segunda-feira, julho 18, 2016

O homem, a educação e a psicologia

Por Gustavo Corção (excertos escolhidos por Marta Baga e publicados em 
“Crônicas de Gustavo Corção”


Se houve tema em voga durante o século XX, foram eles a Educação e a Psicologia, iniciadas com pesquisadores e psiquiatras como Freud e Montessori, mas popularizadas sobretudo a partir das correntes existencialistas do pós-guerra. Nos tempos em que viveu Corção as descobertas nesses campos pululavam nas revistas acadêmicas, nas notícias sobre pesquisas e nas páginas dos jornais que noticiavam as novas ‘revoluções’ feitas em nome da pedagogia, da autoestima, da liberdade, da desopressão, da política ou do amor-livre. Certamente um intelectual sensível e desdobrado sobre as questões mais práticas do cotidiano não ficaria isento de tratar desses fenômenos sociais e de dar sobre eles seu parecer.
Corção não se arvora em psicólogo ou em educador especializado em novos métodos pedagógicos. Fala em primeiro lugar, como afirma no primeiro capítulo de ‘Claro Escuro’, como homem dotado de razão e de senso comum, submisso à Lei Natural, que crê que todo homem consciente da sua humanidade pode e, mais do que isso, tem o dever de participar da crítica positiva ou negativa aos processos educativos e psicológicos da ciência e da sociedade. Isso porque, enquanto homem, ele é livre e pensa, é cidadão, pai, filho, irmão, membro da comunidade e não pode esperar que a luz sobre a sua própria vida venha dos laboratórios dos especialistas. Corção, além disso, foi criado num colégio-casa, era professor, pai de família numerosa, homem do mundo, profissional e intelectual, de vida muito vivida e de um gigantesco círculo de relações pessoais de todo tipo.  A sua vasta experiência certamente não o deixaria calar-se, sobretudo frente àquelas teorias elaboradas por cientistas muito menos ligados à realidade cotidiana do que ele.
Corção é, enfim, cristão convicto e, como tal, crê numa resposta maior e total que dá sentido a toda a vida, desde a eternidade até os menores detalhes da luta de cada dia. Para um cristão os Evangelhos não perdem o seu valor perante as grandes invenções técnicas de um mundo deslumbrado pelas máquinas da sua Revolução Industrial, pelas maravilhas da sua corrida tecnológica, pelas desgraças causadas pelas guerras ou pelo drama de gerações que já não se conectam por causa do ritmo do seu progresso material. Ao contrário, Corção quer nos mostrar nestas crônicas que a verdade antropológica é sempre a mesma, na pré-história ou na era espacial, e que os homens, continuamente iludindo-se com mil soluções pseudo-definitivas, serão sempre infelizes e incompletos – como disse Santo Agostinho - enquanto se esquecerem por Quem e para Quem foram criados.   

Abaixo, a seleção de alguns trechos de Corção, que expressam sua forma de pensar:



A Sinceridade em Unamuno

O importante para a paz do mundo não reside na disposição de dizer a verdade. Reside antes, fundamentalmente, na disposição de ouvi-la.

Convém lembrar que nossa inteligência não é a medida das coisas. Ao contrário, as coisas é que são a regra e a medida da inteligência.

O homem insincero, o impostor, o pedante, o empulhador, o traiçoeiro – todos são repugnantes e todos contribuem para tornar este mundo um vale de lágrimas. Mas o sincero, que coloca a sinceridade na estaca zero, e parte de si mesmo, e julga ser verdadeiro pelo simples fato de estar dizendo o que pensa e sente, esse não está enganando os outros: é sincero, diz o que pensa, pronuncia as verdades da sua fabricação, assinadas, autenticadas, personalíssimas, não engana os outros... mas se engana a si mesmo quando julga que possui o supremo critério da verdade.

[...] concluímos que a sinceridade só é boa, só é fecunda, só é sã, quando se firma numa virtude mais básica e mais nutritiva: a humildade. Santa Teresa d’Ávila dizia que a humildade é a verdade. Diremos nós, para os paladares modernos, que é a sinceridade da sinceridade; ou diremos, quase como o lusitano da anedota, que é aquilo sem o que a sinceridade deixa de ser sincera consigo mesma.

