quinta-feira, agosto 18, 2016

Um estudo dos caracteres

Apêndice do “Compêndio de Teologia Ascética e Mística” 
Adolphe Tanquerey, p. 774-780.


Estudo dos caracteres[1]

Falando do conhecimento próprio, dissemos que é útil, para melhor nos conhecermos, estudar os temperamentos e caracteres.
Muitas vezes confundem-se estes dois termos. Quando, porém, se distinguem, pode-se dizer que o temperamento é o complexo das tendências profundas que derivam da constituição fisiológica dos indivíduos; e que o caráter é o conjunto das disposições psicológicas que resultam do temperamento, enquanto modificado pela educação e os esforços da vontade e fixado pelo hábito.
É, pois, mais útil estudar os caracteres que os temperamentos; porquanto o que importa, sob o aspecto espiritual, é muito menos o temperamento do corpo que o caráter da alma. Os Antigos tinham aliás compreendido isto perfeitamente, visto que, ao descreverem os temperamentos, se atinham mais a notar as diferenças psicológicas que as fisiológicas.
Limitar-nos-emos a resumir o sistema de Heymans elaborado por J. Doncel, S. J. (Nouv. Revue Théologique, t. 65, pág 703-727 e 831-854).

O sistema caracteriológico mais antigo é o sistema grego dos quatro caracteres, sanguíneo, colérico, fleumático e melancólico.
Não obstante a discutibilidade da sua base fisiológica, é ainda o seguido pela maioria dos educadores e tem elementos de valor.
No séc. XIX, alguns psicólogos franceses tentaram uma nova construção, mais completa, mas que ruiu por falta de bases sólidas nos fatos.
Com o século presente aparecem os grandes sistemas caracteriológicos alemães, uns fundados sobre a biologia, como a de Kretschmer, que relaciona a estrutura do corpo e o caráter, ou o de Jaensch, que considera sobretudo a interpretação mútua das diferentes funções psíquicas; outros de índole mais filosófica, fundados num certo modo de encarar o mundo (Weltanschauung), como o de Spranger, que classifica os homens segundo os seus interesses culturais, e o de Klages inspirado nas ideias de Nietzsche.
O sistema que vamos esboçar de Heymans completando e pormenorizando com muita simplicidade o venerável sistema grego, parece preferível aos franceses, porque tem a base dos fatos, e aos alemães, porque tem o seu rigor científico: — é maleável e prático.
É a caracteriologia do senso comum. O seu autor, professor na Universidade de Groning, morreu em 1930 deixando-nos um sistema ainda não perfeitamente acabado, já notavelmente esboçado.

Material empírico

O sistema funda-se em fatos, fornecidos por dois inquéritos:
O l.º foi uma lista de 90 perguntas enviada a todos os médicos da Holanda, tendo por objeto o estudo dos problemas da hereditariedade psicológica.
O 2.º foi o estudo da biografia de 110 homens célebres de diferentes países, raças e épocas. Heymans pôde ainda consultar o inquérito sobre 3.000 jovens holandeses, cuja idade oscilava entre 12 e 20 anos.

Propriedades fundamentais dos caracteres

Ao folhear tal maço de papelada, H. fica surpreendido pela originalidade de combinação de traços característicos em cada indivíduo.
Segue o estudo e a impressão decresce: há um certo número de traços ou combinações que tendem a andar juntos, ou a agrupar-se em volta de outras combinações tipo — Os caracteres.
Como é que H. chegou à determinação destes caracteres? Procurando entre a multidão dos traços característicos alguns traços significativos. Tais são (os caracteres ou notas) as propriedades que se distinguem ao todo em três propriedades fundamentais:

1 — Emotividade é a maior ou menor facilidade com que uma dada situação desencadeia um fenômeno de ordem afetiva.
Suponhamos dois homens a quem anunciam um prêmio de loteria de 400 contos.
O l.º perde o norte, corre por todos os cantos da casa, esperneia de alegria, abraça todo mundo e nem consegue comer. É um Emotivo.
O outro declara-se muito satisfeito, pensa no que há de fazer do dinheiro (esmolas, títulos...) e se é Inglês, à noite no clube, falará disso aos amigos, caso venha a propósito. É um Não Emotivo.

