sexta-feira, setembro 02, 2016

A menina de Lourdes

Francis Trochu, “Bernardette Soubirous”, pág 9 a 12.


  
Numa terça-feira, 9 de Janeiro de 1844, na igreja de São Pedro de Lourdes[1], na região de Bigorre, o deão em pessoa, padre Dominique Forgue, batizava uma menina — a primogênita de François Soubirous e de Louise Castérot, cujo casamento se celebrara nessa mesma igreja havia precisamente um ano. Quem poderia pensar então que o batistério onde a apresentaram seria mais tarde conservado e venerado por sua causa[2]?
Nascera no dia anterior, domingo da festa da Epifania, pelas duas da tarde, ao som de vésperas. Durante todo o batismo, não cessara de chorar — o que muito entristeceu seu primo co-irmão e padrinho, Jean-Marie Védère, um colegial de onze anos que seus pais tinham trazido de Momères de Tarbes, com a sua irmã Jeanne, de catorze anos[3].
O pai da criança apercebeu-se, durante a cerimônia, de que o pároco lhe dera o nome de Marie-Bernarde. Uma vez na sacristia, decerto apoiado pela madrinha e tia, Bernarde Castérot, fez notar ao padre que, na véspera, a tinha feito inscrever na «mairie» sob o nome de Bernarde-Marie. O padre Forgue, inspirado, manteve todavia no registro paroquial Marie-Bernarde, como se tivesse na verdade a intenção premeditada de pôr a recém-nascida sob a proteção da Virgem[4].
Na realidade, a teimosa madrinha nunca cedeu: a sua afi­lhada só num futuro muito distante encontrará o seu belo nome marial: em Lourdes, embora fique a chamar-se Bernarde, designá-la-ão, todavia, pelo carinhoso diminuitivo de Bernadette.

*

Ao som alegre dos sinos — todo o filho legítimo tinha direito, na Bigorre, a um repique gratuito — o humilde cortejo desceu em direção à casa natal.

Era um moinho, o chamado moinho de Boly, segundo o nome de um médico inglês que o possuirá no séc. XVII[5]. E aparentemente não era um dos menores entre os seis moinhos que, ao norte de Lourdes, se dispunham sobre o Lapaca, afluente do Gave[6]. É certo que a moagem ocupava a maior parte do edifício — dependência para o cereal, dependência para as mós, resguardo da roda—; para habitação possuía apenas três divisões além da cozinha[7].
Aproximando-se da ombreira da porta, Jean-Marie Védère, que seguia atrás de Soubirous, pai de Bernadette, teve, apontando para a sua afilhada, este comentário desiludido: «Esteve sempre a chorar, há de ser ruim!»[8].
Mas a frase perdeu-se no alegre bulício das vozes: do exterior davam os parabéns à jovem mãe que esperava a sua Bernadette. Com os olhos inundados de lágrimas felizes, Louise Castérot beijou imediatamente a filha na fronte, venerando assim a graça do seu batismo.

*

O lugar de Lapaca estava isolado do «burgo», como então se dizia, e a municipalidade não queria saber dele. Um caminho pedregoso descia ao longo dos moinhos, e se havia, para uso dos peões, uma prancha sobre o riacho, os cavalos e as viaturas tinham de o atravessar a vau — o que não era completamente destituído de perigo durante o degelo.
Do moinho de Boly divisava-se o mesmo que dos outros moinhos: um renque de árvores e de arbustos alcandorados sobre as curvas do Gave, pois o castelo e o seu penhasco solitário enchiam quase todo o horizonte. «Fortaleza desacreditada», em 1844, o castelo de Lourdes era apenas um posto militar e um depósito de munições. À tarde, a sua sombra gigantesca lançava a noite sobre o valezinho do Lapaca. Acaçapadas em semicírculo ao redor desta acrópole, as ruas do burgo, as suas ruelas e os seus becos estreitos e emaranhados, com as suas casas cinzentas e baixas, não davam sinal de si. Na época em que começa esta história, um escritor anotava na sua agenda de viagem estas precoces palavras:

Próximo de Lourdes, as colinas tornam-se mais nuas e a paisagem mais grave. Lourdes é somente um amontoado de telhados descorados, de uma melancólica tinta cor de chumbo, empilhados por baixo da estrada[9].