Concepção romântica e realista do Amor

A primeira grande notícia que nos traz o amor é pois a da superabundância do ser. O universo, não só está completo, como também excedeu às expectativas. Existe o amor, existe o desejado! E dessa notícia o homem deslumbrado tira um agradecimento atirado às estrelas. Antes de entrar na fase do isolamento e da conspiração, o namorado de um dia é expansivo, tem vontade de abraçar as pessoas que passam, tem desejo de ver em torno de si uma universal felicidade. Ao contrário [...] inverte-se a experiência nos dias de malogro. Volta tudo atrás, passando em sentido oposto pelos mesmos pontos. O universo torna-se pérfido, emagrecem as existências, fica tudo cinzento, sem perfume e sem gosto. A decepção amorosa diminui o brilho das estrelas. Resseca o cosmos. Encolhe o mundo.

O amor humano, configurado à vida física do homem, tem esse estranho itinerário: parte do paraíso para o mundo; começa na claridade de uma visão e aceita a inflexão com que se torna aparentemente menos fulgurante, e menos belo. Troca o brilho pela obscuridade, a delícia pela dedicação; e deixando guardada a beleza com que se compõem as óperas e as baladas, reveste-se da obscura, da paciente, da humilde bondade – da pura bondade que é a própria essência do amor. E é neste ponto que começa a verdadeira e inenarrável história do verdadeiro amor. E é neste ponto de inflexão que inicia uma nova e invisível ascensão em que o amor rastejante espera o dia em que a crisálida se liberte, e as asas vivas da alam tornem a encontrar a grande luz, o grande fogo, que é a fonte viva de todos os genuínos amores.

A Política da Pessoa Humana

Na verdade, o amor verdadeiro, o amor de bem querer, em todos os seus matizes, em todas as suas variantes, é sempre um valorizador, ou até o mais alto valorizador da pessoa humana. Quem ama, ama a pessoa e não os seus títulos exteriores. [...] Vejam por exemplo o que acontece na guerra. Para o Estado Maior, o soldado é uma unidade numérica facilmente substituível. Caídos estes, enviam-se aqueles, e o regimento ou o exército sentem pequena diferença quando João toma o lugar de José. Para a mãe e para a noiva também agrada a farda do soldado, que dá certo brilho à pessoa de José ou de João, mas quando acontece aquele soldado tombar, “nas malhas que o Império tece”, como diz Fernando Pessoa, só a um louco lembraria a ideia de enviar à mãe e à noiva outro soldado, como faz o Estado Maior.

Amizades

Todo amigo é amigo de infância. Não importa se você o conheceu no mês passado ou se soltou papagaio com ele na Rua do Matoso. Se a amizade é verdadeira ela tem esta força que vence as distâncias e os anos, e tem necessidade de uma profunda comunhão de vida. [...] O amigo quer o amigo como companheiro de caminhar neste mundo. E por isso a primeira ideia que nos acode quando pensamos na perfeição da amizade é a da fidelidade.

Contradições de uma Cultura em pânico

Segundo ensina Santo Tomás (S. T. II – II, Qu. 25, art. 7) o egoísta não é aquele que se ama a si mesmo com exagero, acima de certa medida, em grau excessivo, e sim aquele que se ama equivocadamente, com falso critério, com uma falsa escala de valores em que as coisas exteriores são colocadas acima das interiores.

A vaidade é um reagente que faz o mundo diminuir. O vaidoso, o enfatuado, o narciso vive num pequeno mundo ainda que pense estar fazendo grandes coisas, ou professe publicamente seu horror por coisas pequenas. O vaidoso, o amor próprio que rompeu as barreiras do som interior, o vigarista de si mesmo (e necessariamente dos outros) é sempre um homem pequeno aprisionado num mundo pequeno. Se ele tem a turma, o bloco, que lhe importam os homens e os anjos? Que lhe importa o julgamento de Deus?

Vejam os granfinos, vejam os personagens que se movem no microscópico mundanismo: todos eles, à custa de valorizar uma coisa de pequenínissimo valor, tomaram a medida dela. São almas que se tornaram proporcionadas a suspensórios ingleses, a recepções e a cortes de vestidos.

Os Paradoxos da Sinceridade

Ora, meu amigo, é muito fácil dizer que devemos agir segundo nossos sentimentos ou nossas convicções interiores. O meu problema primeiro não vem propriamente da perplexidade de minhas convicções ou da ambiguidade de meus sentimentos. Há muita coisa em que penso ora de um modo ora de outro; há muita coisa em que sinto ora o amargo ora o doce. Mas não é nessas indeterminações do objeto que reside a principal dificuldade; é antes na indeterminação do próprio sujeito. Serei eu, eu mesmo, fulano de tal, que sente o que sente e pensa o que pensa, ou será o elo cromossômico, a natureza, o clima, o café que este polimorfo conjunto acabou de tomar?

