terça-feira, agosto 09, 2016

Dúvida e Fé – Situação do homem frente ao problema "Deus"

Joseph Ratzinger, “Introdução ao Cristianismo”, p. 9-11; 27-28.



Quem tentar falar hoje sobre o problema da fé cristã diante de homens não familiarizados com a linguagem eclesiástica por vocação ou convenção, depressa sentirá o estranho e surpreendente de semelhante iniciativa. Provavelmente depressa descobrirá que a sua situação encontra uma descrição exata no conhecido conto de Kierkegaard sobre o palhaço e a aldeia em chamas, conto que Harvey Cox retomou há pouco em seu livro A Cidade do Homem.
A estória conta como um circo ambulante na Dinamarca pegou fogo. O diretor manda à aldeia vizinha o palhaço, já caracterizado para a representação, em busca de auxílio, tanto mais que havia perigo de alastrarem-se as chamas através dos campos secos, alcançando a própria aldeia. O clown corre à aldeia e suplica aos moradores que venham com urgência ajudar a apagar as chamas do circo incendiado. Mas os habitantes tomam os gritos do palhaço por um formidável truque de publicidade para aliciá-los ao espetáculo; aplaudem-no e riem a bandeiras despregadas. O palhaço sente mais vontade de chorar do que de rir. Debalde tenta conjurar os homens e esclarecer-lhes de que não se trata de propaganda alguma, nem de fingimento ou truque, mas de coisa muito séria, porquanto o circo realmente está a arder. Seu esforço apenas aumenta a hilaridade até que, por fim, o fogo alcança a aldeia, tornando excessivamente tardia qualquer tentativa de auxílio; circo e aldeia tornam-se presa das chamas.
Cox conta esta estória como símile da situação do teólogo hodierno e vê a figura do teólogo no clown incapaz de transmitir aos homens a sua mensagem. Em sua roupagem de palhaço medieval ou de outro remoto passado qualquer, o teólogo não é tomado a sério. Pode dizer o que quiser, continua como que etiquetado e fichado pelo papel que representa. Qualquer que seja o seu comportamento e seu esforço de falar seriamente, sempre se sabe de antemão que ele é um clown. Já se adivinha qual o assunto de sua mensagem e se sabe que apenas está dando uma representação com pouco ou nenhum nexo com a realidade. Por isso pode ser ouvido sossegadamente, sem inquietar a ninguém com as coisas que afirma.

Sem dúvida existe algo de angustiante neste quadro, algo da angustiada realidade em que a teologia e formulação teológica de hoje se encontram; algo da pesada impossibilidade de quebrar chavões do pensamento e da expressão rotineiros e de tornar reconhecível o problema da teologia como assunto sério da vida humana. Contudo, talvez o nosso exame de consciência deva mesmo ser mais radical. Talvez tenhamos de reconhecer que esse quadro excitante – por muito verdadeiro e digno de consideração que seja – ainda simplifica em excesso as coisas. Pois, dentro dele, tem-se a impressão de que o palhaço, ou seja, o teólogo, é quem sabe perfeitamente que traz uma mensagem muito clara. Os aldeões, aos quais acorre, isto é, os homens sem fé, seriam, pelo contrário, completamente ignorantes, os que devem ser instruídos sobre o que lhes é desconhecido. E ao palhaço, em si, bastar-lhe-ia mudar de roupagem, retirar a maquilagem – e tudo estaria em ordem.
Mas, por acaso a questão é tão simples assim? Bastar-nos-ia um simples apelo ao aggiornamento, uma mera retirada da maquilagem e uma reformulação em termos de linguagem do mundo ou de um cristianismo arreligioso para recolocar tudo nos eixos? Bastará uma mudança espiritual ou metafórica de vestes para que os homens acorram animados e ajudem a apagar o incêndio que o teólogo afirma estar lavrando com sério perigo para todos? Vejo-me compelido a afirmar que a teologia de fato desmaquilada e revestida de moderna embalagem profana, tal como hoje surge em muitos lugares, torna muito simplória essa esperança. Sem dúvida cumpre reconhecer: quem tenta explicar a fé no meio de homens mergulhados na vida moderna e imbuídos da moderna mentalidade, de fato pode ter a impressão de ser um palhaço ou alguém surgido de um antigo sarcófago, que penetrou no mundo hodierno, revestido de trajes e pensamentos da antiguidade, incapaz de compreender este mundo e de ser por ele compreendido. Todavia, se quem tentar anunciar a fé exercer bastante autocrítica, em breve notará não se tratar apenas de uma forma, de uma crise do revestimento em que a teologia se apresenta.
Na estranha aventura teológica frente aos homens de hoje, quem tomar a sério a sua tarefa há de reconhecer e experimentar não só a dificuldade da interpretação, mas também a insegurança da própria fé, o poder arrasador da descrença dentro de sua própria vontade de crer. Por isso quem tentar honestamente prestar contas da fé cristã a si e a outros, aprenderá, a duras penas, não ser ele em absoluto o mascarado ao qual bastaria depor o disfarce para poder ensinar eficazmente aos outros. Compreenderá que a sua situação não se diversifica muito da situação dos outros, como talvez inicialmente tivesse pensado. Terá consciência de que de ambos os lados estão presentes as mesmas forças, muito embora de maneiras diversas.

