segunda-feira, setembro 05, 2016

Como ter presença de Deus?

Francisco Faus, “Para estar com Deus”, p. 77-80.


O poço e o túnel

O teólogo belga Jacques Leclecq usa uma comparação su­gestiva. Diz que muitos são como um homem que vive agachado no fundo de um poço, estreito, escuro e cheio de lama. Não é um poço alto. Bastaria que fizesse o esforço de ficar em pé, de apoiar as mãos na borda do poço, retesar os músculos e erguer-se até colocar a cabeça para fora. Veria, então, um panorama maravilhoso: cam­pos verdejantes, caminhos, riachos, montanhas ao longe, cidades... Uma paisagem que poderia ser para ele um mundo novo, um mun­do maravilhoso, se se decidisse a sair do poço.
Quando alguém começa a ter presença de Deus, sai do poço; ou então, sai de dentro de um túnel, como dizia São Josemaria, mostrando, além disso, em que consiste este “mundo novo”: «Alguns passam pela vida como por um túnel, e não compreendem o esplendor e a segurança e o calor do sol da fé» (Cami­nho, n. 575).
É preciso sair do nosso “túnel” carente da perspectiva de Deus, esse túnel que só nos permite enxergar o mundo ao nível do chão, nas suas dimensões mais planas e rasteiras, e passar a con­templar a vida sob o sol da fé, que dá luz e sentido novo, divino, a tudo. Ter presença de Deus é, simplesmente, manter abertos os olhos da alma. Então Deus faz com que compreendamos:
- o “esplendor” do sol da fé. Com a luz de Deus, as pessoas, as coisas e os acontecimentos ganham uma dimensão nova, muito mais profunda, bonita e alegre. Até mesmo o sofrimento pode ga­nhar o brilho e as cores do amor e da alegria.
- a “segurança” do sol da fé. Com essa luz de Deus, a alma se enche de confiança, de segurança. Aconteça o que acontecer, po-demos afirmar com convicção o que dizia São Paulo: Se Deus é por nós, quem será contra nós? ... Quem nos separará do amor de Cristo?... Tudo contribui para o bem daqueles que amam a Deus (Rom 8, 28.31.35).
- o “calor” do sol da fé. Com a fé na presença de Deus, pode­mos sentir aquele aconchego que, mesmo na proximidade de sua Paixão e Morte, Jesus sentia: «O Pai que me enviou está comigo. Ele não me deixa sozinho, porque eu sempre faço o que é do seu agrado» (Jo 8,29). É o calor do carinho de Deus, nosso Pai, que a fé nos faz experi­mentar. Entendemos então o “mandamento da alegria” que dava São Paulo: Alegrai-vos sempre no Senhor! Repito, alegrai-vos... O Senhor está próximo. Não vos preocupeis com coisa alguma... (Fil 4,4-6).

A respiração da alma


Muitas vezes, «vivemos como se o Senhor estivesse lá longe, onde brilham as estrelas, e não consideramos que também está sem­pre ao nosso lado. E está como um Pai amoroso... Necessário é que nos embebamos, que nos saturemos de que Pai, e muito Pai nosso, é o Senhor que está junto de nós e nos céus» (Caminho, n. 267).
Como conseguir “embeber-nos” dessa realidade, na prática?
Penso que nos pode ajudar uma imagem expressiva: a dos mergulhadores. Muitos séculos antes de que fossem inventados os equipamentos de mergulho, com suprimento de oxigênio e outros acessórios, já havia mergulhadores em todos os continentes. Por exemplo, os pescadores de pérolas do Mar Vermelho. Ficavam dentro da água durante um bom tempo. Necessariamente tinham que sair à tona com uma frequência determinada para respirar, sob pena de morrerem afogados.
Nós, que passamos os dias mergulhados em mil coisas, no imediatismo das urgências diárias, muitas vezes nos esquecemos de “emergir para o ar de Deus”, com o perigo de ficar espiritualmente asfixiados. Precisamos muito de “subir” constantemente para “res­pirar” o ar de Deus.
Como conseguimos isso? Sempre que lutamos por lembrar-nos dEle mediante atos explícitos de presença de Deus (e também de Nossa Senhora, dos Santos, dos Anjos). Consistem em breves pensamentos, desejos, aspirações e orações, impregnados de fé e de amor, que servem como “elevadores” da alma para Deus.

Uma condição prévia

Os atos de presença de Deus pressupõem uma condição: não estar submergidos de tal maneira no mundo, que a pressão das águas nos esmague a alma. É o que acontece quando vivemos o dia a dia de costas para Deus, sepultados sob uma massa imensa de preocupações e ocupações pessoais, de sonhos, imaginações, projetos e satisfações, que estão concebidos e vividos totalmente à margem de Nosso Senhor.
É justamente para evitar esse perigo que os santos nos incentivam vivamente a esforçar-nos por viver na presença de Deus.
Para consegui-lo, devemos levar a sério as práticas espirituais diárias ou periódicas que já comentamos até aqui. Elas deixam a alma “aquecida” – como se “aquecem” os atletas antes de competir –, pronta, desperta, disposta a dar com leveza o “salto” para Deus no meio das tarefas e da agitação do dia.

Ajudados por essa disposição da alma, será mais fácil que consigamos empregar os meios – tradicionais na espiritualidade católica – que servem para manter, aumentar e melhorar a presença de Deus durante o dia.

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