do amor.

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