(...)

Razão da fé

Refletindo sobre tudo isto, constata-se o quão estreitamente se interpenetram a primeira e a última palavra – o "creio" e o "amém" –, o quão profundamente perpenetram o conjunto de cada artigo do "credo", determinando assim a interna localização de tudo o que entre elas se encontra. Na harmonia do "creio" e do "amém" torna-se visível o sentido de todo o movimento espiritual de que se trata. Anteriormente constatamos que, no hebraico, a palavra "amém" tem a mesma raiz da qual se deriva o termo "crer"; o confiante colocar-se sobre uma base que sustenta, não por ter sido feita e calculada por nós, mas precisamente porque não somos capazes nem de fazê-la. Conota a entrega, a adesão ao que não podemos nem precisamos fazer, ao fundamento do mundo, como sentido que, por primeiro, nos patenteia a liberdade de fazer. Contudo, o que aqui se realiza não é uma entrega cega ao irracional. Pelo contrário, trata-se de uma aproximação do Logos, da ratio, do sentido e, assim, da mesma verdade; porquanto, finalmente, a base sobre que se coloca o homem não pode, nem deve ser outra que a mesma verdade esclarecedora. E assim tornamos a topar, e em lugar onde menos o esperaríamos, com uma derradeira antítese entre conhecimento pela facticidade, e fé. O conhecimento experimental, como já vimos, deve ser positivo por sua determinação mais própria, deve limitar-se ao dado e ao medido. Ora, consequência disto é que ele não indaga mais pela verdade. Consegue os seus êxitos precisamente renunciando à pesquisa da verdade e concentrando-se na "exatidão" e na "concordância" do sistema, cuja ideia hipotética deve comprovar-se através da experiência. O conhecimento pelo factível, para dizê-lo ainda de outro modo, não pergunta pelas coisas por si e em si, mas somente pela sua funcionalidade para nós. A virada para o conhecimento experimental consegue-se exatamente pelo fato de não se considerar mais o ser em si, mas meramente em função da nossa obra. Isto significa que no desprendimento, na separação entre o problema da verdade e o ser, e em seu desdobramento sobre o "fato" e o "factível" (factum et faciendum) o mesmo conceito da verdade foi substancialmente alterado. A verdade do ser em si foi substituída pela utilidade das coisas para nós, utilidade que se comprova na exatidão dos resultados. E aí é certo e irretratável que somente essa exatidão se nos comprova como calculabilidade, enquanto a verdade do próprio ser se subtrai ao conhecimento como cálculo.
A atitude cristã do crente exprime-se na palavrinha "amém" em que se interpenetram os significados: confiar, confiar-se, fidelidade, firmeza, base sólida, estar em pé, verdade; e isto quer dizer que somente a verdade é o lugar em que o homem pode firmar-se, só ela pode constituir para ele um sentido. Só a verdade é a base adequada para o homem ficar em pé. Portanto o ato da fé cristã inclui essencialmente a convicção de que o fundamento que dá o sentido, o Logos sobre o qual nos colocamos, também é a verdade, exatamente enquanto como sentido. Sentido que não fosse a verdade, seria um non-sens, um absurdo. A inseparabilidade de sentido, fundamento, verdade, expressa tanto no Logos grego, como no "amém" hebraico anuncia ao mesmo tempo uma concepção cósmica inteira.
