terça-feira, agosto 02, 2016

“Primeira vez que li a Summa”

Raissa Maritain, “As grandes amizades”, p. 165-171. 

Una est vera philosophia.” (S. Agostinho)
“E no entanto não há senão uma verdade.” (Henri Bergson)


O primeiro e admirável conselho que me deu o Padre Clérissac foi o de ler Santo Tomás. Enquanto Jacques trabalhava para Hachette e redigia os seus primeiros artigos, eu, presa pela doença e por isso mesmo dispensada de qualquer obrigação de ordem social, podia consagrar a maior parte do meu tempo à leitura e à meditação da Suma Teológica.
Nos dois últimos anos, desde o nosso batismo, o ponto de partida de todas as nossas reflexões, que se referissem à filosofia ou à vida — e para nós uma era sempre inseparável da outra — o ponto de partida era a fé de que vivíamos, e à qual não cessávamos de entoar louvores no nosso coração e de admirar o poder ordenador de todas as coisas. Tendo, provisoriamente, deixado de lado os filósofos, descansávamos numa neutralidade temporária, tendo feito tábua rasa das suas filosofias até mais amplo exame. E era uma delícia viver longe de seus debates e deixar que pouco a pouco a nossa razão humana se refizesse, ao sol das verdades eternas.
O futuro não nos inspirava receio algum, porquanto tínhamos a felicidade de conhecer, pela fé, verdades que inspiravam certeza tão penetrante quanto esta, apenas inferiores à intuição intelectual da divisão beatífica e à qual não se pode comparar a força de nenhuma intuição natural; verdades de tão pura e universal irradiação que nos pareciam atrair a si qualquer verdade, as parcelas das verdades contidas nos mais diversos espíritos, o fruto de qualquer conhecimento intuitivo.

Sentíamos que implantar a razão na fé, enxertá-la no tronco de Jessé era, não enfraquecê-la, mas fortificá-la, não escravizá-la, mas libertá-la, não desfigurá-la, mas restituí-la à integridade da sua própria natureza — da mesma forma que iluminar o que caminha às apalpadelas e nas trevas não é desviá-lo do seu próprio caminho, mas mostrar-lhe aquele que se propõe seguir.
Essa atitude de espírito permanecia, porém, mais filosófica do que teológica. Os princípios da Ciência do teólogo residem nas verdades divinamente reveladas e partindo delas que procura aprofundar os Mistérios pelos meios racionais, que dependem por sua vez de alguma filosofia. Ao passo que o filósofo encontra os seus próprios princípios na ordem da inteligência e da razão. Nessa ordem puramente natural raciocina certo ou errado à vontade. Na época a que nos referimos aqui estava-se em geral no período do disparate porque, pela negação idealista dos laços ontológicos que prendem a inteligência ao ser e à existência, exaltava-se exageradamente um conhecimento cujas natureza e legitimidade se havia, na realidade, destruído. Bergson atenuava isso, em parte, dando à intuição o que se arrancara da inteligência. Ajudara-nos assim, provisoriamente, mas, desde que recebêramos a fé e as certezas que lhe são próprias, nos encontrávamos diante de um novo problema: o das certezas de que a própria razão é capaz. A nossa atitude de espírito permanecia, pois, filosófica e não teológica. Não pensávamos, então, nem em aprofundar racionalmente os mistérios da fé, nem em deduzir das verdades reveladas, verdades congruentes menos universais: ansiávamos antes por saber quais as verdades de ordem filosófica universal contidas na serena afirmação das verdades da fé. E foram essas próprias verdades filosóficas que, antes de tudo, descobrimos na Suma Teológica, ou enunciadas ou subentendidas e em tudo presentes. As outras verdades mais preciosas e de natureza mais elevada só mais tarde seriam por nós percebidas. Aristóteles surgia agora na sua grandeza, assumia sua verdadeira posição graças a um teólogo inspirado.
Foi trêmula de curiosidade e de temor que abri pela primeira vez a Suma Teológica no “Tratado de Deus”. Não era a escolástica, como o diziam, um sepulcro de sutilezas já reduzidas a pó? E não iria o próprio Príncipe da escolástica atirar um pouco dessa poeira na fonte mesma da nossa fé nascente?
Desde as primeiras páginas compreendi a vaidade, a puerilidades das minhas apreensões. Tudo, aqui, era liberdade de espírito, pureza de fé, integridade do intelecto iluminado pela ciência e pelo gênio.
A serenidade do estilo aparentemente impessoal, a marcha tranquila da razão dando a cada palavra o seu sentido mais próximo da intuição intelectual de que se originara, e por isso mesmo a plenitude do seu saber, uma força espiritual quase angélica que permite a Santo Tomás condensar nas mais breves proposições inúmeras verdades que se prendem umas às outras segundo a própria hierarquia dos seres reais — tudo o que lia era para mim luz e foi com incessantes ações de graças que continuei essa leitura.
Ao escrever estas páginas revivo a emoção feliz desse primeiro contato com o pensamento de Santo Tomás. Era tanta a luz que me afluía ao mesmo tempo ao coração e ao espírito, que se apoderava de mim como que uma alegria paradisíaca. Orar, compreender, era para mim uma única e mesma coisa, uma provocava a sêde da outra e me sentia constantemente satisfeita. Lia também nessa ocasião Santa Gertrudes, beneditina alemã do século XIII; repetia freqüentemente uma das suas orações preferidas: “Glória a Vós, ó dulcíssima e muito benigna, ó muito nobre e muito excelente, ó muito alegre e muito gloriosa, ó resplandecente e sempre serena Trindade...”, e o texto de Santo Tomás coincidia maravilhosamente com esses louvores.
Essa primeira leitura da Suma Teológica foi para mim um dom puríssimo. Deu-me uma vez para sempre a certeza das verdades primeiras referentes' à inteligência e a alegria de senti-la capaz de levar os princípios da razão ao seio da noite estrelada da fé. Eu recebia o que podia receber, de acordo com a minha modesta capacidade, mas com plenitude. Os problemas haviam desaparecido — como acontece nos momentos de felicidade — para reaparecerem mais tarde. Mas, então, não seria eu que me esforçaria por resolvê-los, mas Jacques, filósofo por vocação.
Esse tempo tardaria um pouco a chegar. Falávamos muito sobre o que eu lia; mas Jacques, ocupado então com a redação do léxico ortográfico encomendado por Hachette, e com a dos seus primeiros artigos, a que mais o prendia, — só abordaria diretamente o estudo de Aristóteles e de Santo Tomás um ano depois. Os livros de Jacques, a começar pelo primeiro, que é a análise crítica do bergsonismo, mostram como lhe compreendeu os princípios e como construiu a sua própria obra filosófica. A Philosophie bergsonienne, porém, apareceu em 1913, e sobre ela falarei depois.
O meu grande privilégio terá sido de receber sem merecimento algum e sem nenhum esforço e receber de mão tão cara os frutos espirituais do seu trabalho, a que não poderia chegar sem o seu auxílio e a que, no entanto, aspirava com um profundo e vital desejo.
E assim fui cumulada de dons: vivi numa atmosfera de austeridade intelectual e de retidão intelectual, graças a Santo Tomás, graças a Jacques, e não posso escrever essas coisas sem chorar de confusão e de amor.

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