quinta-feira, setembro 15, 2016

Jesus Cristo, verdadeiro Deus, verdadeiro Homem

Karl Adam, “Jesus Cristo”, p. 7-31.



            No esboço de Demônios, Dostoievski faz seu herói dizer a propósito da fé: “Ela se re­duz, no fundo, a esta pergunta angustiosa: um ho­mem culto, um europeu dos nossos dias, pode ain­da crer, pode acreditar na divindade de Jesus Cris­to, Filho de Deus? — Porque, em suma, toda a fé está nisso”.
            Assim, para Dostoievski, a fé se reduz à fé na divindade do Cristo, e o problema que hoje nos angustia consiste em indagar se o homem do sé­culo XX pode ainda ter essa fé.
            (...) O mistério do Cristo, com efeito, não consiste, pro­priamente falando, em ser ele Deus, mas em ser, ao mesmo tempo, Deus e homem. O prodígio in­audito e incrível não está somente no fato de res­plandecer na face do Cristo a majestade de Deus, mas que um Deus seja, ao mesmo tempo, um homem; que um Deus se tenha mostrado sob a for­ma de um homem.
            Na mensagem cristã, não se trata somente da ele­vação da criatura até o nível de Deus, de uma glorificação, de uma divinização da natureza hu­mana; trata-se, antes de tudo, de uma descida de Deus, do Verbo divino, até à forma de escravo, fa­zendo-se pura e simplesmente homem.
            Tal é a substância da mais autêntica mensagem cristã: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14). “Ele se aniquilou, tomou a forma de servo, fez-se semelhante aos homens e procedeu co­mo um homem” (Fl 2,7). Portanto, afirmar que Cristo é um homem verdadeiro, completo, que, embora de todo unido substancialmente à divindade, não deixa por isso de possuir, não só um corpo humano, mas uma alma humana, uma consciência humana, uma vontade humana, sentimen­tos humanos, em uma palavra, que foi – no sentido mais verdadeiro e mais completo – como um de nós, tudo isso é tão fundamental como afirmar, por outro lado, a sua divindade.