2 — Atividade: é a maior ou menor facilidade que um indivíduo tem de pôr mãos à obra em vista de um fim determinado.
Suponhamos uma vaga num dos altos cargos da República. Há dois pretendentes:
O l.º multiplica-se em pedidos, em requerimentos em visitas a amigos dos amigos, de todos aqueles que podem dizer uma palavrinha: é um Ativo.
O 2.º em igualdade de desejos, limita-se a apresentar a sua candidatura: é um inativo.

3 — Função: Estamos habituados a ouvir falar de inconsciente ou subconsciente. H. fala analogamente de uma consciência periférica, estabelecendo assim duas consciências:
a) Consciência central, à qual pertencem todos os fenômenos psíquicos atuais;
b) Consciência periférica, à qual pertencem todos os fenômenos psíquicos que foram conscientes e que atualmente o não são, mas que em todo o caso, exercem na vida atual uma influência inconsciente.

Ex.:
Saio a passeio um dia, depois de um incidente desagradável. A paisagem, as palavras da conversa com o companheiro, são o conteúdo da minha consciência atual. Mas o companheiro nota que me falta a alegria, a boa disposição dos outros dias, e eu mesmo sinto-me mal sem saber porquê, talvez até sem pensar nisso. É o incidente desagradável que desde a minha consciência periférica exerce sobre a consciência central a sua função secundária.

Função primária — é, pois, a ação que os conteúdos da consciência exercem sobre o indivíduo enquanto se encontram na consciência central.
Função secundária — é a repercussão que esses mesmos conteúdos têm na vida do indivíduo depois de desaparecerem da consciência central.

Serão, pois, caracteres de função primária aqueles que vivem do presente, em que o passado perde rapidamente toda a influência perceptível.
Pessoas fáceis de consolar, inconstantes nas amizades, e que se deixam facilmente embalar pelas sensações e ideias novas.
De função secundária serão aqueles que vivem do passado, em que nada do que passa se perde, difíceis em esquecer os desgostos, constantes tradicionalistas.

Resumindo: classificam-se como emotivos ou não-emotivos os indivíduos segundo a frequência e intensidade das emoções tendo em conta as causas.
Como ativas ou inativos, segundo a frequência ou energia da sua atividade, tendo em conta os motivos.
Como de função primária ou secundária, segundo a repercussão do passado sobre a vida presente, tendo em conta a importância desse passado. É isto o que H. vai demonstrar, examinando correlações que existem, destas propriedades, para a fisionomia geral da vida cognoscitiva, afetiva e volitiva.

Correlações da emotividade:
Com a vida intelectual — não é o forte dos emotivos, mas seria exagerado afirmar, como se pretende, que estão na razão inversa. De fato, uma emoção superior supõe alguma cultura, e esta por sua vez supõe interesse, o qual seria impossível sem emotividade. É, portanto, a hipertrofia que a faz notar: — a hipertrofia da emotividade sobre à vida intelectual: — ou estimular, despertando interesse e concentrando a atenção, — ou perturbar, e isto de dois modos: parando a atenção ou destruindo-a — trabalho impossível; enchendo o espírito de preconceitos — trabalho inútil.

São em geral, não muito inteligentes, pouco conhecedores dos homens, pouco práticos, unitários e categóricos nos seus juízos, mas fáceis de levar e passivos se encontram uma personalidade que os impressione. Voltados para si são insubmissos e ambiciosos de comando. Numa situação momentânea, a emotividade presta grandes serviços: torna-os espirituosos, bons faladores e perspicazes.