Taine, através das suas lunetas, não devia ter divisado ali muito próximo, nem as ondas verdes do Gave franjadas de espuma, nem as frescas verduras dos pequenos vales, onde as águas límpidas cintilavam por todo o lado; para ele, o quadro encantador dos Pirenéus listrados de neve desaparecia, igualmente, na distância nevoenta.
Lourdes contava pouco mais ou menos 4.000 almas. Simples cabeça de comarca do cantão, ainda que custasse a Argelès, a cabeça de comarca do distrito, detinha o intimidativo privilégio de possuir, além do tribunal de paz, um tribunal correcional com os seus juízes, procurador imperial, advogados, meirinhos, um comissariado de polícia, e naturalmente um posto de polícia com prisão. 


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[1] Esta igreja, que tinha por titular o apóstolo São Pedro, foi demolida (1902-1903). Erguia-se sobre o local do atual Monumento aos Mortos da Grande Guerra. 

[2] A pia batismal foi transferida para a nova igreja de Lourdes, dedicada ao Sagrado Coração. 

[3] Jean-Marie Védère entrará alguns meses depois para o colégio de Tarbes com a intenção de se tornar sacerdote. Mas, aos dezoito anos, alistar-se-á no exército. A sua mãe era uma tia de Bernadette, Thérèse Soubirous, que desposara um padeiro de Momères, Michel Védère. Foi para sua casa que em 1842, depois de enviuvar, se retirou o avô de Bernadette. 

[4] Eis aqui o assento de batismo, tal como o redigiu o pároco: “No ano de 1844, a 9 de Janeiro, foi batizada Marie-Bernarde Soubirous, filha legí­tima de François Soubirous e de Louise Castérot domiciliados em Lourdes, por mim, padre Forgue, pároco de Lourdes, abaixo assinado: padrinho Jean-Marie Védère, madrinha Bernarde Castérot. 

FORGUE, pároco” 


(Por felicidade, o registro paroquial do ano de 1844 não desapareceu no incêndio que se verificou na sacristia em 1 de Janeiro de 1896). 

Eis aqui o registro de nascimento: 

“No ano de 1844, a oito do mês de Janeiro, às sete horas da manhã, perante mim, Jean-Baptiste Claverie, delegado pelo Administrador para desempenhar as funções de oficial do registro civil de cidade de Lourdes, cantão de Lourdes, departamento dos Altos Pirineus, compareceu François Soubirous, de trinta e cinco anos de idade, moleiro, domi­ciliado em Lourdes, o qual nos apresentou uma criança do sexo feminino, nascida ontem às duas horas da noite, no moinho chamado de Boly no Lapaca, do declarante e de Louise Castérot sua esposa, e à qual declarou querer dar o nome de Bernarde-Marie. A declaração e apresentação acima mencionadas foram feitas na presença de Jean Castérot e Jean Segot, de cinquenta e um anos, polícias domiciliados em Lourdes, e as ditas testemunhas assinaram conosco a presente ata de nascimento depois de feita a sua leitura, declarando o pai não saber escrever. 

Assinado: Seot, Castérot, Claverie” 

[5] O doutor Boly (ou de Boly), veio residir para Lourdes e casou-se aqui com uma lourdesa: Anne (de) Caubotte, a 19 de Junho de 1646. 

[6] O Lapaca, formado por dois outros cursos de água, desagua no Gave, próximo da atual ponte Saint-Michel. 

[7] O moinho de Boly sofreu posteriores transformações. Apenas subsiste a parte meridional e a galeria do primeiro andar, encontrando-se o resto absorvido por uma depen­dência do Hôtel de l'Ange Gardien, que dá para o «boulevard» de la Grotte. 

[8] En marge de l’histoire de Lourdes. Bernadette et Jeanne Védère. Notes intimes sur Bernadette et les Apparitions (Imprensa cisterciense Westmalle, Bélgica, 1933), pág 38. 

[9] Hippolyte Taine, Voyage aux eaux des Pyrénées, Hachette, 1855, pág 106.

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