            É mesmo, considerando-a bem, desta afirmação: o Cristo é verdadeiramente homem, que o dogma de sua divindade recebe seu caráter, seu conteúdo especificamente cristão, que o diferencia essencial­mente de todas as apoteoses pagãs e de todas as divinizações de salvadores.
            A crença em um “Verbo divino” criador não era inteiramente estranha aos cultos pagãos. Nas mito­logias pagãs, se encontra mesmo, bastantes vezes, a crença de que um Deus se pode manifestar de for­ma visível, humana. Somente em todas essas encarnações pagãs o humano não conserva a sua signi­ficação, seu valor próprio. Não passa de um invólucro sem consistência real, sob a simples aparência que se mostra a divindade. O docetismo[1] é essencial a todas essas mitologias.
            Tudo é diverso no mistério cristão da Encarnação. A humanidade do Cristo não se limita a uma apa­rência; não serve unicamente para tornar Deus sensível; não é só a forma visível sob a qual Deus vem a nós, o ponto em que a divindade se faz perceptível aos nossos olhos carnais. A humanidade do Cristo tem sua realidade, seu valor próprio, inde­pendente, do mesmo modo que seu papel igualmente especial e independente. É a via, o meio, o sacra­mento de que Deus se serve para se aproximar de nós e nos salvar.
            Em toda a história das religiões nada se encontra­rá análogo a esta doutrina cristã fundamental da salvação pela humanidade do Cristo.
            A obra redentora do Cristo consiste em que Aque­le que estava primitivamente junto de Deus se fez verdadeiramente homem e, assim, nessa e por essa humanidade, se tornou a fonte de toda benção. Ne­nhum, entre os apóstolos, viu mais nitidamente essa verdade e lhe deu maior relevo do que São Paulo. Tomando a natureza humana, o Filho de Deus se uniu à espécie humana, entrou na humanidade, tor­nou-se parte dela – exceto no pecado. Feito assim homem, tornou-se nosso irmão e até o pri­mogênito entre os irmãos, não somente um homem no meio dos outros, porém o Homem, o novo ho­mem, o segundo Adão. Assim, tudo o que esse homem novo pense e queira, tudo o que sofra e tudo o que faça, pensa e quer, sofre e faz conosco; nossos destinos estão correlacionados. Ainda mais: sua vida, sua morte, sua ressurreição, se rea­lizam em comunhão real conosco. Vendo bem as coisas, seus pensamentos, suas ações, seus sofrimen­tos e sua ressurreição tornam-se nossos.
            Nossa redenção se operou pelo fato de estar­mos incorporados a esse Deus-homem em toda a extensão de sua realidade: do presépio à cruz e até a ressurreição e à ascensão.
            Essa incorporação se faz pela misteriosa eficácia do batismo, que penetra no fundo de nós mesmos e não age somente sobre o nosso pensamento, nos­sa vontade e nossa ação, mas sobre a própria in­timidade de nosso ser, para nos transformar.
            Ser resgatado, cristão, é ser introduzido na comu­nhão de sua vida, de seus sofrimentos, de sua ressurreição; é formar com o primogênito de nossos irmãos, com a cabeça desse corpo, com a totalidade de sua obra redentora uma unidade real, uma comunidade nova, um corpo único, sua Plenitude e seu Todo.
            O Salvador é o homem que, graças às suas relações misteriosas e essenciais com Deus, graças à sua identidade de pessoa com o Verbo Eterno, toma e carrega em si a humanidade a resgatar.
            Ele é a unidade viva dos resgatados, o princípio su­premo sobre que se funda e se fecha o círculo dos resgatados. É assim que a encarnação do Verbo Eterno é o verdadeiro ponto central do cristianis­mo. Para nós, para os homens do tempo, o nó vital do cristianismo, a bem dizer, não é precisamente a esfera da Divindade, o Verbo Eterno nele mesmo, é esse homem, esse Jesus, que, pela união e, em virtude dessa união essencial com Deus, se tornou, por sua morte e sua ressurreição, nosso Mediador, nosso Redentor, nosso Salvador.
            São Paulo põe bem em relevo esta verdade central do cristianismo, quando proclama com certa sole­nidade: “Só há um Deus e, do mesmo modo, um só Mediador entre Deus e os homens, o homem Je­sus Cristo, que se entregou pela nossa redenção” (1Tm 2,5s). A epístola aos hebreus apela para as imagens litúrgicas, a fim de descrever com mais pre­cisão essa mesma ideia central do cristianismo. “Te­mos em Jesus, o Filho de Deus, um Sumo Sacerdote excelente que penetrou os céus... temos um Su­mo Sacerdote que se compadece de nossas enfer­midades; para parecer conosco, sentiu-as todas, me­nos o pecado” (Hb 4,14s).
            Enquanto permanecemos no tempo, não é o divi­no, a majestade divina no Cristo que deve dominar para nós, para a nossa piedade.
            Dizemos: no Cristo. É evidente, com efeito, que o Deus infinito, o Deus Trindade, aquele que chama­mos nosso Pai, o criador do céu e da terra, é e deve continuar o objeto único da piedade cristã, do culto cristão. “É sempre ao Pai que a nossa oração deve ser dirigida”. Esta é a regra fundamental da li­turgia cristã, formulada por Santo Agostinho. Che­gou a hora em que “os verdadeiros adoradores de­vem adorar o Pai em espírito e em verdade” (Jo 4,23). Somente essa adoração do Pai se faz pelo Cristo nosso Senhor. O Deus feito homem não é o último termo, o verdadeiro objeto de nossa adoração: é o Mediador. Não é ele, é por ele que, em geral, a Igreja cristã adora. “Por teu Servo”, reza a Igreja primitiva. “Em nome de Jesus”, suplica são Paulo. “Pelo Cristo nosso Senhor”, exclama ainda a nossa liturgia. Mais ou menos todas as orações litúrgicas da Igreja não se dirigem diretamente ao Cristo, mas a Deus Pai pelo Cristo. Mesmo aque­las que invocam diretamente o Cristo não se dirigem ao Verbo Eterno só, mas ao Mediador, ao Ver­bo feito homem.
            Ponto decisivo em que o caráter verdadeiro do mistério cristão se mostra em todo o seu brilho e que permite discernir imediatamente todas as deformações da mensagem cristã.
            O verdadeiro caráter de fé cristã, dizemos, se en­contra neste paradoxo: Aquele que é, na verdade, o Filho de Deus, é também um homem. A sublimidade, a audácia da mensagem cristã consiste pre­cisamente em ver e pôr sempre, ao mesmo tempo, no nosso Cristo todos os traços contraditórios des­tes dois componentes: Deus e o homem.
                         (...)
            Pelo pecado de Adão, nossa humanidade, em ger­me em Adão, perdera suas relações particulares com Deus, a plenitude de Deus que havia nela, a realidade tão positiva da vida sobrenatural. Uma espécie de enfraquecimento, de aniquilamento de nossas forças morais e religiosas era a triste conse­quência do pecado original, sob o lamentável im­pulso de uma oposição incessantemente crescente. Esse impulso tende ao extremo limite das possibilidades a que chegaram os demônios e os condenados, isto é, ao estado em que o ente humano não possui mais, em matéria de realidade positiva, senão aquela que o impede de recair definitivamente no nada e que, pela vontade conservadora de Deus, o mantém jus­tamente no limite do ser. Tal era, antes do Cristo, a existência humana, arrastada sob o peso do pe­cado original até aos extremos limites possíveis do de perecimento e do estiolamento.
            A nova existência que o Cristo traz a todos os seus irmãos consiste em serem incluídos, elevados na sua santíssima humanidade. Assim, o pecado desapa­rece de nossa natureza. Homem e pecado não são mais a mesma coisa. Doravante não são mais a ruína e a morte a própria essência de nosso ser; pelo contrário, será o crescimento, o desenvolvi­mento, até atingirmos a plenitude do Cristo. Na realidade humana do Primogênito entre seus ir­mãos, recebemos desta sorte novo princípio de vida, novo meio vital, uma realidade positiva que nos liga a Deus. O Cristo é nosso Salvador, não por­que seja Deus ou porque seja homem, mas por­que é Deus e homem, o homem novo, o novo Adão, o primogênito entre seus irmãos.
            (...)
            Falando desse Deus feito homem, não perdendo jamais de vista sua natureza divina nem sua natureza humana e pondo sempre cada uma delas em seu verdadeiro lugar, teremos a certeza de nos achar­mos no ponto central, na própria essência do cris­tianismo.



[1] Docetismo é o nome dado a uma doutrina cristã herética do século II, que negava a existência do corpo material de Jesus Cristo, afirmando ser apenas espírito. (N.R.)

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