Com a vida afetiva, uma emotividade forte exerce geralmente ação deficiente. Deixa o caráter demasiado tempo sobre a impressão das contrariedades. Fraca, produz um humor alegre, pouco ressentido e facilmente consolável dos revezes da sorte.

Com a atividade: Como para a vida afetiva, pode a emotividade servir de estímulo ou de paralisador.

N. B. — A atividade aqui significa vontade, conjunto de tendências, atividade-energia.
Os emotivos são mexidos, ocupados, impulsivos, fáceis em deixar as obrigações por trabalhos facultativos, aplicam-se às suas ocupações ordinárias por arremetidas. Sensíveis às mínimas dificuldades, encontram-se frequentemente indecisos ante o caráter definitivo de uma resolução.
Quanto às tendências dominantes, são frequentemente vaidosos e ambiciosos. Por outro lado, são compassivos, serviçais, filantrópicos até, bons para com os subordinados, cuidadosos na educação dos filhos, profundamente religiosos, francos, dignos de confiança em negócios, mas não em afirmações, porque são facilmente exagerados. Em política são extremistas. Nas conversas preferem falar das pessoas a falar das coisas. Estão pouco à vontade em sociedade, são distraídos e pouco corajosos.

Correlações de atividade:

1) Com a inteligência, o ativo é objetivo nos seus conhecimentos.
Voltado para o exterior, vive familiarizado com o real. Pensa metodicamente as possibilidades e as dificuldades; tem expediente e habilidade. É refletido, bom observador, bom conhecedor dos homens, tem vistas largas, compreensão rápida, juízos pessoais. Facilmente se encontram entre eles matemáticos, linguistas e até literatos. Têm facilidade de conversa e até de palavra, são afáveis e espirituosos.

2) Com a vida afetiva: Para que uma emoção seja duradoura, precisa ser alimentada pela atenção. Ora o ativo, sempre ocupado, quer em espírito, estudando os processos e dificuldades do seu trabalho, quer materialmente na sua realização concreta, não tem tempo para auscultar o coração. Por isso tempera fortemente a vida afetiva; em vez de a alimentar com a introspecção e comunicação, liquida-a com a atividade.
São geralmente bem-humorados, animados ou de humor calmo, igual. Apesar de apegados às recordações passadas, são abertos às ideias novas.

3) Com a vontade: Como a atividade o enche, não experimenta o vazio interior que se torna, no emotivo, terreno fácil para o desenvolvimento das tendências interiores. Voltado para o exterior, dá-se facilmente conta da existência dos outros; põe-se no seu lugar escapando assim ao egocentrismo dos inativos. É objetivo em toda a linha e guia-se por princípios superiores. É decidido, perseverante, confiado, digno de confiança e crédito. É bom para com os subordinados, filantrópico até ao sacrifício da sua própria bolsa, compassivo, serviçal e franco. É patriota, intrépido no perigo, amigo do lar, pontual.

Correlações da função secundária:
1) Com a vida intelectual: Com o espírito desembaraçado da repercussão do passado, o primário entra mais facilmente, mais em cheio numa questão e apreende-lhe facilmente todos os elementos. Como, porém, não tem passado, não relaciona, não julga. Por isso a sua compreensão é tão superficial como rápida.
O secundário precisa mais tempo para se dar conta de todos os dados do problema, mas em paga, a sua compreensão é mais profunda e pessoal. Aparece frequentemente, como intelectualmente mais dotado que o primário, o que se explica pela rotina causada pela falta de interesse e de imaginação.
O primário presta-se para concentrações momentâneas e intensas; é conversador, espirituoso, artista.
O secundário dá mais no estudo sistemático, em particular nas matemáticas.

2) Com a vida afetiva: Os secundários são de humor igual, inclinados antes para a depressão que para a melancolia. Os primários são de humor variável, ordinariamente alegres e cheios de animação, mas irritáveis e violentos.

