segunda-feira, setembro 19, 2016

A dificuldade de ser simples

Raul Plus, “Simplicidade”, p. 64-70.


A simplicidade, em qualquer sentido, não é fácil para ninguém. Padre Faber identifica-a, na sua acepção mais compreensível, com a sinceridade cristã, e a faz consistir em três coisas: verdade para com nós próprios, verdade para com os outros, verdade para com Deus. E observa: “Cada uma destas três coisas é mais rara do que o cisne negro da Austrália”. 
A simplicidade é difícil por três razões, além de outras: primeira, porque originariamente somos dualidade; segunda, porque o mundo em que a nossa vida se passa é artificial e complicado; terceira, porque a educação espiritual, muitas vezes acanhada, leva mais ao atrofiamento do que à expansão.
Por natureza, somos compostos de corpo e alma, de matéria e espírito. Nascidos da mistura, temos grande dificuldade em sair dela; mais facilmente somos duplos do que simples; ao lado de tendências elevadas, temos aspirações banais. O anjo é, por natureza, puro espírito; nós somos espírito mergulhado em muita coisa que não é espírito. Podíamos converter-nos em anjos, mas nota-se que não convém fazê-lo indevidamente nem continuamente. Aliás, à falta de alguém que de fora nos informe, qualquer coisa dentro de nós nos avisa que “o animal” não está longe, como diz Pascal. Não dizemos “o animal” no sentido usado por Taine, o gorila feroz ou lúbrico, mas simplesmente o desejo animal, as inclinações egoístas, o egocentrismo, tudo o que é contrário às aspirações dos serafins e dos arcanjos.

E não somos somente “mistura”, mas também «campo de batalha». Além da dualidade, matéria e espírito, convém notar este fato tão dramaticamente gravado no mais íntimo do nosso ser: o pecado original com a sua cruel consequência, a concupiscência para o mal. A nossa natureza, tão bela quando saiu das mãos de Deus, porque era sobrenaturalizada e preternaturalizada, revoltou-se contra Deus. Em outras palavras: não éramos destinados a ser simplesmente humanos; Deus tinha-nos tornado participantes da sua própria vida, e para que esta vida divina fosse enxertada em nós com mais arte, fosse adaptada à nossa vida (se assim podemos dizer) com mais suavidade, havia-nos isentado não só da morte e do sofrimento, mas também da luta em nós entre as potências do bem e as do mal, coexistindo tudo em perfeita harmonia, obedecendo as faculdades inferiores (imaginação, sensibilidade) exclusivamente às faculdades superiores, a reta razão esclarecida pela graça. Mas veio a desobediência a Deus e, como consequência, o homem deixou de ser senhor de si mesmo. A imaginação e a sensibilidade tentarão dominar a razão, e esta luta será quase contínua. Mesmo que o homem chegasse a tornar-se senhor de tudo, faltaria ainda ser senhor de si próprio. Como dizia Jacques Rivière: “Tenho de me haver sempre comigo”.
Há temperamentos mais frios, mais equilibrados, menos apaixonados; e, em qualquer dos casos, Deus lá está com a sua graça. Mas adivinha-se o esforço que, a não ser que haja dons especiais, será preciso fazer para viver sempre com uma conduta absolutamente reta, evitar terrores inúteis, interpretar para o bem as atitudes do próximo, ter em Deus inteira fé, não fazer juízos, nem se deixar desnortear pelas pessoas ou acontecimentos, nem se fechar num constante “Assim seja”,
“Está bem”, “Que O Senhor seja louvado, e o resto não me interessa”...

Em segundo lugar, a simplicidade é difícil porque tudo à volta de nós é artifício, complicação, convenção.
Nos primeiros anos, conserva-se, durante mais ou menos tempo, conforme as almas e os meios, alguma coisa da candura da infância. Pouco a pouco, vem a adaptação ao ambiente em que se vive. Ouve-se a criada responder: “A senhora saiu”, e, todavia, há a certeza de que a dona está em casa. Depois duma visita, ouve-se criticar este e aquela, sendo que, há pouco, na conversa com as referidas pessoas, o pai e a mãe eram só açúcar e mel. No colégio veem-se companheiros que trapaceiam, tentam copiar, pedem significados para a tradução e a solução dos problemas; e os que não se prestam a este jogo são considerados maus companheiros. Na Universidade, para, nos dias proibidos, regressar do cinema à meia-noite ou à uma hora da madrugada, os mais viciados subornavam o porteiro de sua casa; nas aulas, passavam-se livros em segredo, e fingia-se que se tomavam notas, quando apenas se desenhava ou escreviam cartas. Isto são somente alguns de entre muitíssimos exemplos.
Como será possível comportar-se, na vida, de maneira diferente daquilo que foi vivenciado no período de formação? Os hábitos estão criados e a tentação é mais forte. Ainda que não haja grandes crimes, o que está irremediavelmente perdido, salvo algumas exceções, graças a Deus, é a perfeita retidão, a completa transparência da alma, a lealdade, a virginal simplicidade.
(...)
O mundo está sendo reconstruído. Procuremos a perpétua novidade na simplicidade. Não se trata de abolir as convenções prudentes e a polidez, infelizmente muito esquecida, mas unicamente o que é artificial. Que cada um se examine, e basta.
Reconheçamos que é preciso uma especial têmpera de alma para resistir ao ambiente; mesmo aqueles que, a princípio, tentaram lutar, mais cedo ou mais tarde deixam-se vencer, e depressa se nivelam com os outros. “A maior parte dos seres capazes de opinião independente, pôde escrever um autor, ultrapassam bem depressa o campo em que o convencionalismo é aborrecido e conformam-se, a princípio com repugnância e depois com satisfação, com o código das conveniências mundanas, que Steele definiu: ‘um meio de igualar sábios e tolos’”.
(...)