Curioso paradoxo o da sinceridade erigida em suprema virtude! Fruto sazonado da civilização individualista, chegou ao apogeu no momento exato em que se arruinou. De Nietzche a Freud o fundamento da sinceridade individualista, procurada na singularidade sensível, procurada no eu carnal, passa do máximo ao mínimo, do fulgurante ao humilhante. Se o centro da pessoa humana tem de ser marcado com critérios ditados pelo empirismo, se o sentir é mais autenticamente pessoal do que o pensar, se é nas profundezas da individualidade, nos abismos da sensibilidade que devemos procurar aquilo que verdadeiramente sentimos, então, ai de nós, somos as mais desgraçadas criaturas. Sim, mais do que desgraçados, somos ainda escarnecidos pelos escalões supremos que governam a farsa cósmica, pois além de sermos joguete de impulsos, temos a requintada infelicidade de não o sabermos, e de termos levado tanto tempo a nos supormos alguma coisa, humilde embora, mas enfim digna, ou merecedora, ou lá que outro termo inventemos, da misericórdia divina.

Chega-nos agora o psicólogo com a sua psicopatologia dos atos cotidianos, e nos explica que não só nós não fazemos o que queremos como nem sabemos o que queremos. E tudo se torna supremamente ridículo, sim, ridículo, porque o personagem que era digno de dó por causa da farpa que trazia na carne, tornou-se de repente um personagem essencialmente enganado, substancialmente enganado, metafisicamente enganado, coitado!

A moralidade dessa história é relativamente fácil de compreender: a procura do centro da pessoa, com os critérios materiais do empirismo, só podia chegar a essa confusão, a essa dispersão, a essa anulação da pessoa.

Muita gente resiste ao ensinamento, à palavra de Deus e à palavra do bom senso humano, com um curioso sentimento de dignidade ofendida, julgando que é mais marcada a personalidade que menos recebe de fora e mais fabrica seus próprios conceitos. Ora, é esse crispado e orgulhoso personagem que mais fraca personalidade possui [...]

Perversos Polimorfos

É curioso notar que muita gente vê em Freud um libertador, um destruidor das cadeias que acorrentavam o sexo em nome da moral e da religião; mas basta encontrar dois ou três desses libertados, ouvir-lhes a nervosa e expressiva profissão de fé, observar, mesmo com moderada atenção, seus gestos e atitudes, para descobrir, sem sombra de dúvida, que é bastante melancólica aquela libertação.



A Metafísica do Sentimento de Inferioridade

Mas pelo amor de Deus, não é preciso ser chetif, mal-nascido, corcunda, para sentir em si o vexame da inferioridade. Não. Em todos os dramas, em todas as situações de conflito, onde há dor, onde há atrito, haverá, na mais magnânima das almas um sentimento de impotência ou de insegurança. E em todas as situações da vida, seja a mais bem-sucedida, se a alma se consultar com sinceridade e finura encontrará no fundo de seu inventário uma insatisfação que coisa alguma do mundo poderá apaziguar. Esse sentimento, pois, decorre da natureza do homem com força de necessidade. Ser homem é não se conformar com os prêmios do mundo.

O verdadeiro remédio de todas as feridas do mundo e da vida não se encontra no mecanismo da compensação descrito abundantemente por Adler, nem sempre exequível, e quase sempre enganador do verdadeiro sentido da vida. O verdadeiro e único elixir para as feridas do amor próprio está no outro amor feito de generosidade e humildade.

Ainda o Conceito de Inferioridade

O homem é, essencialmente, uma natureza ascensional; e há de ferir-se, há de sofrer todas as vezes que contrariar sua subida; e há de se tornar um radioativo perigoso, um veneno da sociedade, todas as vezes que caricaturar sua vocação com as máscaras do sucesso momentaneamente apaziguador. [...] é preciso advertir, gritando por cima dos telhados, que não se deve estimular sob pretexto de cura dos inferiorizados as compensações que dilatam o amor próprio e que aumentam o teor de competição e de inimizade no universo do homem.



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