3) Com a vida ativa: Quando for preciso tomar uma decisão, toda a experiência, todos os princípios concorrem. Depois, a vida moral do secundário distingue-se pela unidade e coesão, devido à sólida armação de princípios que a sustentam e dirigem.
Por isso, se se impõe uma mudança, esta será lenta e gradual.
A exigência de uma adaptação rápida não é para o secundário.
O primário não tem uma personalidade complicada a afastar para compreender os outros. Numa decisão, atende somente às circunstâncias presentes, por vezes acidentais. Por isso o seu ponto fraco é a falta de coesão na vida. Completamente absorto pelas impressões de momento, vibra imediatamente a uníssono com qualquer novo interlocutor.
Os secundários são geralmente calmos, regulares na sua atividade e persistentes em atacar e levar a cabo uma tarefa desagradável.
Os primários são móveis, trabalham às arremetidas e são fáceis em adiar.
Os primários ocupam-se mais nos tempos livres para escapar ao aborrecimento, à impressão de vazio interior.
O secundário, como tem ideias para ruminar, fica mais facilmente inativo.
Finalmente o primário é impulsivo, decidido, mas a primeira dificuldade que aparece desconcerta-o. O secundário é refletido, difícil em tomar resoluções e perseverante em as executar.

Tendências dominantes:

Os primários são mais inclinados às satisfações imediatas, mais frequentemente egoístas, não porque lhes seja indiferente o bem-estar dos outros, mas porque os seus interesses se lhes apresentam mais rápida e espontaneamente. Quando, porém, pensam nos outros, são de ordinário generosos. O mal é lembrarem-se dos outros pouco e tarde.
Os secundários, ao contrário, tendem para os prazeres mais duráveis e abstratos. São mais serviçais, mais compassivos. São reservados, tímidos, amigos do lar, sérios, pouco inclinados a rir e a criticarem-se.

Os oito caracteres:

Depois de enumerar os traços característicos que gravitam em torno das três propriedades fundamentais, vamos esboçar sumariamente a fisionomia geral dos diversos caracteres.
Quais são eles? — Os resultados de todas as combinações possíveis das três propriedades fundamentais: EMOTIVIDADE, ATIVIDADE, e FUNÇÃO SECUNDÁRIA; ao todo, oito.

Nervoso - Emotivo, inativo, de função primária.
Sentimental - Emotivo, inativo, de função secundária.
Sanguíneo - Não emotivo, ativo, de função primária.
Fleumático - Não emotivo, ativo, de função secundária.
Colérico - Emotivo, ativo, de função primária.
Apaixonado - Emotivo, ativo, de função secundária.
Amorfo - Não emotivo, inativo, de função primária.
Apático - Não emotivo, inativo, de função secundária.

Exemplos:

Nervosos: — Byron, Dostoievski, O. Goldsmiths, Hoffmann, Muset, Lenau, Poe, Rousseau (na juventude), R. Steel.
Sentimentais: — Amiel, Q. Bronté, Mme. Bronté, Kierkegaard, Maine de Biran, Malebranche, Robespierre, Rousseau (pelo menos na sua velhice).
Sanguíneos: — F. Bacon, Lessing, K. Maiser, Montesquieu, Murat, Mme. de Sévigné.
Fleumáticos: — Addison, Von Baier, Buffon, Darwin, Franklin, Gauss, Gibbon, Hume, Kant, Locke, os dois Mill, Tomás More, Renan, Taine.
Coléricos: — Danton, Dickens, Diderot, J. Hunter, Th. H. Huxley, Prudhon, W. Scott, Schelley, Mirabeau.
Apaixonados: — Carlyle, G. Eliot, Flaubert, Pourier, Gladstone, Lutero, Marat, Miquelângelo, Michelet, Napoleão, Newton, Nietzsche, Pascal, Pasteur, Swift, Zola. 





[1] DEBREYNE-FERRAND, La Thélogie Morale et les sciences médicale, Paris, 1884 pág 9-46; FOUILÉE, Tempérament et caractères, 1896; PAULHAN, Les Caractère et leurs lois de combinaison, 1897.

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