Há ainda uma terceira razão que explica como é relativamente rara a simplicidade, e por que se torna proveitosa sobretudo para alguns meios de piedade.
Dizem-nos os Atos dos Apóstolos (2, 46) que os primeiros cristãos serviam a Deus com alegria e simplicidade de coração. Tinham encontrado Deus; possuíam a fórmula autêntica da verdadeira vida; as riquezas do sobrenatural abriam-se copiosamente diante deles – viático insubstituível no meio dos sofrimentos deste vale de lágrimas. Tudo era céu: na terra, céu de graças; lá em cima, céu de glória, porque havia sempre a posse de Deus três vezes Santo. Reinava entre todos a caridade. Dizia-se: “vede como eles se amam!”
Animavam-se mutuamente à pureza que o batismo exigia, à paciência quando se expunham ao martírio e, se era preciso darem o seu sangue pela fé, iam alegres. Nunca tiveram a ideia de conceber o serviço de Deus como coisa complicada, uma sobrecarga de exercícios múltiplos; iam diretamente a Deus, aos seus irmãos, à autoridade, ao céu.
Certamente que eles dispunham de graças especiais, a que podemos chamar “os carismas do começo”. O “espírito” era tudo; quanto à “letra”, nem sempre determinada com exatidão e nem sempre a mesma em todas as comunidades, observava-se o melhor possível. Com o andar dos tempos, compreende-se, fixaram-se normas, não porque o dogma fosse acrescentado, mas porque, aumentando o número dos fiéis, foi preciso adaptar a vida espiritual às diferentes almas. Onde há multidão, baixa necessariamente o nível do escol; quando aumenta a quantidade, a qualidade corre o risco de baixar.
Alguns fiéis tornaram-se medíocres, outros contentaram-se com um cristianismo frouxo; algumas alterações à lei divina foram consideradas, aqui e ali, como uma consequência inevitável da fraqueza humana. (...) Quando se pensa que foi preciso um mandamento expresso para que os batizados recebessem, ao menos uma vez por ano, o Salvador na Eucaristia!...
Já não se falava ao povo cristão como se ele desejasse ser fervoroso, mas para que se esforçasse por sê-lo ao menos um pouco. Insistia-se nos temas temíveis: a salvação, a morte, o inferno, a tentação, convidando as almas a entrarem em si mesmas; para que se pudessem conter no meio da confusão do mundo, foi preciso insinuar métodos, multiplicar práticas e devoções. As almas fervorosas, que tinham menos necessidade desta pregação, tomaram para si o que era dito para o povo. Algumas compreenderam mal: do exame, que é coisa excelente quando praticado com inteligência e se mantém em certos limites, caíram no exagero da introspecção. Aqui e além, começou a grassar o escrúpulo, resultado da lamentável e ridícula complicação. Alguns, até muito equilibrados e generosos, viveram mais tempo sob o império do terror do que sob o regime do amor, e houve no mundo das boas almas uma quase revolução quando Santa Teresa do Menino Jesus restabeleceu o espírito de ampla confiança, a que ela chamava “o seu pequeno caminho”, e que deveria ser o grande caminho triunfal de todos os amigos de Deus.
Não se trata de pregar um cristianismo fácil, do qual seriam amputadas as exigências divinas; trata-se de dar ou restituir aos cristãos de boa vontade o verdadeiro espírito do Evangelho – espírito de paz, de abandono, de santa alegria, que liberte da máquina burocrática, das complicações embaraçosas e supérfluas.
Se a todos se pretende mostrar o cristianismo como ele realmente é, quer dizer, como qualquer coisa de esplendidamente atraente; se se pretende mostrá-lo principalmente às massas populares inimigas do artificial e do confuso, como uma mensagem vinda do céu para atrair as almas descristianizadas, é preciso sobretudo mostrar-lhes um desenho claro, de linhas arquitetônicas que subam alto no azul, não prejudicadas por construções posteriores; uma catedral de flechas esguias a apontar o céu, não estragada por ornatos inúteis ou remendos arbitrários de artistas de segunda categoria.
Tratando-se de almas mais perfeitas, não lhes façamos esquecer, com explicações complicadas, a beleza da verdadeira espiritualidade. Pensando certamente na palavra de São Paulo (Fp 2): “A característica dos filhos de Deus é a simplicidade”, dizia Mons. Ségur: “Nada é tão simples como a verdadeira piedade e a vida interior. É muito simples porque é divina, e os santos não são mais que filhos de Deus perfeitamente simples”.

Tenhamos como certo isto: só possui virtude completa aquele que, sobrenaturalmente, chegou a praticar com perfeição diante de Deus, do próximo e de si mesmo, a perfeita simplicidade.

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