Na inseparabilidade de sentido, fundamento, verdade – riqueza vocabular que não podemos reproduzir em nossa língua, com um termo só – que tais palavras encerram, transparece a rede inteira de coordenadas em que a fé cristã contempla o mundo e se lhe apresenta. E isso também significa que a fé, em sua essência, não é um amontoado de paradoxos cegos. Significa ainda que é loucura pretextar mistério como desculpa para o fracasso da inteligência, como não poucas vezes tem acontecido. Se a teologia apresenta uma série de irregularidades, querendo não só desculpá-las, mas, se possível, canonizá-las, apelando para o mistério, estamos aí diante de um abuso da autêntica ideia de "mistério", cuja finalidade não é destruir a inteligência, mas, antes, possibilitar a fé, como ato racional. Em outras palavras: fé.
O sentido do vocábulo grego Logos corresponde, de algum modo, à raiz hebraica 'mn (amém): palavra, sentido, razão, verdade estão nele incluídos, certamente não é conhecimento no sentido de conhecer o factível e de sua forma de calculabilidade. A fé jamais pode ser algo assim e se tornaria ridícula, se tentasse estabelecer-se nestas formas experimentais. Mas vale também o contrário: o conhecimento experimental do factível, por natureza, está limitado ao fenômeno e ao funcional, não representando o caminho para encontrar a verdade da qual desistiu em razão do seu método. O caminho que o homem recebe para preocupar-se com a verdade do ser não é o conhecimento, mas a compreensão: compreensão do sentido ao qual aderiu. Sem dúvida devemos acrescentar que a compreensão só se patenteia no "estar-em-pé" e não fora daí. Uma coisa não acontece sem a outra, porque compreender significa agarrar e conceber como tal o sentido aceito como fundamento.
Creio ser isto o sentido exato de "compreender": que aprendamos a conceber a base sobre a qual nos colocamos, como sentido e como verdade; que aprendamos a reconhecer que o fundamento representa um sentido. Assim sendo, compreender não conota contradição à fé, mas representa os seus mais lídimos interesses. Pois o conhecimento da funcionalidade do mundo, transmitido de modo tão grandioso pelo hodierno pensamento técnico-científico, ainda não traz consigo uma compreensão do mundo e do ser. Compreensão nasce da fé. Por isto a teologia, como tratado compreensível, lógico (= racional, intelectual, compreensivo) de Deus, é uma das tarefas originais da fé cristã. É nesta situação que se baseia o indiscutível direito do grego no cristão. Estou convencido de não se tratar de mera coincidência quando, ao realizar-se, a mensagem cristã penetrou primeiro no mundo grego, fundindo-se ali com a busca da compreensão, da verdade16. Fé e compreensão se pertencem mutuamente não menos do que fé e estar, simplesmente porque compreender e estar são inseparáveis. Neste sentido a versão grega do versículo de Isaías sobre a fé e a permanência, revela uma dimensão que não pode ser retirada à frase bíblica, se não se quer ser relegado ao âmbito do fanatismo e do sectarismo. Aliás, é próprio do entendimento avançar sempre, além da compreensão, até à constatação de que somos totalmente apreendidos.

Ora, se entendimento é compreensão da nossa apreensão, isto significa que não estamos em condições de concebê-lo novamente, porquanto nos dá o sentido pelo fato de conceber-nos. Neste sentido é com razão que falamos de mistério, como de uma base que nos prende e sempre nos ultrapassa, que jamais pode ser alcançada ou ultrapassada por nós. Ora, é exatamente na total apreensão pelo ainda não compreendido que se processa a responsabilidade do entendimento, sem a qual a fé seria indigna e se destruiria a si mesma.

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